A queda do Barão da Bahia

ÂNGELO CALMON DE SÁ era o último remanescente da velha aristocracia educada na Suíça. A débâcle de seu banco, sob churrio público, representou a tomada por completo do poder econômico e político dos emergentes, outrora denominados noveaux-riches

 

Calmon de Sá: orgulho da Bahia

Por Hugo Studart
(Publicada originalmente pela revista Interview)

Duas mil orquídeas, mil antúrios híbridos e quinze galerias de tapetes persas espalhados pela nave do Mosteiro de São Bento ainda emprestaram uma certa suntuosidade merecida ao acontecimento. Foram despachados 2.600 convites e, pelo calor humano denunciado nas maquiagens de algumas baroas, é provável que ninguém tenha faltado. O trânsito do Centro Histórico de Salvador foi desviado para dar vazão aos tilburis turbinados. Fora do templo, um enxame de mulambos desandava a aplaudir a noiva, linda como princesa, e se acotovelava para tirar uma lasquinha daquele que prometia ser um bolodório retado.

Mas a recepção, na casa da donzela, foi o primeiro sinal exterior de que algo de bodoso estava ocorrendo no bolso do paizão. Para começar, havia apenas 750 convivas e uma renca de quase 2 mil barrados. O salmão chileno foi servido com regulagem espaçosa e o caviar era norueguês, dos baratos, desses de 250 dólares o quilo. Uísque, somente oito anos, John Walker Red Label, o mais óbvio, e o vinho era adocicado, Liebfralmilch, ideal para bárbaros alamanos. Ainda houve uma certa concessão na primeira rodada de champanhe, Veuve Cliquot, mas os garçons logo mandaram braza num M.Chandon, nacional. Teria sido tudo muito correto no casamento de Ana e Pedro, até perfeito, fossem eles dois jovens ricos, apenas ricos, ou mesmo fizessem parte dessa tal Sociedade Emergente. Ficou fora do tom por conta da linhagem nobre do casal.

Aninha é filha do magnata Ângelo Calmon de Sá, duas vezes ministro da República, industrial da petroquímica, dono de três fábricas de Coca-Cola, maior exportador de cacau do Brasil, capo de uma das grandes criações de nelore do mundo e, naqueles dias, chairman do mais antigo banco da América Latina, o Econômico, potência de 161 anos na ocasião. Pedro, de sobrenome Didier, também é egresso de uma das mais nobres cepas locais. É neto e herdeiro de Luis Vianna Filho, político de megatonagem e história, ex-governador, ministro, senador e biógrafo do grande Rui Barbosa, aliás, maior biógrafro das terras abaixo do Equador.

 

UM ANO TERRÍVEL

Enfim, em se tratando do regabofe de tal granfinagem, esperava-se lambicagens com o de sempre, a saber, salmão do Mar do Norte, caviar Beluga da Rússia (1.000 dólares o quilo) e Chivas a rodo. Semanas depois, quando o pai da noiva quase ilustrou as páginas policiais da imprensa por conta do sururu que foi a quebra de seu banco, o Econômico, descobriu-se que o casamento de Ana e Pedro havia se tornado versão do Baile da Ilha Fiscal, a última aparição social daquela velha aristocracia brasileira alfabetizada em francês.

Jorginho Guinle e Carmem Terezinha Mayrink Veiga eram os representantes mais besuntados dessa linhagem, iniciada ainda no desmanche do Segundo Império. Ângelo Calmon de Sá, sucessor legítimo do Marquês de Abranches, hoje conhecido por Barão da Bahia, havia se transformado no príncipe nacional dos aristocratas, um dos derradeiros remanescentes dessa gente realmente rica, fina e poderosa. Lutrido como um Bill Gates e com sestros de work-a-holic, Doutor Ângelo parecia ser o único lorde credenciado a entrar na Era Pós-Moderna com cabedal para enfrentar a chibata do povo da Sociedade Emergente, outrora denominados noveaux-riches, que tomaram por completo o poder econômico e político no Brasil.

Quando ocorreu esse casório, em abril, Jorginho Guinle já precisava dar calote em chofeur de taxi, Regina Marcondes Ferraz filava destilados fuleiros no camarote da Brahma e a Justiça já havia determinado o arresto dos tapetes Hamadann dos Mayrink Veiga. Sobrara, apenas, Ângelo Calmon de Sá, na Bahia, e Olavo Monteiro de Carvalho, no Rio. A tragédia do príncipe baiano chegou em agosto, quando Fernando Henrique Cardoso decidiu-se estropiar com o Banco Econômico. Diria Elizabeth II que 1995 foi deveras um Annus Terribilis.

 

 

 

SIC TRANSIT

A época escolhida pelos picunhetos diretores do Banco Central para intervir no Econômico foi de uma esculhambação só. Ângelo ainda estava desenxabido em casa quando foi obrigado a vir a público enfrentar o tangolumango. Reparava-se de uma intervenção múltipla numa clínica da rua Dona Mariana, Rio de Janeiro, dirigida por Ivo Pitangui. Pelo que consta, esticou umas pelancas e implantou novas moitas capilares. Aproveitou para fazer outro tingimento e remoçou prá lá de cinco anos. Ângelo ainda passou quase uma semana recolhido, armando com advogados paulistas e com a patriótica bancada política baiana, enquanto lá fora os correntistas, febrentos da vida, acusavam o barão de comidilhas mil com o dinheiro alheio.

“O banco não quebrou”, jura, de mãos-juntas, Ângelo Calmon de Sá. “Escreve por favor que o Econômico sofreu foi uma grande redução dos depósitos à vista provocada por boatos de mercado. Isso nos levou à linha de redesconto do Banco Central (Tradução: cheque especial para bancos). Mas não quebramos, tem outros no redesconto, que foi feito para isso mesmo, para evitar a quebra dos bancos”.

Ângelo era o orgulho da Bahia. Ele sempre confiou no seu taco e é capaz de ministrar aulas de auto-estima a Lair Ribeiro. Numa tarde de sexta-feira, quinze dias depois da cangacha, quando os tufos da cabeça já haviam desassanhado, o barão apareceu de surpresa para os diretores exilados do Econômico. Proibidos pelo Banco Central de adentrar na sede da instituição, eles vinham se reunindo diariamente em um prédio ao lado para prosear sobre as viscissitudes da vida. Ele encontrou os ex-bancários num tremendo chororô.

“Que cara de defundo é essa? ”, ralhou o ex-banqueiro, lépido e faceiro. “Isso tudo é transitório, daqui a alguns dias estaremos todos de volta ao comando do banco”.

Só faltou pronunciar a máxima em latim castiço — sic transit gloria mundi. Ficaram todos pasmados. Ou o barão seria um gênio, ou ficara abilolado. Ou imaginava alguma cartada secreta para tomar o banco das mãos de FHC, ou havia perdido de vez a noção da estaboca em que se metera. Fernando Collor, a quem Ângelo serviu como ministro, depois do impeachment passou a vestir terno e gravata para ler os jornais que chegavam à Casa da Dinda, no melhor estilo de Napoleão com sua corte de bozengas no exílio em Santa Helena. A esta altura, prá mais de três meses depois da intervenção, já se sabe se Ângelo Calmon de Sá também ficou pirado.

 

O GENTE FINA

É um sujeito por demais elegante e agradável, o barão. Só usa gravatas italianas, sapatos de cromo alemão, camisas francesas e ternos de corte inglês azul marinho. Esmera-se por manter os fios de cabelo no lugar. Os mauricinhos baianos o têm como o maior dos porretas. Há trinta anos que pega no batente por volta das 7 da madrugada, antes de qualquer funcionário.

Quem quiser lhe falar com calma, precisa marcar hora antes das oito. Depois, sua vida vira um auê. Quando à frente do banco, eram 120 telefonadas por dia e viagens de jatinho dia-sim, dia-não. Ora dava um pulinho para jantar Carlos Menen na Casa Rosada, ora atravessava o oceano para almoçar com amigos banqueiros na Suíça. Mesmo lenhado, restou prá mais de dúzia de empresas sob sua administração. Reclama apenas do desespero de não ter mais para onde ir às 7 da manhã.

Gente fina que é, Ângelo jamais levantou a voz para pessoa alguma, tem memória de elevante e é capaz de concatenar com rara competência números com situações, o que torna sua conversa agradabilíssima. Geralmente consegue saber onde o interlocutor quer chegar antes da primeira frase terminar. Estudioso, versa com conhecimento de causa sobre temas como mercado internacional de petróleo e integração da América Latina.

Só fala de improviso e costuma emborcar fácil a cabeça da platéia. Quinze dias antes da intervenção no banco, foi a Belo Horizonte fazer uma palestra explicando por que o sistema de irrigação brasileiro não está funcionando. Foi aplaudido de pé. Uma especialista pediu a palavra para dizer que nunca tivera aula tão profunda ou vira homem tão brilhante.

 

A ASCENSÃO DO PRÍNCIPE

Não pensem que Ângelo Calmon de Sá quebrou o banco com o intuito de desviar dinheiro público para seus negócios particulares, como se escreveu por aí. Esse sujeito virou chefão do Econômico com apenas 34 anos. Era um banquinho chulé, o 43º no ranking nacional, e as muitas famílias de acionistas queriam vendê-lo para investir em negócios mais rentáveis. O Econômico nascera quando Pedro II era ainda rapazola e o Regente Feijó era o rei-da-cocada-preta. Nos Anos 60, fora administrado por Miguel Calmon, deputado influente e ministro da Fazenda de João Goulart. Era tio de Ângelo e não tinha filhos. Primeiro indicou o sobrinho para o cargo de secretário da Fazenda da Bahia. Quando terminou o governo, Ângelo se impôs sozinho às demais famílias como o mais talhado para dirigir o banco.

Ele havia tido aquilo que nossas avós chamam de “educação esmerada”, mas não possuía muito dinheiro no bolso. Avionado, saiu comprando outros bancos menores e formando um conglomerado financeiro. Em em apenas cinco meses, passou de 43º para 29º maior banco no ranking nacional. Em 1995, o Econômico era o sétimo, com R$ 9 bilhões em depósitos e formava um grupo com  42 empresas, 35 delas em áreas não financeiras, como petroquímica e empreitagem. O capo Ângelo, por sua vez, saiu do nada para ser dono de 40% das ações do grupo e acumulara, ainda, R$ 93 milhões em bens pessoais,  declarados ao Imposto de Renda. Como ele conseguiu?

“Trabalhando mais que qualquer um”, explica Antônio Carlos Magalhães, seu ex-amigo, hoje desafeto.

Há 20 anos, o principe baiano foi chamado por Ernesto Geisel, então imperador do Planalto, para presidir o Banco do Brasil. Logo depois seria promovido a intrépido ministro da Indústria e do Comércio. Garantem seus desafetos que retornou a Bahia com o rei-na-barriga. Nessa época, era cheio de nove-horas. Mantinha um elevador exclusivo na sede do banco e viajava sozinho no jato particular; os diretores iam para o mesmo lugar em avião de carreira. Sejamos justos: há muito que o topete baixou. Ângelo liberou o elevador para a patuléia e as caronas de jatinho para os mais taludos.

Há uma década, construiu uma nova sede para o conglomerado e passou a inaugurar uma agência do Econômico por semana, nos mais longínquos mequetrefes baianos. Chegou a ter 726 agências, quase tantas quanto o Banco do Brasil. Foi nessa época que começou a se meter em canganchas com Paulo Sérgio Tourinho, dono da seguradora Aliança da Bahia, com 130 anos no mercado e 33% das ações do Econômico. Começaram também os primeiros problemas no banco.

“Talvez o Ângelo tenha sido presidente do Banco do Brasil moço demais”, ironiza Tourinho. “Ele não se acostumou com os números mais modestos da iniciativa privada. Retornou de Brasília como um piloto de Fórmula 1 tendo que andar a 80 por hora nas ruas da cidade”.

 

O INIMIGO INTERNO

Tourinho, outro baronete, é o oposto do sócio. Discretíssimo, foge da promoção como o Demo da cruz. Se desloca num Opala muxibento. Dedica boa parte do seu tempo ao Hospital Aliança, espécie de Albert Einstein da Baixa do Sapateiro. Certa feita, quando ainda era o maior acionista do Econômico, o baronete levou Angelo para conhecer uma de suas possessões rurais. Exercitando seu fino humor inglês, apresentou o presidente do banco ao capataz.

“Você pensa que é meu empregado mais bem pago?”, provocou Tourinho. “Pois saiba que o doutor Ângelo aqui ganha muito mais do que você”.

A partir desse dia doutor Ângelo passou a comprar ações desbragamente, até que sua holding, a Aratú, superou a Aliança. Tourinho e Angelo jamais poderiam dar certo um com o outro. O primeiro é um lorde inglês. Gravatas lisas, paletós de tweed, cavanhaque, fala baixo, não teme exús e não dá intimidade a orixá  algum. Enfrenta fila em aeroportos e carrega ele mesmo seus badulaques. Resolveu dar sua contribuição social construindo do próprio bolso um hospital de primeiro mundo onde a elite nordestina vai curar suas ziqueziras.

Ângelo é um executivo yuppie, sempre sorridente, disponível para um papo descompromissado e louco por fofocas e política. Só viaja (ou melhor, viajava) de jatinho, em um dos dois jatinhos Marcel Dassault da frotilha do Econômico. Sentia-se melhor num modelo Falcon 20, único no Brasil, deixando o Falcon 10, um tiquinho menor, para o extrovertido irmão Frank. Ajudou muito Irmã Dulce e continua mão aberta com a nova caritosa da moda, Irmã Rosa de Feira de Santana. Sempre que visitado pelas religiosas, se virava para arrumar dinheiro no exterior junto a essas provedoras de ONGs. Depois da quebra do banco, o baronete o fulminou o barão:

“Quem quer ser não pode querer ter. Não se pode ser banqueiro quem quer ser político. Quem pode imaginar o José Safra prefeito de Tel Aviv?”

Angelo descomplica sua relação com o sócio usando apenas uma palavra para definí-lo: “Omisso”.

 

O ENCOSTO ACM

Como o Banco Econômico de repente virou creca, o barão baiano passou a ser tratado como malestroso. Não pôde sequer limpar as gavetas do escritório em jacarandá-de-lei, decorado com a maior sobriedade pela paulista Turquinha Muniz. Carmem Mayrink Veiga, diga-se, enfrentou situação bem mais vexatória. Vestida de robe de chambre, assistiu a um oficial de justiça classificar seu tabliz de 100 mil dólares de “bodum em petição de miséria”. O barnabé não quis sequer arrestar o tapete e, diante dos protestos, decretou para a madame: “Sou mais o meu Tabacow”. Ângelo Calmon de Sá, pelo menos, foi substituído por um funcionário público de façanhas passadas no currículo, que está seco para tirar o Econômico da pocilga.

É provável que Ângelo tenha desandado por conta das mesmas mandingas pessoais que outrora o despacharam às alturas. Refiro-me à sua ambição. Ele sempre quis ser rico e poderoso. O primeiro objetivo, há muito atingiu. Quanto ao segundo, esbarrou desde sempre em um encosto chamado Antônio Carlos Magalhães. Há 25 anos que Ângelo está de orelha em pé por uma chance de governar a Bahia. Tem até frases sobre como encarar apoquentes do poder:

“Homem público tem que estar preparado para ser chamado de ladrão ou veado”, disse certa vez. “Graças a Deus ainda não me chamaram de veado”.

Ainda aos 34, quando acabara de assumir o banco, Ângelo sondou o amigo Antônio Carlos, ex-prefeito de Salvador, sobre a possibilidade de ser nomeado governador por Emílio Médici. “Não é possível, pois quem vai ser o governador sou eu”, respondeu. Em 1978, quando deixava o ministério, novamente pageou o cargo, desta em nomeação do chefe Ernesto Geisel. ACM deu-lhe um beiço pela segunda vez.

Em 1982, credenciou-se junto a ACM para ser o candidato do PDS, agora em eleição direta. O escolhido foi Clériston Andrade, que morreu em campanha. Parecia chegara a vez de Ângelo, ufa! Foi barrado pela legislação eleitoral da época, que impedia candidatura de banqueiros. Em 1990, lá estava Ângelo de novo; de novo Antônio Carlos se autoescolheu candidato. Pela quinta vez, agora muito de leve, o banqueiro ainda chegou a sondar o babalorixá para o pleito do ano passado, mas ele se fez de desentendido. “Meu candidato sempre foi o Paulo Souto”, explica ACM, referindo-se ao atual governador dos baianos.

Quando Ângelo casou a filha, Antônio Carlos recusou-se a prestigiar a recepção. Jantou à vista de todos no Alfredo di Roma, a manjedoura mais badalada do pedaço, e ainda explicou a quem perguntasse que  considerava a festança do bacana um acinte para com a barangada faminta. Ainda mais porque o banco, já se sabia na ocasião, havia se transformado em um lupanar financeiro e estava ameaçado havia quase um ano de sofrer intervenção dos xerifes de Brasília.

 

O GAGO E A MAÇARANDUBA

As ligações jurídicas entre os dois são fortes. Mas como pessoas físicas, não frequentam os mesmos lugares e raramente são vistos em convescotes de finais de semana. Dizem os amigos que Ângelo tem um misto de medo e fascínio por Antônio Carlos. Este, por sua vez, não deu trela para o barão e nunca permitiu que ele criasse asinhas. ACM, jamais escondeu que Angelo seria um desastre administrativo e não teria a menor chance em uma eleição direta. Angelo recebia Irmã Dulce sem hora marcada, mas não participa da festa do Senhor do Bonfim, por exemplo. Antônio Ermírio de Moraes, o barão paulistano, pelo menos gosta de ser chamado de Tonhão e tem outros vezos populistas.

É inimaginavel cogitar que um dia o barão baiano lasque o beiço numa vendedora de acarajé do Pelourinho. O curioso é que os dois, o magnata e o manda-chuva, têm a maior parte dos amigos em comum. Antônio Carlos Magalhães Júnior, o primogênito do babalorixá e seu suplente no Senado, foi por uma década alto funcionário do Econômico. Saiu porque o barão nunca permitiu que ele chegasse à Diretoria.

Ângelo sempre compareceu com ajuda de peso, em verdinhas, nas campanhas da Arena, depois do PDS, depois PFL. Escondido de ACM, também soltou algum capilé para a campanha da atual prefeita de Salvador, Lídice da Matta, ex-PCdoB, hoje abrigada entre os tucanos. Reza o folclore político que a entrega do agrado foi feita pelo mordomo daquela vetusta mansão do Morro das Mangueiras, onde mora o capitalista, ao namorado da então candidata comunista. Sôfrego, correu para o comitê com um grande pacote pardo  debaixo do braço. Teve um ataque de gagueira ao perceber que alí só tinha um monte de cédulas de pequeno valor, ou seja, dinheiro para despesas miúdas…

 

“Angelo jamais quebraria o Econômico”, defende Ubirajara Brito, cientista nuclear baiano, formado pela Sorbonne, um ex-exilado da ditadura da qual o barão foi ministro. “O que se cometeu foi um crime dos mamelucos paulistas contra o Brasil tupiniquim”. O ex-perseguido e o ex-ministro foram colegas de ginásio. No exílio parisiense do amigo, Angelo sempre dava um jeito de visitá-lo escondido dos chefes militares.

Essa, a de cultivar amizades, é uma das virtudes do aristocrata, a quem hoje só se imputam defeitos. Embora o general Ernesto Geisel (R$ 300 mil), o ex-ministro Mailson da Nobrega (R$ 60 mil), o embaixador Paulo Tarso Flexa de Lima (quase todas as economias) e Dom Eugêncio Salles (todo o dinheiro da Cúria), tenham micado nas mão do outrora confiável banqueiro-amigo, que sem avisá-los arrancou, no dia da intervenção, sacou R$ 10 mil para “despesas miúdas” das burras do seu centenário e movediço banco. Seu filho, Francisco Neto, apesar de educado na Suíça, foi menos gentil e se picou com R$ 250 mil.

 

“PRÁ FORA A PATULÉIA!”

No início da Era Collor, todos os bancos tiveram que encolher. Angelo optou por reengendrar uma instituição de linhagem e deu ordens para que os gerentes dispensassem a clientela menos afortunada. Um diretor chegou a verbalizar o que Olimpo queria:

“Coloca prá fora a patuleia!”.

Ao mesmo tempo, foi apresentado um plano mirabolante de transformar o Econômico no terceiro do país, atrás apenas do Bradesco e Itaú. O que teria dado errado? Angelo, quem diria, jamais imaginou que a força da sua instituição fosse a fidelidade da plebe ignara.

Seu irmão Francisco, o Frank do Country Club carioca, levou para dentro do Econômico algo muito pior que a gentalha. Foi conquistado pelo discreto charme de ricaços caloteiros e começou a conceder empréstimos podres, com interesses nebulosos. Para os usineiros alagoanos, aqueles mesmos que deram início à fortuna de PC Farias e Fernando Collor, deu 50 milhões de dólares. Óbviamente, jamais cogitaram pagar.

Ângelo, por sua vez, bozengou com dinheiro junto a uma penca de empresas micadas. A empreiteira Consic, de um cunhado seu, levou R$ 203 milhões. O Grupo Barreto de Araújo, do inefável Orlando Moscoso, duas vezes vice-governador da Bahia, levou outro naco  gorduroso; Jornal do Brasil; TV Manchete; Gazeta Mercantil, todos eles pegaram seu mondrongo. Ele tentava armar sua própria ruma no xadrez do poder. No folclore do Econômico está viva a frase de Tony Mayrink Veiga, logo após ser contemplado com R$ 14 milhões, quando perguntado de que forma pagaria o recebido:

“Pagar? Esse é um detalhe de somenos importância. O nosso Frank dilui isso no balanço do Econômico”.

Os interventores do Banco Central avaliam que há cerca de R$ 1 bilhão em micos. Um deles explica que o Econômico começou a quebrar quando seu presidente passou a dar mais importância ao sobrenome dos tomadores que ao cadastro.

“No Bradesco, o Tony Mayrink Veiga não teria nem direito a talão de cheques”, fulmina o interventor.

No Código Penal, chama-se isso de “administração temerária”, na Bahia, de “casa da mãe-Joana”. Em vez de executar os devedores, os prejuízos foram sendo varridos para debaixo do tapete. Produziram-se balanços maquiadíssimos, capazes de encabular Michael Jackson.

O melhor do negócio vinha na hora de distribuir os dividendos. Tudo que é banco partilha os lucros emitindo novas ações, os chamados “filhotes”. O Econômico era o único dos grandes que esguinchava dinheiro vivo. Em julho, dias antes da intervenção, o banco distribuiu a mufunfa relativa aos de R$ 36 milhões que teria lucrado no primeiro semestre de 1985, uma balela, é óbvio. Só Ângelo, que tem 40% das ações, embolsou R$ 14 milhões!!!

Deu para entender como foi que um jovem tubarão se fez gênio financeiro para anos depois, já na condição de último dos aristocratas, cair sob churrio público?

 

BARÃO MODESTO

“Um cão danado, todos a ele”, ensina um ditado baiano. Caído, Angelo vê negadas até suas muitas qualidades. Ou será que o prezado leitor pensa que o doutor Angelo Calmon de Sá não as tem?

O ex-banqueiro é tão chique que jamais ostentou o que possui (ou melhor, possuía). Mora em uma mansão no Morro das Mangueiras, elegantérrimo. São dois andares, cinco quartos, boate, uns mil metros de área interna e três mil de terreno. Pelos padrões do Morumbi, em São Paulo, ou do Lago Sul, em Brasília, chega a ser chinfrim. O cafufo de Tereza (filha de ACM) e de César Araújo da Matta Pires, o “A” da empreiteira OAS, tem de construção o que a mansão de Ângelo de tem terreno. A casa de veraneio do barão, na ilha de Itaparica é menor que a de qualquer vizinho.

O casal Calmon de Sá tem um Opala e uma Caravan. A filha Aninha, até casar em abril, circulava num Gol branco com motorista. Angelo tem um boa adega de vinho, nada comparável à de Vitor Gradin, mero diretor da empreiteira Odebrechet. Tem uma boa coleção de prataria antiga, mas nem chega aos pés das toneladas dos Costa Pinto. Possui bons tapetes persas, gobelin franceses e cuzquenhos catalogados, algo de matar Gilberto Sá de vergonha.

Angelo tem dois orgulhos. Para começar, as suas fazendas com um dos melhores plantéis de nelore do mundo –acanhadas frente aos latifúndios do ex-governador Nilo Coelho, o Nilo Boi conseguidos graças à sua forma muito peculiar de lidar com o erário. A maior diversão do magnata é pescar. O segundo orgulho é sua lancha. Ela é um pouco maior que a de Antônio Ermírio, é verdade, mas há pelo menos 100 embarcações ancoradas nas águas da Baia de Todos os Santos maior que a sua. Certa vez, ao vê-lo singrar, Eike Batista, marido de Luma de Oliveira, sorriu com desdém.

Angelo era visto com frequencia atravessando madrugadas em boates de Salvador. Dançava a noite inteira, quase sempre em companhia da mulher e dos quatro pimpolhos. Sempre foi muito festejado, contudo, jamais deixou que aquele povo da Sociedade Emergente sentasse à sua mesa. Nunca consentiu convidá-los para sua casa, frequentada, exclusivamente, pelos quase 100 familiares –os mais próximos. Os novos ricos odeiam o casal, acham-nos metidos a besta. São apenas recatados. Anna Maria, por exemplo, prefere jogar bridge com as irmãs a comparecer a uma badalação social, ainda que travestida de “festa beneficiente”. Ela já foi vista escolhendo roupas com uma sobrinha na liquidação da Mesbla e, em outra ocasião, foi flagrada, sentada no chão, arrumando as gavetas da boutique de uma amiga no Shopping Barra.

 

O CAFAJESTE E A MISS

O playboy paulista Baby Pignatari resolveu promover uma festinha de arromba com meia dúzia de amigos e uma dúzia de quengas no Hotel da Bahia, bem no Centro de Salvador. Isso foi há mais de 30 anos mas até hoje a zorralha provoca referências ruborizadas nas rodas das madames do Clube Baiano de Tenis. Na época, o hotel era tão chique que os coronéis do cacau costumavam manter apartamentos fechados para finais-de-semana. Ex-partner de Carmen Terezinha Solbiati, hoje Senhora Mayrink Veiga, e sócio de Jorginho Guinle no Clube dos Cafajestes do Copacabana Palace, Baby Pignatari levava a fama de bon vivant da melhor qualidade.

Ia muito a Salvador para cuidar da sua empresa, a Caraíba Metais, à bordo de seu incrível avião, um quatrimotor Electra, PT-DZK, com cinema, bar, escritório e suíte com banheira. Para se ter idéia do luxo da aeronave, ela ainda voa pelos quatro cantos do mundo com seu novo dono, o reverendo Rex Humbard, o Edir Macedo dos States. Naqueles tempos, o imponente Electra, tomando meio pátio do Aeroporto 2 de Julho, era uma competente provocação do playboy paulista aos engruvinhados coronéis locais, com seus ternos de linho branco e seus Simca Chambord. Um dia, em pleno Campo Grande, deu um porre em um jegue com champanhe Cristal. Pelo simples prazer de afrontar aquela doce gente morena, laçou para noiva o pitéu mais cobiçado do Pelô, a miss Bahia, Anna Maria Carvalho, moça recatada e de boa família de Feira de Santana.

Voltemos à baconíada promovida por Pignatari no hotel. A ousadia do estróina ultrapassava os limites da malemolência baiana. Depois de muito scoth e fartas cafungadas de um rapézinho branco, por ele introduzido na vida baiana, colocou uma das periquitas sentada na sacada da suíte, núa em pêlo, com as zambetas para fora. A multidão, na praça defronte, deliriou. Baby ainda ajudou a pururuca a fazer sua performance pública. O Doutor Octávio Mangabeira, ex-ministro e ex-governador, glória da Bahia, vivia seus últimos dias morando no hotel por ele contruído, de favor. Ao ver movimentação, gritou para a mulher.

“Esther, corre para ver! Enfim, o povo da Bahia reconhece o quanto fiz por ele”.

E tome acenos para a multidão, cada vez maior. Doutor Octávio morreu feliz. Isso ele deve a Baby Pignatari. A mocinha comportada, contudo, se viu obrigada a chutar o pretendente. Mas tudo bem, comentaria mais tarde o endiabrado, com desdém. A miss era por demais jogo-duro. O escroque até consentira noivá-la e, ainda assim, ela não baixara a guarda. Não durou muito seus embalos; Baby quebrou.

Logo depois a miss Anna Maria arrumaria novo pretendente, jovem rescendendo a colônia Lancaster, ambicioso e apaixonado, bem mais promissor que o primeiro, diga-se, chamado Ângelo Calmon de Sá. Tiveram quatro filhos, estudados na Suíca, e ainda hoje vivem juntos. Isso, também ele, deve a Baby Pignatari. Mas apesar de tudo, o destino da jovem miss estava traçado pelo Senhor do Bonfim. Com um ou com outro, ela seria a mulher de um milionário. Com um ou com outro, seria a mulher de um quebrado.

Sic transit gloria mundi. Depois de se tornar parte da paisagem dos ricos e poderosos, a ponto de seu próprio nome, na Bahia, ser confundido por dinheiro, Angelo Calmon de Sá encontra-se recolhido a seus próprios pensamentos. Está percorrendo o sinuoso caminho que leva ao opróbio. Chegou a confessar  –quem diria?– frente às câmeras de TV, que jamais precisara de qualquer tipo de medicamento para dormir, mas que agora, mesmo tomando, não conseguia repousar tranquilo.

O telefone toca menos que antes e nenhum dos amigos que ajudaram a enterrar o Econômico têm tempo para lhe dar um alô. A grama só não irá crescer na mansão do Morro das Mangueiras porque Anna Maria tem um bom jardineiro. Ademais, Angelo ainda toca pelo menos outros 20 lucrativos negócios. Contudo, não é mais um banqueiro. Seus bens estão indiponíveis e, suprema humilhação, não pode mais ter um talão ou assinar um cheque. Os parvenouz dessa tal Sociedade Emergente estão provando ao degredado Barão da Bahia, ultimo dos sobreviventes da velha aristocracia educada na Suíça, que sem o Econômico Angelo Calmon de Sá passou a ser um homem como as suas própria despesas.

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