A nossa revolução cordial

Leituras sobre o conceito do “homem cordial”, de Sérgio Buarque de Holanda, em diálogo com o diário amoroso que o capitão Carlos Lamarca escreveu para Iara Iavelberg (Monografia para disciplina História e Historiografia, do Mestrado em História da Universidade de Brasilia, Profºs Drs. Diva do Couto Muniz & Marcos Magalhães Aguiar)

Lamarca, em 1965, ainda no Exército: exemplo acabado do “homem cordial” do mestre Sérgio

 

Iara Iavelberg: despertando a cordialidade do capitão, mas dentro do conceito opoosto ao do mestre Sérgio

1 – Introdução 

Iara tinha o rosto lindo, a cabeça brilhante e o coração revolucionário. Já era a musa da esquerda latino-americana quando um capitão do Exército brasileiro, Carlos Lamarca, desertou de armas em punho para se tornar comandante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR)[1]. Logo tombaria de encantos por Iara. A paixão do capitão pela guerrilheira virou lenda entre a intelectualidade pátria, nossa melhor versão de Tristão & Isolda, Lancelot & Guinevere, Garibaldi & Anita, a velha história do bravo guerreiro lutando contra ogros e dragões para provar seu amor pela musa.

Em 2002 faz 30 anos que ambos tombaram, Lamarca & Iara, nas mãos dos militares. Morreram na Bahia, em locais e datas distintas[2]. Exatamente por essa razão, três décadas redondas de distância, optamos por transformar a história desses dois personagens em objeto central de um ensaio a respeito do imaginário dos militares e dos revolucionários brasileiros. O ponto de partida é o diário que Carlos Lamarca escreveu em seu exílio na caatinga baiana entre 8 de julho e 16 de agosto de 1971[3].

Trata-se de um documento pouco conhecido pelos historiadores, apesar de sua riqueza e singularidade dentre aqueles já produzidos durante os anos de chumbo da ditadura militar no Brasil –de 1964 e 1979. Esse diário, na verdade, se parece muito mais com uma longuíssima lírica romântica do que com registros racionais de um bom revolucionário. Há trechos marxistas-leninistas, sim, mas o ponto forte desse documento, em nossa visão, são as declarações de amor que revelam o imaginário do nosso mais conhecido aventureiro:

“Neguinha, a fôrça da coletivização é espantosa, fico a imaginar uma fazenda coletiva – e me babo só de pensar! Você está presente nêsse particularmente você é para mim, antes de tudo uma necessidade: revolucionária, educadora, existencial, total”[4].

Tomamos emprestado o termo “Nossa Revolução”, cunhado pelo mestre Sérgio Buarque de Holanda, para dar título a este ensaio. Trata-se do título que ele deu ao sétimo e último capítulo do clássico Raízes do Brasil [5]. Quando ele escreveu sobre a “Nossa Revolução”, em meados da década de 1930[6], ele estava se referindo “ao processo geral – e em verdade revolucionário – da transformação dos territórios coloniais em sociedades cultas e modernas”, de abandonar as raízes ibéricas pelo estilo americano, a economia agrária pela urbana. Para ele, o termo “revolução” não tinha, necessariamente, a acepção de convulsão  ou sangue, como ocorrera nos precedentes históricos mais conhecidos, as revoluções americana, francesa e russa. A versão brasileira seria:

“Uma revolução lenta, mas segura e concertada, a única que, rigorosamente, temos experimentado em toda a nossa vida nacional. (…) A grande revolução brasileira não é um fato que se registrasse em um instante preciso; é antes um processo demorado e que vem durante pelo menos há três quartos de século”[7].

Não temos por objetivo debater o conceito de Sérgio Buarque sobre o que venha a ser revolução. Ao contrário, concordamos com sua visão concernente aos processos de mudança no Brasil. Contudo, esclareça-se de antemão que tomamos emprestada a expressão “Nossa Revolução” para analisar tão-somente as experiências da guerrilha armada que grupos socialistas, de cunho marxistas-leninistas, utilizaram com o objetivo de realizar a revolução que introduziria o socialismo no país, entre o início dos anos 1960 e fins dos anos 1970. Trata-se da época em que a Doutrina Brejnev[8] patrocinava ações de guerrilha rural e de terrorismo urbano para que aliados da União Soviética tomassem o poder em países de economia capitalista. Em contraposição, ressalte-se, os Estados Unidos patrocinaram a reação através da implantação, nos países visados, de regimes autoritários, quase sempre governos militares. É no contexto internacional da Guerra Fria[9] que se insere este trabalho. Portanto, a expressão “Nossa Revolução” será aqui utilizada não exatamente no conceito amplo (e pacífico) proposto por Sérgio Buarque. Mas num contexto limitado, específico –talvez até obtuso, apenas como referência à luta armada socialista. Ou seja, “Revolução”, segundo a visão dos que se propuseram a fazer a revolução armada nos anos 1960 e 1970 no Brasil.

Reportamo-nos novamente a Buarque de Holanda que, também em Raízes, apresentou o conceito do “homem cordial” – termo que utilizaremos ao longo de todo este trabalho–, e que tanta polêmica já provocou na historiografia brasileira. Logo após a publicação de Raízes, Cassiano Ricardo interpretou o conceito como sendo do homem bom, cortês, polido, gentil, afável, avesso a soluções bélicas e sangrentas –que se contrapõe ao homem mau, violento e indisciplinado. Tal interpretação terminou por ser reproduzida em inúmeros livros didáticos, por décadas, criando uma auto-imagem decerto reducionista do brasileiro.

Em 1948, Sérgio Buarque de Holanda publicou carta ao colega retificando tal interpretação; missiva virulenta, “esgrima literária”, como ele mesmo definiu. Cordial, pois escrita com o coração. Sérgio acusou o colega de “preguiça ou inépsia”, e sugeriu retratação. Explicou que, em verdade, não acreditava muito na “tal bondade fundamental dos brasileiros”, e que usou termo “cordial” não associado à palavra bondade, mas ao coração:

“Nem falei em bondade como excluindo inimizade, mas como antítese de ódio. Ora, bondade, de fato, não exclui inimizade, mas tem como antítese a maldade e não o ódio. E este, por sua vez, pode contrapor-se ao amor, não à bondade. Mas justamente neste ponto será preciso ultrapassarem-se as fronteiras da ética (…) Precisarei recorrer ao dicionário para lembrar que essa palavra –cordial –, em seu verdadeiro sentido, e não apenas no sentido etimológico, como v. quer presumir; se relaciona a coração e exprime justamente o que eu pretendi dizer. Como além disso de acreditou, mal ou bem, que o coração é sede dos sentimentos,e não apenas dos bons sentimentos, minha nova explicação, ao lembrar que a inimizade bem pode ser tão cordial como a amizade, nisto que numa e outra nascem do coração”[10].

 

Mesmo depois de tamanhas explicações, setores do pensamento brasileiro, tanto à direita quanto à esquerda, continuaram interpretando o conceito de Sérgio Buarque de modo diverso. Talvez por mero equívoco, talvez por apropriação indébita. É verdade que a idéia do “homem cordial” é passível de acolher as mais variadas interpretações. Mas para o pai da idéia, “cordial” é, essencialmente, a pouca recorrência à racionalidade. Cordial porque coloca o sentimento no lugar da razão nas suas visões de mundo, das relações sociais, econômicas e de poder. É de João Ricardo de Castro Caldeira a explicação abaixo:

“Em termos gerais, no entanto, o conceito traduz a tendência de cada sujeito de posicionar-se acima dos interesses da coletividade, impondo sua vontade pessoal, orientada por um voluntarismo exagerado. Em decorrência disso, esse voluntarismo subjetivista propende a dificultar o estabelecimento de condições favoráveis à implantação de fatores voltados para o benefício da coletividade. Ou seja, reflete ele a existência da superposição dos interesses individuais aos do social geral” [11].

 

Sobre Sérgio Buarque de Holanda, Caldeira ressalta ainda que fica evidente em todos os seus trabalhos, como tônica comum, o interesse do mestre pela promoção da mudança social conduzida por forças populares, tendo em vista a superação do atraso social e o estabelecimento de uma democracia modernizante. E conclui Caldeira:
“Sob esse aspecto, o seu pensamento político é, sem dúvida, fortemente matizado pelas idéias de esquerda, que se explicitam não apenas nas suas obras, mas também no seu engajamento em partidos e movimentos envolvidos em lutas contra quaisquer formas de opressão. (…) Sérgio Buarque nos desafia com o seguinte impasse: como promover a transformação social do Brasil reconhecendo os limites da democracia formal burguesa sem ceder à tentação dos regimes políticos autoritários ou totalitários?”

 

 

 

 

 

 

 

2 – Desenvolvimento                                                                     

 

 

              2.1. O Imaginário do Capitão e a Musa Revolucionária

            É de conhecimento público há 30 anos que Carlos Lamarca passou seus últimos dias de vida escrevendo para a amada, lara lavelberg. Ele não fazia outra coisa, tornara-se uma estranha obsessão, e seus companheiros sobreviventes registraram esse fato, à época, em relatos a jornalistas. Alguns poucos trechos dessas cartas vazaram em 1980, logo após a Anistia, no esforço da imprensa da época em reconstruir a história ofuscada pela ditadura[12].

 

Contudo, os originais do diário se encontram em poder dos militares, provavelmente guardados nos arquivos secretos do Centro de Informações do Exército (CIE), em Brasília, segundo informações de militares transmitidas a este pesquisador. Ainda são considerados documentos “reservados” das Forças Armadas. Este pesquisador teve acesso a uma cópia datilografada  pelos militares, cujos carimbos de identificação foram cuidadosamente recortados, página por página. Aparentemente, o documento está na íntegra.  São 41 páginas em tamanho ofício, com quase 2 mil linhas datilografadas. Dessas, 280 linhas são dedicadas a declarar o amor por lara. O diário começou  a ser escrito a 8 de julho de 1971, em resposta a uma carta enviada por lara. Ele só parou de escrever seis semanas depois, a 16 de agosto.

 

Em sua carta, lara cobra mais firmeza do amado, diz que ele deveria impor-se aos companheiros, fazer-se respeitar mais pela esquerda. Em sua resposta, Lamarca se esforça para mostrar à musa sua disposição revolucionária e seu valor intelectual. Tece longas análises sobre a situação política na China, na Mongólia e em Cuba. Comenta notícias sobre a crise na Jordânia e a fome no Paquistão. Chegou a comemorar o 28º aniversário da criação do Estado Maior do Exército de Libertação da Albânia, algo que hoje soa incompreensível. Conta sobre os “camponas” que encontra pelo caminho, analisa até o desempenho do governador César Cals no Ceará[13]. Em meio disso tudo, desanda a escrever sobre o amor. Começa heróico, em idílio marxista, para já na segunda frase revelar suas verdadeiras intenções:

 

“Estejamos onde estivermos, haverá sempre uma realidade a transformar, agora e sempre, criar as condições para isso é a nossa tarefa de revolucionários. O nosso amôr também, é urna realidade que veio sendo transformada – hoje atinge um nível nunca por mim sonhado, mas vamos continuar transformando-o Sonho com êle numa fazenda coletiva -juro não ser ciumento e lutar junto contigo pela tua liberdade–  e vou te amar mais intensamente, isto é possível, sinto que é. Nosso amôr não está isolado na realização de nós dois, nem nos milhares de filhos que teremos, êle nasceu e estará umbilicalmente ligado à Revolução e construção do Socialismo”.

 

“Você é para mim, antes de tudo, urna necessidade: revolucionária, educadora, existencial, total”.

 

Depois escorrega a falar de solidão.

 

“Quando estou longe de você, tudo muda. É outro mundo, falta aquele calor que só emana de você mesma — fico imaginando e me delicio com tua lembrança, tôda viva, junto de mim. Para falar mais, só entrando pela cafonice”.

 

“Aqui muitos pássaros lindos de variadas cores, (..???…) está uma juriti pronta para tomar uni tiro no peito -mas não darei – e a vida dela continua em homenagem a ti. Ela voou”.

 

“Reestreei como barbeiro, saiu bom corte -sentir saudades de você cortando meu cabelo -enfim, tudo dá saudade, é fogo mesmo queridinha”

 

“Contínuo então aguardando ansiosamente a oportunidade de te enviar correspondência e também, te encontrar, olhar dentro de teus olhos lindos (perguntadores e atentos olhos), te abraçar, te beijar (queridinha) e amar. Já vi que não sei mais passear, só após a guerra poderemos -passear–qualquer pedaço de rua, ainda teremos, é visto por mim taticamente como um campo de luta”.

 

“Não sei qual o meu santo, aqui caberia São Francisco de Assis,o louco que conversava com os pássaros. S. Cristóvão nos ajudou na viagem; Santo Antônio não funcionou pois deveria promover nosso encontro muito antes para nos casarmos e sermos bem recebidos pela massa. São Pedro é uni canalha, essa seca que o diga. S. Cosme e Damião são reaças repressores; S. Jorge é milico e ainda foi cassado; enfim, uma merda só esses santos cocô”.

 

Chegou a cometer dois poemas socialistas. O Suor e as Lágrimas e Isolado. Este último começa assim:

 

“Ouço ao longe

um campona cantar

triste, lamentos

risos de crianças

no rio se banhando

fim de tarde, de

trabalho

Gritos de mãe,

filho chamando”.

 

Segundo Bronislaw Baczko[14], os historiadores e os psicólogos, os antropólogos e os sociólogos começam a reconhecer, senão a descobrir, “as funções múltiplas e complexas que competem ao imaginário na vida coletiva e, em especial, no exercício do poder”. As ciências humanas punham em destaque o fato de qualquer poder, designadamente o poder político, se rodear de representações coletivas. Estariam os jovens que se engajaram na luta armada das décadas de 1960 e 1970 movidos somente pelas contradições do capitalismo? Seriam eles meros elementos de uma estrutura social, peões do processo histórico e da luta de classes?

 

Lamarca, em seu diário, deixa exposto que o lado humano pode ser um vetor essencial da revolução –pelo menos da “nossa revolução”. Lamarca se expôs como um guerrilheiro cordial, ou seja, movido pelo coração. Mostrou que a revolução não é só uma questão de política ou de economia. É também um mote de vida, um desejo íntimo que leva alguém a agir. A Revolução, essa palavra que há dois séculos movimenta a história ocidental, adquiriu uma conotação que mexe com o imaginário ocidental –de panacéia para todos os males sociais, o abracadabra da justiça e da prosperidade dos homens. O historiador britânico J.M. Roberts lembra que, desde 1789, desde a queda de Bastilha, os governos europeus temiam ou esperavam uma revolução popular. Aconteceu, finalmente, em 1917, na Rússia.

“Depois de 1918 tudo mudou. Pela primeira vez passara a existir um Estado, uma grande potência, cujos governantes, sinceros ou não, clamavam buscar a deposição de toda a sociedade existente e substituí-la por um modelo diferente: a nova Rússia, ou União da Repúblicas Socialistas Soviéticas”[15].

 

O termo “imaginário” tem significados diferentes para cada pessoa. Para uns, imaginário é tudo o que não existe, espécie de mundo oposto à realidade concreta. Para outros, “é uma produção de devaneios de imagens fantásticas que permitem a evasão para longe das preocupações cotidianas”, segundo as palavras de René Barbier[16]. Alguns apresentam o imaginário como um resultado de uma força criadora radical própria da imaginação humana. Outros o vêem como uma manifestação de engodo fundamental para a constituição identitária do indivíduo[17]. Max Weber lembra que os racionalistas rotularam o imaginário como a “casa da
louca”, maniqueísmo simplório, para o qual razão e loucura eram estados mentais opostos e mutuamente exclusivos.

 

Para Carlos Lamarca, o termo “imaginário” tinha o mesmo significado que a palavra “revolução”, conforme ficará cristalino ao longo deste ensaio. Revolução era o sonho do igualitarismo. Revolução era sinônimo de Iara Iavelberg. Seus sonhos eram todos voltados para Iara Iavelberg e para revolução, ou vice-versa, não importando a ordem dos fatores. Sua realidade concreta era fazer a revolução para alcançar seu sonho, materializado na figura da musa guerrilheira. Ela e seus amigos da universidade muito versavam sobre as relações entre a revolução e processo histórico, as estruturas sociais patriarcais, a luta de classes e as contradições do capitalismo. Mas o capitão Lamarca –como veremos nas próximas páginas– deixa claro no diário que legou para a amada, que nos momentos cruciais de sua vida, sua revolução era motivada essencialmente pelo imaginário criado em torno da lendária guerrilheira Iara Iavelberg.

 

 

2.2 – O Proletário e a Burguesa: Conflitos de Tradições

 

O diário que Lamarca escreveu jamais chegou a lara. Foi entregue pelo capitão ao militante João Lopes Salgado, codinome “Fio”, citado por Lamarca de forma insistente no texto em questão. Depois foi repassado ao militante César Queirós Benjamim, o “Menininho”[18], de 17 anos, que saiu da Bahia para se esconder no Rio de Janeiro. A 21 de agosto de 1971, Benjamim passou um telegrama pra lara, sem saber que já estava morta. Minutos depois foi abordado por uma blitz da PM, chamada à época de “Operação Pára-Pedro”, na Avenida Vieira Souto, Praia de Ipanema. Estava num Fusca, com três outros militantes[19]. Ao serem solicitados os documentos, Benjamim saiu rapidamente do carro, correndo entre os transeuntes. Era a terceira vez que escapava da repressão. No Fusca, ficaram os companheiros e uma maleta. Dentro, o diário de Carlos Lamarca. O Exército já sabia que capitão da guerrilha se escondia na Bahia, mas não tinha a menor idéia do local exato. Ao receber o diário da PM carioca, os militares concluíram as coordenadas prováveis do esconderijo[20].

 

O diário Lamarca revelou muito mais do que possíveis coordenadas geográficas. O que tem de mais salutar é que ele expôs para a história, de forma sincera e cristalina, suas fantasias, sonhos e temores, suas paixões e rejeições. São os “clarões” legados pelo capitão sobre aquilo que Fernand Brandel chamou de “reino da rotina”, “instantâneos da história” da Nossa Revolução:

“A vida, a história do mundo, todas as histórias particulares se nos apresentam sob a forma de uma série de eventos: entendam atos sempre dramáticos e breves. Uma batalha, um encontro de homens de Estado, um discurso importante, uma carta capital, são instantâneos da história (…) Clarões, mas sem claridade; fatos,mas sem humanidade”[21].

 

O primeiro clarão sem claridade desse legado diz respeito aos conflitos de interesses e de tradições entre nossos revolucionários. Ou, como nos oferece Thompson[22], uma leitura neo-marxista dos conflitos culturais intrínsecos nas relações entre o proletário Carlos Lamarca, homem de muita ação mas de poucas leituras; e a burguesa lara lavelberg, filha dos Jardins paulistanos, psicóloga cosmopolita, mulher de muita elaboração teórica mas de pouco senso prático. A relação entre os dois, contudo, teve como catalisador principal os ideais revolucionários.

 

Lamarca era casado e tinha dois filhos quando conheceu lara. Ele nasceu em um morro carioca, no bairro boêmio do Estácio, a 27 de outubro de 1937, numa daquelas famílias que nossas avós definiriam como “humilde, mas honrada”. Seu pai, o sapateiro Antônio Lamarca; a mãe, a dona-de-casa Gertrudes. Era o terceiro entre seis irmãos. Casou-se com a própria irmã de criação e namoradinha da juventude, Maria Pavan.

 

Adolescente, já se mostrava disciplinado nos hábitos e conservador nas idéias –do tipo que mantém o sapato engraxado e o uniforme engomado, sempre, custe o que custar[23]. Foi criado, primeiro, na moral proletária; depois no moralismo da caserna; por fim, na ortodoxia stalinista. Jamais teve hábitos intelectuais ou gostou da dialética socialista –era, como se diz, um “homem de ação”. Ajudada por Marighella, Maria Pavan, exilou-se em Cuba com os dois filhos, César e Cláudia, assim que o marido caiu na clandestinidade. Ainda em 1971, após a morte de Lamarca, os militares avisaram-na que poderia retornar ao Brasil, que não seria incomodada. Mas ela preferiu ficar e criar os filhos dentro dos princípios do socialismo, conforme era vontade do ex-marido. Maria só retornou com a Anistia, em 1979.

 

Carlos Lamarca foi abandonando aos poucos o Exército para aderir às Forças Revolucionárias.  Um processo lento, gradual, talvez até refletido por mais de uma década. Ele tomou contato pela primeira com as idéias socialistas em 1957, quando cadete da Academia Militar das Agulhas Negras, em Resende (RJ). Naquele ano, uma célula do PCB que funcionava na instituição se encarregava de distribuir o jornal Voz Operária, deixando os exemplares clandestinamente debaixo do travesseiro do alojamento dos cadetes[24].

 

Mais tarde, em 1962, aos 24 anos e já oficial, com a patente de segundo-tenente, Lamarca freqüentou, na condição de “simpatizante”[25], algumas reuniões da célula do PCB que funcionava no 48 Regimento de Infantaria, em Quitaúna, Osasco, São Paulo[26]. Somente em 1964, servindo em Porto Alegre, quando o regime militar já estava vitorioso e consolidado, Lamarca decidiu-se por assinar a ficha de filiação ao partido. Foi desaconselhado pelos próprios comunistas, questão de segurança. Esse fato, se dispor a aderir em público ao lado já derrotado, é uma pequena ilustração da coragem e da retidão de caráter que esse militar ainda viria demonstrar.

 

Considerado um oficial brilhante, exímio atirador, Lamarca tinha um futuro promissor na caserna. Fazia parte da corporação desde 1954, quando ingressou, aos 17 anos, no Colégio Militar de Porto Alegre. Tenente, em 1962 foi premiado com um honroso posto na Força de Paz da ONU, no Canal de Suez. Era de tamanha confiança dos comandantes que, de volta ao regimento de Quitaúna, São Paulo, a partir de 1966, passou a treinar um grupo de atiradores de elite, destinados a combater os “terroristas”, e ensinava bancários a se defender de assaltos guerrilheiros.

 

Em fins de 1968, recrutado por uma célula de sargentos do Exército, aderiu a uma das novas organizações que proliferavam na esquerda, a Vanguarda Popular Revolucionaria, VPR, dissidência de uma outra sigla, a Política Operária (POLOR), também recém-nascida, imaginada por estudantes e intelectuais paulistanos. Cabe aqui introduzir uma pequena filigrana conceitual para atender os marxistas ortodoxos. A VPR não era exatamente uma organização marxista leninista, segundo os clássicos e segundo eles próprios. Os sargentos que se juntaram aos estudantes da POLOP e fundaram a VPR, eram originários do Movimento Nacionalista Revolucionário, de Leonel Brizola, ao qual pertenciam como egressos do PCB. Alguns dos sargentos eram marxistas-leninistas, mas a VPR não era uma organização marxista-leninista, não tinha programa como tal e muito menos projeto político ou social de inspiração marxista-leninista.

 

Antes de aderir à luta armada, Lamarca sondou ou foi sondado por algumas organizações, como a ALN de Marighella, mas terminou aderir á VPR, engajado que já estava em um plano mirabolante de expropriar armamento pesado do Exército para atacar simultaneamente o Palácio dos Bandeirantes, sede do governo de São Paulo, o Quartel-General do li Exército, a Academia de Polícia e, ainda por cima, dar início á guerrilha no campo. Consultado, Marighella avaliou que seria loucura. Mas o plano foi levado adiante. Acabaria ocorrendo um incidente banal que precipitou o fracasso do plano. Um grupo guerrilheiro, escondido em uma chácara em Itapacerica da Serra, próxima à capital paulista, pintava um caminhão com as cores e as insígnas do Exército. Uma criança se aproximou e levou um tapa no rosto de um dos guerrilheiros –segundo explicou mais tarde aos companheiros, bateu no menor “para que deixasse de ser curioso”. A mãe da criança procurou a polícia, que prendeu todo mundo[27]. Alertado, Lamarca decidiu que chegara a hora de desertar.

 

Deixou o quartel de Quitaúna, no final da tarde de 24 de janeiro de 1969, uma sexta-feira, em companhia de um sargento, um cabo e um soldado[28], levando consigo um carregamento de 63 fuzis, três metralhadoras e um pequeno carregamento de munição. Curiosamente, foi desse mesmo quartel que, em 1922, saiu boa parte dos militares que pegaram em armas contra o governo de Artur Bernardes, numa fracassada insurreição que terminaria na Coluna Prestes, “uma das mais extraordinárias marchas revolucionárias da história da humanidade”, nas palavras de Domingos Meirelles[29], protagonizada por “dignos e honrados jovens oficiais com o talhe de caráter dos homens de bem do seu tempo, empurrados pelo sonho de transformar o Brasil numa grande nação”,

 

A esquerda vibrou com a atitude de Carlos Lamarca, na mesma proporção que os militares ficaram indignados. Aderiu publicamente à VPR e ganhou de imediato o titulo de “Capitão da Guerrilha”. Desde 1962, utilizava o codinome “Cirilo”. Passou a usar, também, os codinomes El Cid, épico nos cinemas da época, e “César” –codinome a que tinha direito mais do que qualquer outro militante da época, posto que atravessara seu Rubicão. A imprensa atribuía a Lamarca praticamente todas as ações espetaculares da guerrilha urbana. Caçá-lo virou questão de honra para as Forças Armadas. Nada mais importante do que pegar o “traidor”, para que servisse de exemplo dentro da caserna.

 

lara lavelberg nasceu em 7 de maio de 1944, em uma abastada família de judeus paulistanos. Casou-se em 1960, aos 16 anos com o médico Samuel Haberkorn união bem ao gosto da colônia judaica. Separou-se três anos depois e aderiu á militância política. Estudou Psicologia na Universidade de São Paulo e depois virou professora. Usou os codinomes Márcia, Cláudia, Leda, Rita e Célia – nenhum deles teve a força do nome verdadeiro. Era alta, loira, “tinha os olhos claros, grandes, um rosto bonito, com sardas e um sorriso muito doce”[30]. Vaidosa, ao contrário de boa parcela das militantes esquerdistas, cuidava muito bem do corpo,  dos cabelos e das roupas. Depois de separar-se do marido, passou pelo menos seis anos exercitando o amor livre e as relações fugazes. Era o comportamento politicamente correto entre as elites em Paris, Ipanema e Jardins, de onde viera. Chamava-se revolução sexual e fazia parte do contexto de afirmação do feminismo e da libertação da mulher. Por conta disso, esse jeito libertário de Iara, hoje tão banal, agredia as organizações marxistas ortodoxas da época:

 

“Desde que rompera o casamento, lara tivera somente transas rápidas, nada estável. Agredia os valores da Organização. Não se enquadrava exatamente no que Chamavam ‘moral proletária’. Sexualmente continuava independente, não pedia licença a ninguém para amar. Dentro da VPR era uma mulher comentada, vaidosa e transeira,  segundo  os  ortodoxos  padrões  morais predominantes”[31].

 

Lamarca conheceu Iara em abril de 1969, dois meses depois de desertar do Exército. Foi paixão fulminante. Era público na VPR que a relação incomodava ao capitão. Ele teve muita dificuldade de assumir lara publicamente. Confessava aos companheiros uma enorme culpa por ter arrumado outra mulher depois de submeter a família ao exílio. Prometera a Maria que a separação seria curta, que em cinco anos a revolução triunfaria[32]. Mas logo-logo, em junho de 1969, os dois começaram a viver juntos. Publicamente juntos. Passaram dez meses trancados em aparelhos clandestinos em São Paulo, até iniciarem o treinamento militar, no início de 1970.

“Enfrentariam  ainda  outro  problema:  a  moral  da Organização. Quando se apaixonaram, muita gente chiou. A repressão logo saberia e, além de ‘traidor’ do Exército, Lamarca passaria a ter ‘amantes’. Isso poderia não ser bom para a imagem de um dos principais nomes da esquerda brasileira. E depois, lá em Cuba poderiam saber, não ficaria bem”[33].

 

Foram espalhados no Rio de Janeiro e São Paulo cartazes com fotografias dos dois (em meio a outros), e os seguintes dizeres: “Bandidos terroristas procurados pelos órgãos de Segurança Nacional”. Lamarca escreveu no diário;

 

“Sem você tudo teria desabado, e não sei como me encontraria perante a mim mesmo. Aprendi a lutar com você, e posso estar todo errado e estar fraquejando nessa luta. Mas quero que você compreenda que quero lutar, vou lutar pelo relacionamento”.

 

No início de 1971, a VPR já estava completamente destruída, com seus militantes mortos, presos ou exilados.Lamarca e lara haviam sobrevivido.  Os farrapos da organização foram incorporados a uma outra, o MR-8 (Movimento Revolucionário Oito de Outubro[34]). Lamarca foi rebaixado a militante de base e enviado para se esconder no interior da Bahia. lara, por sua vez, foi alçada à cúpula da nova organização. Foi alocada em Salvador. Lamarca tinha a fama de ser intelectualmente despreparado; a imagem de lara, ao contrário, era a de ser o cérebro do casal. Talvez por essa razão ele tenha tentado redigir em seu diário longas análises sobre a conjuntura econômica  e a política internacional; talvez estivesse tentando exibir seus dotes intelectuais.

 

 

2.3 – O Machista e a Feminista: Conflitos de Valores

 

Em meados de 1971, lara foi morar em um apartamento na Pituba com o militante Félix Escobar Sobrinho. Vinte anos mais velho, a idéia era um disfarce de pai e filha. Não há qualquer notícia que os dois tenham tido qualquer relação amorosa. Lamarca começou a escrever seu diário logo depois de receber uma carta de lara. Foi nessa carta que ela cobrou mais firmeza do amado.
Foi nessa ocasião que ele também soube que lara estava morando com outro. Demonstra em seu diário que ficou com ciúmes. Escreveu por 39 dias consecutivos. Primeiro tenta se mostrar compreensivo, comemora o “Dia da Sogra” (“Acho que me daria bem com ela”), escreve sobre a distância e as necessidades físicas de ambos, chega a liberá-la para novos relacionamentos. Mas promete, de seu lado, manter a fidelidade para sempre e todo o sempre. Era, em verdade, somente sua tática inicial para não parecer reacionário e chauvinista:

 

“A tua situação é terrível, e a sua necessidade afetiva muito grande, e se não houver possibilidade de nos encontrarmos mais, tenho de abrir mão do nosso relacionamento no que se refere a você – dar a você a liberdade de relacionar com outro companheiro. No nível que atingiu o meu amôr, não posso admitir a possibilidade de me relacionar com outra pessoa, nunca mais, mas a minha estrutura é diferente da tua, posso viver só com você na cuca”

 

“Tenho que admitir as suas necessidades efetivas e comparar com o que a realidade está aos poucos mostrando para nós o que mais tarde será inexorável o aumento de suas necessidades. Não quero estar sendo um puto com você  – entenda neguinha, por favor. Sinto-me um cocô sem poder te ajuda”.

 

Não te preocupes que não existirá nunca uma cabrita. Te respeito muito e sou feliz por ser o teu amor; sinto saudade de  tudo  e  me  alimento  das lembranças,  penso adoidadamente em ti – é impressionante – nunca pensei  amar tanto”

 

Outra leitura que se pode fazer desse diário diz respeito às relações de gênero. Ela é constitutiva das relações entre revolucionários, homem e mulher, e não apenas no caso do romance entre Lamarca e Iara. Sob o ponto de vista pessoal, havia um claro conflito entre a liberdade sexual conquistada por lara e as emoções chauvinistas de Lamarca. Mas a relação também enfrentou pressões a partir do discurso moralista da VPR e das demais organizações marxistas, assim como os discursos dos militares, todos, na quase unanimidade, condenando o amor entre o capitão e a guerrilheira. O pomo central da questão era o fato de Lamarca ser casado. Ele chega a abordar o assunto em seu diário com extrema sutileza e de forma indireta, referindo-se às “dificuldades enfrentadas” e ao “falatório dos companheiros”. Recordemos o que escreveram os camaradas Marx (que reincidiu muitas vezes no adultério) e Engels sobre a fidelidade socialista e o adultério burguês:

 

“O casamento burguês é na realidade a comunidade das esposas. Quanto muito poder-se-ía censurar aos comunistas quererem introduzir urna comunidade de mulheres franca, oficial, onde há uma hipocritamente escondida. E de resto evidente que com a supressão das condições presentes da produção desaparece também a comunidade de mulheres que dela decorre, ou seja, a prostituição oficial e não oficial”[35].

 

A liberdade epicurista praticada por Iara, fruto de um processo maior de libertação da mulher que ocorria em seu tempo, era encarada pelos próprios companheiros como mero hedonismo pequeno-burquês. Sobre o prazer sexual, disse camarada Lênin:

 

“A revolução exige concentração, tensão de forças da parte das massas e também dos indivíduos isolados. Ela não tolera os estados orgíacos”[36].

 

Carlos Lamarca, de certa feita, enviou o seguinte bilhete irônico para um companheiro da organização, Alfredo Sirkys[37]:

 

“Você outro dia, sem saber, deu uma paquerada na minha companheira. Pô, qualé a tua? Tava no ônibus, te reconheceu, pois já tinha visto um dia num ponto. Olhou. Aí tu ficou todo ouriçadão, já preparando a baba peçonhenta. E olha que o revolvão ta com saudade de uns tirinhos”

 

 

Aldenira Piedade de Faria[38], em análise sobre a construção do gênero nos discursos dos comunistas brasileiros, nos lembra que a sensualidade feminina, “perigosa” porque símbolo do pecado, foi assim canalizada, condicionada e associada exclusivamente à reprodução. “O que fugiu a isso”, escreve, “o prazer, tornava-se prerrogativa de todos os homens e de algumas mulheres, as prostitutas. Segundo a autora, o discurso dos comunistas (assim como o dos integralistas) sobre a mulher teriam por base a tentativa de retirar a autoridade de mulher, seriam formas diferentes de se dizer o mesmo.

 

“E, o mesmo,é sinônimo de um poder masculino que ora grita, ora cala, ora se assume, ora se transfigura, mas, que, na realidade, não permite ser dividido ou destituído”.

 

Esse conflito de visões entre o capitão revolucionário e sua musa libertária, foi resolvida, pelo menos na imaginação de Lamarca, da forma mais conservadora possível. Depois de 30 dias no sertão, longe de lara, Lamarca começa a enlouquecer de solidão. De dia, discute com os companheiros sua necessidade psicológica de reencontrar lara. E registra tudo no diário. De noite, tortura-se de ciúmes:

“Sonhei com você. Acordei num misto de alegria e tristeza – compreendi que te desejava. (…) Sinto-me oco. Esse estado não posso superar, o que posso fazer? No fim, um cocô atolado.”

 

“Sonhando com você, acordo no meio da noite e volto a sonhar Sonhei com você até nas vias de fato, pode? Ora, porque o sonho? Necessidade sexual não pode ser só, já sonhei inclusive nêsse nível com você. Como, até mesmo dormindo contigo sonhei, só posso concluir que a minha cuca é mais complicada do que eu pensava”

 

“Não sei explicar toda essa imensa necessidade – o importante é que existe. Sei que a presença é necessária,

que lutaremos pelas oportunidades de estarmos juntos, mas, enquanto separados PELO TEMPO QUE FOR, EM QUALQUER SITUAÇÃO – VOCÊ É MINHA MULHER – só você, sempre “.

 

“Falei em abertura pelo seu lado (do meu não admito, nem existirá nunca condições) do nosso relacionamento -que é observado – e como última hipótese; pode ser um puta ciúme meu de existir alguém cumprindo a minha função”.

 

Por fim, a partir de 13 de agosto, o bravo guerrilheiro faz “auto-crítica” e admite estar sofrendo de “machismo”, “ciúmes” e auto-flagelação. Revela que decidira discutir politicamente com os companheiros uma forma de burlar a segurança para se encontrar com lara (“Preciso de você, eis a realidade”). A 16 de agosto, em sua última carta, ele decide acabar com a tormenta:

 

“Peço a você que não se abra diante de conversa mole de ninguém – o relacionamento com todos os companheiros deve ser político e não sentimento e outros bichos. Tome cuidado”.

 

Suas últimas linhas:

 

“Te amo, te adoro. Segue esta carta impregnada de amor – vou te ver nem que seja a última coisa da minha vida. Cirilo”.

 

 

2.4 – As Mortes do Capitão e da Guerrilheira

 

Jamais se veriam novamente. lara lavelberg foi encontrada a 20 de agosto, em um apartamento da Pituba, Salvador. Quando se viu cercada pelo Exército, conseguiu escapar para apartamento vizinho e trancou-se no banheiro de empregada. O Exército estava esvaziando todo o prédio para iniciar a caçada armada. Então ocorreu um incidente: uma criança, que morava justamente no apartamento vizinho, voltou para pegar um brinquedo e viu lara se escondendo. Assustada, avisou aos militares. Até esse ponto as versões da esquerda e dos militares são coincidentes.

 

A versão oficial do governo, na época, é a de que lara teria dado um tiro no meio do próprio peito, aos 27 anos, enquanto um soldado tentava arrombar a porta do banheiro. Um oficial do Exército que participou do cerco garantiu a este pesquisador que, no caso específico de Iara, teria ocorrido mesmo suicídio. A Comissão de Mortos de Desaparecidos Políticos, contudo, levanta duas outras hipóteses: ou ter sido fuzilada durante o cerco ao edifício; ou ter sido morta sob tortura dias depois, nas dependências do DOPS/BA.[39] Meses antes, lara fizera o seguinte comentário ao companheiro Alfredo Sirkys: “Imagina se caio viva nas mãos deles. O que vão querer fazer com a companheira de Lamarca? Mas acho que morro antes…”[40]

 

O Exército não deixou que o rabino da família fizesse a lavagem ritual do corpo, a tahara. Entregou-a em caixão lacrado. Somente a família foi autorizada a comparecer ao enterro. Havia o temor do governo de que a esquerda roubasse o corpo para transforma-lo em estandarte, como os peronistas argentinos fizeram com Evita Perón. É possível, também, que o governo tentasse evitar uma eventual contestação à versão oficial de suicídio.

lara encontra-se enterrada em um local desonroso do cemitério judaico do Butantã,São Paulo, reservado aos suicidas. Com os pés em um muro e de costas para os outros mortos. O irmão de lara já tentou removê-la para outro local em 1997, mas os rabinos responsáveis foram irredutíveis na ocasião. A mãe, Eva lavelberg, decidiu se manter obediente aos rabinos.

 

Lamarca soube de sua morte dias depois. Perdeu a vontade de prosseguir na luta revolucionária. Já havia caminhado em fuga cerca de 300 quilômetros pelo sertão baiano, ao lado do companheiro José Campos Barreto, o Zequinha. Foi encontrado a 17 de setembro por uma pequena patrulha comandada pelo major (mais tarde general) Nilton Cerqueira, ex-deputado federal e ex-secretário de Segurança do Rio de Janeiro. As ordens do Centro de Informações do Exército (CIE) eram para prendê-lo vivo. A idéia era mais tarde desaparecer com o corpo de Lamarca e vazar o boato na esquerda de que ele seria, na verdade, um agente infiltrado, como forma de aumentar ainda mais a desconfiança entre militares e comunistas. Contudo, o major Cerqueira decidiu descumprir a orientação e dar outro fim ao capitão[41].

Lamarca estava desanimado, fraco, desnutrido, doente, em crise de asma e com mal de Chagas. Estava, sobretudo, desanimado. Foi encontrado dormindo debaixo de uma árvore. Zequinha ainda tentou reagir; morreu na fuga Lamarca preferiu permanecer no chão. Terminou fuzilado no chão, aos 33 anos, pelo major Cerqueira. Segundo a autópsia, no estômago e nos intestinos do capitão Carlos Lamarca só havia capim. A imprensa[42], na época, publicou versões semelhantes sobre o diálogo que ele teria mantido com Cerqueira instantes antes de morrer, relatadas pelo próprio militar.

 

Foram três ou quatro perguntas banais. Começou indagando pelo nome: “Capitão Carlos Lamarca”, identificou-se. A seguir perguntou onde estariam sua mulher e filhos: “Em Cuba”, respondeu. A última das perguntas: “Você sabe que é um traidor do Exército brasileiro?”. Lamarca não respondeu, segundo Cerqueira. De acordo com um militar que acompanhou os acontecimentos, a desfeita de Lamarca teria sido pior. Levantou-se, balançou os ombros e braços, no gesto de quem quer dizer “e daí?”, “o que importa?”, e antes de levar os tiros, teria tentado dar as costas ao representante do Exército. Da aventura, só restou as mensagens jamais entregues à musa.

 

 “Uma coisa é absoluta, inexorável – você é minha mulher -e isso é o que de mais lindo me aconteceu na vida. Se é antI­dialético crês no absoluto, no eterno, eis-me, nesse caso um anti-dialético ferrenho. Saudade imensa, muito amor; seu só teu”.

 

 

 

2.5 – O Homem Cordial entre Militares e Revolucionários

 

A história de Carlos Lamarca e o episódio de sua morte, em especial, ajuda a entender um dos conceitos lançados por Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil. Segundo o mestre, o conceito do homem cordialpresente ao longo de toda a obra supracitada, também se estenderia aos militares, comunistas e revolucionários brasileiros em geral. Importante ressaltar, mais uma vez, que Sérgio Buarque de Holanda  estava se referindo ao homem cordial no sentido de condução das suas ações pela emoção, pelo impulso, e não pela razão, não pelo auto-domínio. Vale lembrar ainda que essa “cordialidade” não elimina a prática da violência na sociedade brasileira em geral. Ao contrário, a violência é revelada por Sérgio como uma constante presente em todos os momentos da história do país. Essa violência, por sua vez, também não elimina uma certa “cordialidade” afável por parte dos militares e dos revolucionários brasileiros. Estamos nos referindo ao cordial conforme a conotação de avesso a soluções bélicas e sangrentas. Aparenta ser um paradoxo. O mestre Sérgio Buarque resolve a questão lembrando que o Exército foi constituído dentro do ideário de usar a violência como defesa, jamais como arma de ataque ou conquista.

 

Ainda no Império, explica ele no capítulo “Nossa Revolução” de Raízes, quando o Exército foi constituído para lutar na Guerra do Paraguai, o estado queria impor-se apenas pela grandeza da imagem que criara de si, e recorreu à guerra para se fazer respeitar, não por ambição de conquista. “Se lhe sobrava, por vezes, certo espírito combativo, faltava-lhe espírito militar[43]”. Em seu argumento, ele cita Oliveira Lima, para quem “as guerras estrangeiras, como métodos políticos, sempre foram encaradas pelo país como importunas e até criminosas, e nesse sentido especialmente a Guerra do Paraguai não deixou de sê-lo; os voluntários que a ela acudiram, eram, muito pouco por vontade própria”[44]. Vale lembrar que, até a presente data, todo ideário militar brasileiro é baseado nos princípios da “defesa da paz” e da “soberania nacional”, idéias estas incluídas no próprio refrão do Hino do Soldado, cantado diariamente nos quartéis[45]. Sérgio Buarque de Holanda ainda argumenta:

 

“Não ambicionamos o prestígio de país conquistador e detestamos notoriamente as soluções violentas. Desejamos ser o povo mais brando e mais comportado do mundo. Pugnamos  constantemente  pelos princípios tidos universalmente como os mais moderados e racionais”[46].

 

Diante de uma leitura exclusivamente contábil, são aparentemente insignificantes os resultados dos conflitos sociais e embates bélicos brasileiros. Durante a ditadura militar, entre 31 de março de 1964 e 15 março de 1985, quando tomou posse um governo civil,contabiliza-se o total 480 mortos e desaparecidos, nos dois lados da luta. Do lado dos guerrilheiros, vítimas da repressão das forças oficiais, são 381 mortos ou desaparecidos, incluindo as vítimas ainda não comprovadas, como a estilista Zuzu Angel, símbolo da resistência civil não-marxista à ditadura militar[47]. Entre baixas militares e vítimas civis, são no máximo 99 pessoas, mortos em decorrência das ações guerrilheiras[48].
Se comparados aos números de outros extremos ideológicos ocorridos no século XX, como os regimes de Hitler e de Stalin, a repressão do regime militar brasileiro aparenta ter sido obra homens cordatos –cordiais na acepção de Cassiano Ricardo, afáveis, até gentis. Em toda a América Latina, o mesmo período histórico produziu 150 mil vítimas, principalmente em Cuba, Argentina, Chile e Peru, pela ordem[49].A Argentina, por exemplo, produziu 20 mil mortos e desaparecidos políticos em uma população de 25 milhões. Para que a “guerra suja” brasileira tivesse a mesma proporção, seriam necessárias 125 mil vítimas, e não 480. Portanto, essa mera leitura contábil, a despeito de ser uma contabilidade macabra, corrobora com o imaginário social a respeito da cordialidade do brasileiro –“cordial” como avesso a soluções sangrentas. Incluindo-se entre esses “cordiais” nossos revolucionários e nossos militares.

Ocorre que a luta ideológica brasileira pós-64 foi uma das mais violentas da América Latina, implacável, sem traços de cortesias ou gentilezas –e uma leitura atenta da história de Carlos Lamarca e lara lavelberg demonstra isso. Em suas respectivas obras, Jacob Gorender[50] e Luís Mir[51]apresentam uma esquerda pós-64 majoritariamente inconformada com a opção de luta pacífica pelo poder, que era a orientação oficial de Moscou, a saída grasmiciana; uma esquerda embevecida pela vitória em Cuba, querendo sangue também no Brasil. Por fim, apresentam uma esquerda enganando a si mesma na avaliação das condições objetivas de luta, na correlação de forças e no apoio popular.

 

Do outro lado, essa esquerda enfrentaria Forças Armadas coesas, bem treinadas, modernas, equipadas e com o prestígio alto por conta de um histórico de sucessivas lutas por causas nobres, como a abolição da escravatura, a proclamação República, o movimento tenentista e a participação na Segunda Guerra. Ademais, a economia nacional dava início a uma arrancada desenvolvimentista. Naquele momento histórico, quando teve início a luta armada, ainda não haviam aparecido as contradições do modelo econômico tecnocrático, nem os erros políticos dos sucessivos governos militares, e as Forças Armadas contavam com o quase absoluto apoio –ou pelo menos respeito, temor ao governante, na concepção criada por Maquiavel– da parcela majoritária população. A aliança entre militares, elites civis e capital internacional fora construída com extrema competência, conforme demonstra René Dreifuss[52]. Era um bloco forte, coeso, quase intransponível.

 

O que se viu, como conseqüência desse quadro, foi uma guerra suja e sangrenta, da qual a população brasileira foi isolada com a providencial censura à imprensa. Na verdade as Forças Armadas, como corporação, não participaram diretamente do conflito. A rigor, não foi necessário envolver o grosso da tropa, especialmente os recrutas temporários. Bastou criar um pequeno corpo de elite, o aparelho de repressão formado por militares e auxiliares civis, que terminou por se tornar, ele próprio, uma facção radical dentro das Forças Armadas. Enfim, o que se viu não foi uma guerra civil clássica, um embate militar entre Forças Armadas e forças populares organizadas, mas ações de guerrilha e contra-guerrilha travadas somente entre pequenas facções de esquerda e o aparelho de repressão militar[53].

 

E o que ocorreu entre esses poucos milhares de atores, contudo, foi de uma violência espantosa. Cassiano Ricardo, se tivesse tido a oportunidade de testemunhar os fatos, decerto teria revisto seus conceitos sobre a cordialidade do brasileiro –cordial no sentido de cordato, afável. Nenhum dos lados fazia prisioneiros e aqueles que fossem apanhados seriam sumariamente executados. Essa regra valia tanto para os militares quanto para os guerrilheiros; era clara e do conhecimento geral. Todo guerrilheiro sabia, por exemplo, que se apanhado, seria torturado e que teria que resistir por exatas 48 horas, tempo necessário para que os companheiros pudessem fugir. Isso porque, a cada 48 horas, os militantes na clandestinidade faziam algum tipo de contado com um companheiro –chamava-se “ponto”. Depois dessas 48 horas iniciais, não seria mais necessário resistir à tortura, estavam liberados para contar tudo o que sabiam. Se preso em público, especialmente entre civis, provavelmente seria torturado, contudo,é quase certo que sobreviveria. Se preso sem testemunhas, provavelmente entraria para as estatísticas do desaparecidos. Alfredo Sirkys,ao longo de toda a obra Os Carbonários[54], deixa explícita a prática da violência recíproca.

 

A esquerda armada não era mais piedosa que os militares. No conflito do Araguaia, por exemplo, o PC do B tinha um Tribunal Revolucionário que determinava, em seu regulamentoo “justiçamento”[55]de todo e qualquer  militar que fosse apanhado. A mesma regra do fuzilamento sumário valia para os colaboradores do governo que porventura fossem descobertos. Os próprios guerrilheiros poderiam ser sumariamente executados em caso de falta grave, como deserção. Um deles, Rosalindo Cruz Souza, foi amarrado numa árvore e executado com um tiro na cabeça pela guerrilheira Dinalva Conceição Oliveira, acusado de querer desertar, segundo a versão dos militares, ou de ter mantido um caso amoroso com a mulher de um companheiro, segundo versão mais recente, publicada por um jornal[56]. Ao todo, as facções guerrilheiras brasileiras teriam cometido 15 “justiçamentos” sumários ao longo dos anos de chumbo.

 

O  capitão Carlos Lamarca, por exemplo, matou de próprio punho o guarda civil Orlando Silva Saraiva, durante assalto a banco em São Paulo, com um tiro na testa e outro na nuca. Depois, durante o treinamento guerrilheiro no Vale do Ribeira (SP), prendeu e determinou a execução de um tenente da PM[57], que teve a cabeça estourada com uma série de golpes de coronha de fuzil. Alfredo Sirkys relata detalhadamente o diálogo que manteve com Lamarca quando lhe cobrou a execução, em especial a forma desumana que foi realizada. “Era ele ou nós“, justificou Lamarca[58]. Mais tarde, relata Sirkys, o grupo sentiu necessidade de “legalizar” o fato “como um (duvidoso) ato da Justiça Revolucionária”, soltando o seguinte comunicado:

 

“A sentença de morte de um Tribunal Revolucionário deve ser  cumprida  por  fuzilamento.  No  entanto,  nos encontrávamos próximos ao inimigo, dentro de um cerco que pôde ser executado em virtude da existência de muitas estradas na região. O Tenente Mendes foi condenado e morreu a coronhadas de fuzil, e assim o foi, sendo depois enterrado”.

 

No diário para lara,  Lamarca em  nenhum momento demonstra arrependimento por quaisquer de suas ações violentas ou extremadas.  Ao contrário, tenta provar seu valor revolucionário apresentando-se diante da musa como racional, viril e determinado. Alguns de seus comentários, pinçados do diário:

“Caso do Matos[59]ainda me entristece muito – como é doloroso neguinha – mas não podemos perdoar pois como é doloroso o sofrimento do nosso povo, o nosso não é nada, face ao do povo – é triste”.

 

“Compreendido o estágio do processo, é preciso adequar  a existência a ê/e, é impossível se adiantar ou se atrasar, e entrar em contradição é suicídio mental – outros, para não negar a sua consciência, e conciliar com a contradição, procuram negar a Revolução em todos os aspectos, no mais mesquinho até”

 

“Guerra é guerra neguinha, e o mini existe para deixar ‘la marca roxa’ na Revolução”.

 

A história e o diário de Carlos Lamarca –assim como o comportamento dos revolucionários e contra-revolucionários brasileiros das décadas de 1960 e  1970– vem corroborar com o conceito do homem cordial apresentada na obra de Sérgio Buarque de Holanda. Cordial não no sentido da bondade e da benevolência, ressalte-se mais uma vez. Mas no sentido de agir pela emoção, pelo impulso. O capitão Lamarca, que tanto representa o que havia de melhor no oficialato do Exército quanto nos quadros guerrilheiros, era só impulso. Seu diário deixa claro que agia com o coração. Quis se filiar ao Partido Comunista quando o Movimento de 1964 já era vitorioso. Desertou do Exército por princípios. Estourou a cabeça de um inocente por medo. Esmagou o crânio de um adversário por ódio. Quis abandonar a luta revolucionária por não conseguir ficar mais tempo longe da mulher amada. Desistiu de lutar pela vida quando se conscientizou que não teria mais Iara em seus braços.

 

 

2.6 – A Dicotomia entre Militares e Revolucionários
O conceito do cordial também ser aplicado ao sentido do amor e do ódio; amizade e inimizade, simpatia e antipatia. Em última instância, o cordial de Sérgio Buarque rima com radical, que tende a desaguar maniqueísmo. Essa idéia levanta outra leitura a respeito da nossa revolução: o abismo que separa revolucionários de contra-revolucionários, marxistas de militares, esquerdistas de direitistas, para usar uma terminologia cada vez mais em desuso, mas que norteou as relações sociais, econômicas e políticas ao longo do século XX. Essa é uma questão delicada, e sobre a qual necessário se faz ter muito cuidado na análise.

 

Seriam esses dois grupos opostos e contraditórios, como boa parte do imaginário social atual supõe? Seriam eles, respectivamente, os legítimos representantes do proletariado oprimido e da burguesia opressora? Seriam eles, respectivamente, os legítimos representantes das forças progressistas e reacionárias, da esquerda e da direita, o futuro e do atraso, da liberdade e da opressão? Pior, seriam eles os representantes do Bem e do Mal? Na maior parte da historiografia a respeito do período militar, assim como no material publicado na imprensa, encontra-se a tendência –explícita ou velada—a uma análise dicotômica dos acontecimentos, reproduzindo, desta forma, um imaginário maniqueísta sobre a luta armada no Brasil.

 

Como explicar, nesse caso, que dois dos maiores ícones na “nossa revolução” serem egressos do Exército, o capitão Luís Carlos Prestes e o capitão Carlos Lamarca? Se foram justamente os militares os principais protagonistas de algumas mudanças sociais e políticas importantes no País, como a proclamação da República, o movimento tenentista, a Revolução de 1930 e a restauração da democracia em 1945, o que teria acontecido com o Exército brasileiro?

 

Encontramos novamente em Sérgio Buarque de Holanda algumas respostas a essas questões. Pelo menos, pode-se dizer, alguns indícios importantes sobre os primórdios da separação entre a ideologia socialista e o corpo das Forças Armadas –a década de 1930, durante a grande crise do liberalismo, quando dois sistemas políticos totalitários, fascismo e comunismo, seduziam o ocidente. Nessa época, o fascínio pela palavra “revolução” e pelas soluções radicais, iniciado com a queda da Bastilha, talvez estivesse em seu ápice histórico.

 

No capítulo que dá título a este ensaio, “Nossa Revolução”, Sérgio Buarque também especula sobre a possibilidade do fascismo, a despeito de sua violência intrínseca, alcançar algum sucesso no Brasil através da versão nacional, o integralismo de Plínio Salgado[60], posto que naqueles conturbados Anos 30, como já dito acima, diante da recessão mundial e da falência do modelo liberal-capitalista, havia uma ânsia generalizada por novos ideais políticos.

 

A maior dificuldade para o “mussolinismo indígena” tomar o poder, segundo o autor, seria a falta de vigor de seus integrantes, faltaria “aquela truculência desabrida e exasperada, quase apocalíptica, que tanto colorido emprestou aos seus modelos da Itália e da Alemanha”. A energia de nossos fascistas, argumenta, “transformou-se, aqui em pobres lamentações de intelectuais neurastênicos”. A seguir,  comparou  nossos  contra-revolucionários[61]  fascistas  com  nossos revolucionários comunistas:

 

“Deu-se com eles [os integralistas] coisa semelhante ao que resultou do comunismo, que atrai entre nós precisamente aqueles que parecem menos aptos a realizar os princípios da Terceira Internacional. Tudo quanto o marxismo lhes oferece de atraente, essa tensão incoercível para um futuro ideal e necessário, a rebelião contra a moral burguesa, a exploração capitalista e o imperialismo, combina-se antes com a mentalidade anarquista do nosso comunismo, do que com a disciplina rígida que Moscou reclama dos seus partidários[62]”.

 

Sérgio Buarque de Holanda deixa claro nas entrelinhas que, para ele, fascistas e comunistas eram semelhantes em sua essência, ou seja, na busca por algum tipo de revolução. Mas a uma revolução sem concessões, sem conciliações, porque ambos, radicais, seguiam ideologias totalitárias, ou de direita ou de esquerda.
Posteriormente, autores do porte de Hannah Arendt e Eric Hobsbawm[63], lançaram conceitos semelhantes, contudo mais substanciados, ao comparar as duas ideologias, fascismo e comunismo, não pelos seus respectivos princípios e ideais utópicos, mas pelo que fizeram de prático e violento. Quando escreveu Origens do Totalitarismo[64], ao final da Segunda Guerra, Hannah Arendt ousou traçar um paralelo entre o Nazismo e o Stalinismo, considerando que ambos seriam muito semelhantes por conta das práticas totalitárias.

 

Alemã e judia, dedicou-se muito mais a estudar a ascensão de Hitler, mas também arranhou com bastante eficiência a imagem do grupo político que tomou de assalto o estado soviético em nome da coletividade. Traçar  comparações e paralelos entre os dois regimes foi considerado uma atitude espúria pela esquerda na ocasião. Naquela época, a União Soviética e Joseph Stalin ainda eram tratados com fervor religioso pelos seguidores do socialismo. Os marxistas argumentavam que o termo “totalitário” seria inscrito no contexto de guerra fria e que seu uso seria uma tática do capitalismo liberal para tentar desmoralizar o socialismo real e a ditadura do proletariado.

 

Mais tarde, nos anos 1970, pensadores como Giovani Sartori e Raymond Aron chegaram a decretar o totalitarismo como um acidente histórico já superado[65]. Os acontecimentos dos posteriores comprovaram essa corrente excessivamente otimista. Tomo aqui emprestada a ousadia de Hannah Arendt para asseverar que, se tivesse a oportunidade de complementar sua obra tivesse, além do Nazismo e do Stalinismo, certamente e pensadora teria incluído o fundamentalismo islâmico como um exemplo de totalitarismo radical.

 

Sérgio não se refere aos  militares nesta parte específica da obra. Mesmo porque não havia naquela época qualquer imaginário relacionando militares ao fascismo, como a esquerda brasileira passou a difundir com o advento da ditadura militar de 1964-1979. Vale ressaltar, mais uma vez, que as ideologias totalitárias podem envolver tanto civis quanto militares. Se é verdade que ao longo da história brasileira raras vezes esses militares e socialistas pegaram em armas para lutar do mesmo lado, há de se lembrar, entretanto, que quando longe das armas e dos movimentos sangrentos, quando abstraímos a Guerra Fria e luta maniqueísta do socialismo versus o capitalismo, encontram-se nesses dois grupos um vasto mundo intercessões nos interesses econômicos e políticos. Exemplos? A Revolução de 1930, a redemocratização de 1945, o movimento “O Petróleo é Nosso”.

 

Em fins da década de 1950, aumentou ainda mais a intercessão entre esses dois grupos. O historiador Luis Mir[66] ressalta que um marco importante foi a ascensão ao poder de Nikita Kruschev[67] e dos novos dirigentes do Partido Comunista da União Soviética. Eles passaram a defender a participação dos militares nacionalistas (ou seja, anti-americanistas) no processo revolucionário como força fundamental no Terceiro Mundo[68], já que não poderiam contar com uma classe operária organizada. A idéia central era a de que,nesses países, os militares seriam uma força real com origens populares, constituídas, em sua maioria, por egressos do proletariado[69]. Essa política era conhecida entre os governantes comunistas como “socialismo por decreto”, ou seja, atingir a revolução através de golpes de Estado, exatamente como fizeram os bolcheviques na Rússia em outubro de 1917 quando, comandados por Leon Trotski e liderados por Wladimir Lênin, tomaram de assalto o poder dos mencheviques de Kerensky[70], força política que havia derrubado o czar[71]. Essa opção pelos militares como “vanguarda revolucionária”, em detrimento dos PCs, já havia sido testada com êxito na Europa Oriental depois da Segunda Guerra Mundial.

 

Desta forma, relata ainda Mir, teve início do treinamento pelo Exército Vermelho soviético de membros das Forças Armadas e de militantes comunistas do Terceiro Mundo. Paralelamente, a Academia Militar de Pequim começaria a patrocinar o treinamento de seus próprios revolucionários. Em paralelo, Luís Carlos Prestes passou a se dedicar, prioritariamente, à cooptação nas Forças Armadas de oficiais e sargentos nacionalistas para uma luta de “libertação nacional”, que serviria de base para um futuro governo “anti­imperialista”, não importando se a tomada do poder fosse pela via pacífica ou violenta. Em toda a sua caminhada como líder dos comunistas brasileiros, para Prestes, a militarização do PCB sempre foi uma vertente básica de seu funcionamento e organização[72]. Até a década de 1970, por exemplo, quase totalidade dos membros da Executiva do PCB, era ou militares integrantes do movimento tenentista, ou remanescentes do levante de 1935. O historiador Jacob Gorender, militante do PCB, relata que Carlos Marighella também mantinha boas relações com membros das Forças Armadas, antes de depois de 1964[73].

Mais recentemente, depois que os militares e os revolucionários marxistas brasileiros depuseram as armas, já na década de 1980[74], vem ocorrendo uma lenta e gradual aproximação entre ambos. Desde meados da década de 1990, têm ocorrido alianças pontuais entre as Forças Armadas e os partidos de esquerda, notadamente o Partido dos Trabalhadores, PT, em questões como segurança interna, política de ocupação da Amazônia, energia nuclear, o papel estratégico do Estado e, em especial, na oposição à política de globalização econômica. Expressões como “nacionalismo”, “autonomia política” e “independência econômica”  têm sido fios condutores dessa aproximação.

 

Dois personagens que marcaram nossa história ajudam a desconstruir essa dicotomia. O primeiro, o lendário capitão do Exército Luís Carlos Prestes, baluarte da disciplina e da abnegação militar, gênio da estratégia em campos de batalha, cujas manobras por ele imaginadas durante da Coluna Prestes são até hoje ensinadas nas academias militares de todo o planeta, de Pequim a West Point, de Moscou a Agulhas Negras[75]. O outro personagem é o capitão do Exército Carlos Lamarca.

 

 

2.7 – Imaginário Radical: O Bem e o Mal na Nossa Revolução

 

Busquemos primeiramente em Hannah Arendt o arcabouço teórico para tentar entender o radicalismo maniqueísta que envolveu os Anos de Chumbo no Brasil, em especial os episódios protagonizados pelo capitão Carlos Lamarca. Arendt começou a se interessar pelo tema em 1947, chocada que estava com os acontecimentos políticos da época, com os horrores da guerra e do holocausto. Tentava encontrar explicações filosóficas para compreender o fenômeno totalitário. Naquela ocasião encontrou em Kant o conceito de Mal Radical. Mais tarde, em 1963, quando foi contratada pela revista The New Yorker para cobrir como jornalista o julgamento de Adolf Eichmann[76], em Jerusalém, sua reflexão acerca do fenômeno da violência e do totalitarismo sofreu uma mudança decisiva.

 

Ela esperava encontrar, no mínimo, um homem perverso, um monstro, um exemplar de malignidade humana, como fazia acreditar a imprensa na época. Ficou surpresa ao encontrar um homem comum, que podia ser caracterizado como tendo apenas um “vazio de pensamento”. Concluiu que o acusado não seria um monstro, mas um “homem com extremo grau de heteronomia”[77]. Ou seja, um pacato servidor público disposto a não pensar, a não elaborar, disposto somente a cumprir ordens, a qualquer preço, custe o que custar. Enfim, um indivíduo que era um produto típico do estado totalitário, segundo escreveu. Foi, então, que Arendt passou a encarar o problema do Mal dentro da sua dimensão política, numa visão original que é da sua banalidade.

 

Ainda, de acordo com a visão de Hannah Arendt, as instituições públicas dos regimes totalitários dariam aos seus agentes o sentimento de embriaguez, de servir as forças superiores e aos vastos desígnios nos quais eles não são eles mesmos, mas apenas instrumentos tão dóceis como irresponsáveis. Foi essa “política infantil” que levou os “eleitos” arianos a produzir os massacres administrativos em Treblinka e Sobidor.

Parafraseando Hannah Arendt, diríamos que o diário de Carlos Lamarca é, do início ao fim, de uma ingenuidade comovente. Trata-se de uma bela lírica de um herói revolucionário que perdeu a cabeça pela musa inspiradora, nossa  bela Isolda, a Guinevere dos trópicos. Mas também expõe toda a ingenuidade desse representante maior da nossa revolução, um “eleito” .Diríamos o mesmo sobre os corajosos revolucionários marxistas, os “eleitos” cavaleiros andantes, nobres hussardos, que se auto-incumbiram dos vastos desígnos de limpar o solo pátrio dos ímpios capitalistas a fim de semear a justiça social universal através da ditadura do proletariado.

 

Da mesma forma, faríamos considerações similares respeito dos garbosos militares, membros dos órgãos de segurança e repressão, os “eleitos”, que embriagados pelo sentimento de servir a forças superiores, aceitaram a nobre missã de limpar o solo pátrio dos impuros comunistas, não importando o preço a pagar em vidas humanas.

 

Mais uma vez, é Hannah Arendt quem nos faz questionar[78]:

 

“Será possível que o problema do bem e do mal,o problema de nossa faculdade para distinguir o que é certo do que é errado, esteja conectado com nossa faculdade de pensar? Será que a maldade – como quer que se defina esta – não é uma condição necessária para fazer o mal?” (…).

“Essas questões morais, que têm origem na experiência real e se chocam com a sabedoria de todas as épocas – não só com as várias respostas tradicionais que a ética, um ramo da filosofia, ofereceu para o problema do mal, mas também com as várias respostas muito mais amplas que a filosofia tem, prontas, para a questão menos urgente sobre ‘o que é o pensar?’ (…)

 

Eis a resposta de Arendt::

 

“O homem cria o sublime, mas, também, pode criar o monstruoso” [Portanto], “os objetos do pensamento só podem ser coisas merecedoras de amor – beleza, sabedoria, justiça”.

 

 

 

3 – Conclusão 

 

Enfim, onde estaria a diferença essencial entre o capitão Carlos Lamarca e o coronel que o executou a sangue frio? Talvez no fato de um deles ter lutado por uma causa justa e outro pelo retrocesso. Quando Lamarca, em nome do Bem, estourou de forma desumana a cabeça de um prisioneiro indefeso, um jovem tenente, onde estaria residindo o Mal? Talvez estivesse intrínseco nas estruturas da ditadura militar estabelecida.

Nesse caso, o silogismo há de concluir que o Bem estaria na ditadura do proletariado que o capitão sonhava conquistar ao lado da sua musa revolucionária. O Bem estaria na imaginação do bravo capitão quando “babava” só de pensar que poderia um dia alcançar a felicidade, trabalhando em uma fazenda coletiva, ao lado de Iara Iavelberg. Questões como essas, sobre o Bem e o Mal na nossa revolução, só encontram sentido historiográfico quando analisadas a partir de visões e metodologias maniqueístas. Tratar-se-ia, nesse caso, de mero reducionismo, ou pelo menos de ingenuidade do historiador.

Ainda sob inspiração do mestre Sérgio, faz-se necessário lembrar que, em Raízes, ele construiu a metodologia dos contrários, metodologia esta que pode servir como interessante ponto de partida para a reflexão sobre esse ambiente essencialmente maniqueísta que foi os Anos de Chumbo durante regime militar brasileiro. Ao analisar a obra, Antônio Cândido observou que a tradição latino-americana é a de reflexão da realidade pelo senso dos contastes, ou mesmo dos contrários. Em Raízes, observa Cândido, o esclarecimento não decorre da opção prática ou teórica por um deles, mas pelo jogo dialético entre ambos:

“A visão de um determinado aspecto da realidade histórica é obtida pelo enfoque simultâneo dos dois; um suscita o outro, ambos se interpenetram e o resultado possui uma grande força de esclarecimento. (…) a história jamais nos deu o exemplo de um movimento social que não contivesse os germes de sua negação –  negação essa que se faz, necessariamente5 dentro do mesmo âmbito”[79].

 

Militares e revolucionários –um suscita o outro e ambos se interpenetram, pois, como explica Antônio Cândido, a história jamais nos deu o exemplo de um movimento social que não contivesse os germes de sua negação. De acordo com as perspectivas da Nova História, o fazer do historiador tornou-se um exercício de desafios que exigem uma procura de novos sentidos para explicar novos e velhos temas. Nesse sentido, o diário legado por Carlos Lamarca, abre a possibilidade de novas leituras sobre o imaginário da “nossa revolução”, tanto as experiências humanas vividas pelos revolucionários, quando a dos militares e demais membros  da contra-revolução.

 

 

Mas não basta ao historiador organizar fatos, é preciso também explica-los. Na construção da teoria histórica, acreditamos ser o imaginário, segundo as palavras de Cornelius Castoriadis, “a argamassa que possibilita a ligação entre diferentes fatos, que permite a criação de novas formas e configura os sentidos possíveis da construção teórica; o imaginário não é apenas o ornamento do real, mas o perfume da flor, a História é o tempo reinventado pela memória”.[80]
A questão que se coloca é saber por qual arcabouço teórico e metodológico devemos optar na análise de determinados fatos relacionados à guerra revolucionária e à sua repressão pelas forças legais organizadas. Weber e o aparato burocrático? Não parece ser adequado para compreender o embate entre duas forças políticas em armas. Marx e sua teoria das classes sociais? Nesse caso, como explicar o fato de que nove em cada dez guerrilheiros das “forças populares” que pretendiam implantar a ditadura do proletariado, a começar pela professora Iara Iavelberg, serem egressos da classe média urbana, universitários e profissionais liberais? Trata-se apenas de um dentre outros possíveis exemplos dessa contradição.

 

É do historiador René Barbier a seguinte idéia:

“Imaginário é o perfume do real. Por causa do odor da rosa eu digo que a rosa existe”.

 

É do capitão guerrilheiro Carlos Lamarca a seguinte idéia:
“Sonhando com você, acordo no meio da noite e volto a sonhar. Ora, porque o sonho? (…) Não sei explicar toda essa imensa necessidade – o importante é que existe. (…) Te amo, te adoro. Segue esta carta impregnada de amor – vou te ver nem que seja a última coisa da minha vida”

 

O imaginário social nos parece a argamassa adequada para catalisar diferentes fatos e personagens da História. Peço por fim permissão para parafrasear o conturbado Hamlet –e lembrar que diário produzido pelo capitão da guerrilha para sua musa inspiradora deixa explícito que há muito mais mistérios entre o coração de um revolucionário e a terra de um militar do que pode supor nossas vãs teorias.

 

 

 

 

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[1] A VPR foi um dos grupos marxistas-leninistas brasileiros que, entre 1968 e 1971, pegou em armas contra o regime militar instaurado em 1964. Maiores detalhes adiante.

[2] Detalhamento adiante.

[3] O referido documento foi tornado público em artigo deste autor, publicado na revista República: STUDART, Hugo. “História Lamarca, o antidialético da lira – surgem trechos inéditos do diário atribuído a Carlos Lamarca, em que o líder guerrilheiro declara com igual fervor tanto sua crença na revolução como seu amor por lara lavelberg”. República, São Paulo, janeiro 2002, ano 6, nº 63, págs. 78-81.

[4] Os textos estão reproduzidos da forma literal, com as virgulas e grafias originais de palavras como amôr, sôbre e êrro.

[5] HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 26ª ed., São Paulo: Companhia das Letras,f 1995. O capítulo VII chama-se “Nossa Revolução”.

[6] A primeira edição de Raízes é de 1936.

[7] Op. cit.

[8] Leonid Brejnev foi o secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética entre 1964 e 1981. Sucedeu a Nikita Kruschev. O período Brejnev representou o ápice do expansionismo político, econômico e militar soviético.

[9] HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos. São Paulo : Companhia das Letras, 2ª ed., 2001, baliza a Guerra Fria como o período compreendido entre o término da Segunda Guerra Mundial (1945) e a queda do Muro de Berlim (1989).

[10] A carta encontra-se reproduzida, como anexo, na 23ª edição de Raízes do Brasil,da José Olympio Editora, 1991, pág. 143 a 146. Em 1997, Raymundo Faoro ainda debatia a polêmica, em texto sobre a obra de SBH. FAORO, Raymundo. “Sérgio Buarque de Holanda: analista das instituições brasileiras”, in CÂNDIDO, Antônio (Org.). Sérgio Buarque de Holanda e o Brasil. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 1997.

 

[11] CALDEIRA, João Ricardo de Castro. “Raízes do Paraíso da Ilusão”. Revista Primeira Leitura, São Paulo, abril de 2002, ano 1, nº 1, págs. 124-129.

[12] MIRANDA, Oldack e JOSÉ, Emilino. Lamarca  O Capitão da Guerrilha. 7ª ed., São Paulo: Global, 1980. Os autores fazem referência ao diário, citando alguns trechos, todos odes à revolução socialista. Nenhuma referência ás declarações de amor de Lamarca á Lara.

[13] Figura secundária do regime militar. Coronel do Exército, governador nomeado (1970-1974), ministro das Minas Energia durante o governo de João Figueiredo (1979-1985).

[14] BACZKO, Bronislaw. Imaginação Social. In Enciclopédia Einaudi, Vol.V. Lisboa : Imprensa Nacional, Casa da Moeda, 1987.

[15] ROBERTS, J. M. The Shorter History of the World – “O Livro de Ouro da História do Mundo”. Trad. Laura Alves e Aurélio Rebello. Rio de Janeiro : Ediouro, 2001, pág. 689.

[16] BARBIER, René. Sobre o Imaginário. Trad. Márcia Lippincot F. da Costa e Vera de Paula. In Revista “Em Aberto”, Brasília, Ano 14, nº 61, ed. Jan/Mar 1994, pág. 15.

[17] Ibid.

[18] Irmão caçula de Cid Queiroz Benjamin, um dos líderes do MR-8 (Movimento Revolucionário Oito de Outubro), Menininho caiu na clandestinidade aos 16 anos. Transformou-se em mito na esquerda pela coragem e impetuosidade. Foi preso em Salvador, dez dias depois da policia apreender o diário. Atualmente ele é pesquisador da Fundação Getúlio Vargas e editor do Contraponto.

[19] Ney Roitman, Alberto Jak Schprejer e Teresa Cristina de Moura Peixoto.

[20] Fonte: Detalhes desse episódio encontra-se publicado no site “TERNUMA – Terrorismo Nunca Mais”, mantido por militares, ex-integrantes dos órgão de repressão: www.ternuma.com.br.

[21] LACERDA, Sônia. “História, narrativa e imaginação histórica, in SWAIN, Tânia Navarro (Org). História no Plural. Brasília; Ed. universidade de Brasília, 1994, pág. 13.

[22] BARREIRO, José Carlos. “E.P. Thompson e a Historiografia Brasileira; Revisões críticas e projeções”. ln; Gestualldade, história popular e memória coletiva no Brasil Império, 1780-1880. Assis (SP); Departamento de História da Unesp, 1995. O historiador britânico apresenta um novo conceito de classe social, ancorado nos princípios da cultura e da experiência.

[23] MIRANDA, Oldack. Op. cit., pág. 33.

[24] MIRANDA, Oldack & José, Emiliano Lamarca.  O capitão da guerrilha. São Paulo Global; 7ª ed., págs. 33-35 MIR, Op. cit., cap. “O Sucessor? O comandante Carlos Marighella”, pág. 33-35.

[25] No jargão comunista, é simpatizante ainda não pode ser considerado um militante.

[26] Idem, ibidem.

[27] Fontes: MIPANDA, Oldack, op. cit.; GORENDER, Jacob, op. cit; e MIR, Luís, op. cit.

[28] Sargento Darcy Rodrígues, cabo José Mariane, soldado Carlos Roberto Zanirato.

[29] Op. Cit.

[30] SIRKYS, Alfredo, Os Carbonários. 14ª ed. São Paulo: Record, 1998, pág. 384. O autor militou na VRP de Lamarca; depois foi exilado político. Em 1980, de volta ao Brasil, publicou uma das mais completas e honestas auto-críticas da esquerda, Os Carbonários. Mais tarde fundou e presidiu o Partido Verde, tornando-se vereador na cidade do Rio de Janeiro.

[31] MIRANDA, Oldack. Op. cit., pág. 58.

[32] Ibidem.

[33] Ibidem.

[34] Assim batizado em homenagem ao dia da morte de Che Guevara. O grupo protagonizou algumas ações espetaculares, como o seqüestro  do embaixador americano Charles Elbrick, em 1969, o primeiro do gênero no mundo. O governo reagiu intensificando a repressão  decretando o AI-14, que estabelecia as penas de morte e de prisão perpétua em tempos de paz. O “Oito”, como é chamado, é o único dos antigos grupos guerrilheiros que ainda sobrevive, agora dentro do PMDB, ligado aos ex-governadores Orestes Quércia (SP) e Newton Cardoso (MG).

[35] MARX, Karl e ENGEL, Friederich. Manifesto do Partido Comunista – 2ª ed. Lisboa: Avante, 1975, p. 68 a 71.

[36] Entrevista de Lênin a Clara Zetkin, Fonte: FARIA, Aldenira Maria Piedade de. A Construção do gênero nos discursos do Partido Comunista do Brasil e da Ação Integralistas Brasileira (1935-1979). Dissertação (Mestrado em História) – Instituto de Ciências Humanas, Departamento de História, Universidade de Brasília, Biblioteca da Unb, 1995.

[37] SIRKYS, Alfredo, op. cit., pág. 385.

[38] Op. cit., nota 36.

[39] Fonte: www.desaparecidospolíticos.org.br. Médico legista: Charles Pittex.

[40] SIRKYS, Op. cit., pág. 385.

[41] Fonte: depoimento de militares a este pesquisador.

[42] Jornal do Brasil e o Globo.

[43] HOLANDA, Sérgio Buarque. Op. cit., pág. 176.

[44] LIMA, Oliveira. Aspectos da História e da Cultura do Brasil. Lisboa, 1923, pág. 78. citação in Raízes, op. cit., pág. 176.

[45] Refrão: “A paz queremos com fervor/A guerra só nos causa dor/Porém se a pátria amada/for um dia ultrajada/lutaremos com fervor”.

[46] Op. cit., pág. 176.

[47] Estilista de sucesso em Nova York na década de 1970, Zuleika “Zuzu” Angel promoveu uma comovente campanha internacional denunciando a tortura no Brasil. Seu filho, o universitário Stuart Angel Jones, de pai norte-americano e dupla cidadania, militante do MR-8, morreu nas dependências da Base Aérea do Galeão, RJ, em 14/06/71, torturado, esfolado, asfixiado, com a boca no cano de descarga de um jipe militar. Zuzu levou o caso ao senador Edward Kennedy, que denunciou o governo brasileiro no Congresso dos EUA. Conseguiu entrevista com o secretário de Estado Henrv Kissinger. Apresentou desfile de moda com motivos bélicos, “a primeira coleção de moda política do mundo”, definiu. “Eu não tenho coragem, coragem tinha meu filho, eu tenho legitimidade”, dizia. Sua luta para encontrar o corpo do filho comoveu a imprensa internacional. Zuzu, por sua vez, faleceu em 14/04/76, em acidente de carro no Rio de Janeiro, depois de ser fechada por outro automóvel não identificado. Especula-se que o acidente tenha sido obra dos órgãos de repressão. Ainda não foi encontrada provas concretas de assassinatos. Fonte: site Desaparecidos Políticos. www.desaparecidospoliticos.org.br.

[48] Fonte: Grupo TERNUMA, Terrorismo Nunca Mais, site www.ternuma.com.br.

[49] Sobre isso, ver HOBSBAWN, Eric. A Era dos Extremos – O breve século XX. São Paulo: Companhia das Lestras, 2001, 2ª ed. 18ª imp.; e PANNE, Jean-Lo, et al. O Livro Negro do Comunismo; Crimes, Terror e Repressão, São Paulo: Betrand Brasil, 1999, 1ª ed.

[50] GORENDER, Jacob. Combate nas Trevas. 58 ed., São Paulo : Ática, 1999.

[51] MIR, Luís. A Revolução Impossível – A esquerda e a luta armada no Brasil. São Paulo : Best Seller, Círculo do Livro, 1994, 755. A pesquisa que resultou na obra foi objeto de tese de doutorado pela Universidade de São Paulo.

[52] DREIFUSS, René Armand – 1964 – A Conquista do Estado. Petrópolis : Vozes,  1981.

[53] AUGUSTO, Agnaldo Del Nero. A Grande Mentira. Rio de Janeiro.  Biblioteca do Exército, 2001, 475 p. Chefe do serviço de informações do Exército (CIE) durante o regime militar, nesse livro, o general Dei Nero apresenta o que há de mais próximo à versão oficial das Forças Armadas sobre a repressão política.

[54] Op. cit.

[55] “Justiçamento” era o termo utilizado pela esquerda brasileira para caso de execuções sumárias de guerrilheiros acusados de traição; ou para a execução dos inimigos militares e imperialistas em geral. Os “justiçamentos” teriam ocorridos tanto na guerrilha urbana, quanto na rural.

[56]SILVA, Eumano. “A história do Exército que torturava, matava e cortava cabeças”. Correio Braziliense, Brasília, 28/11/2001, p.7. Na reportagem, o jornalista relata o “iustiçamento” do guerrilheiro Rosalindo e informa que teria sido provocada por um caso banal de adultério envolvendo o casal de guerrilheiros Arlindo Valadão e Áurea Elisa Pereira. O assunto é polêmico. PC do B sustenta a versão de que Rosalindo teria morrido acidentalmente, enquanto limpava a própria arma.

[57] Alberto Mendes Jr.

[58] Op. cit., págs 333/335.

[59] Este pesquisador ainda não conseguiu identificar a qual assunto Lamarca está se referindo.

[60] Filósofo, escritor, deputado federal, fundador da Ação Integralista Nacional.

[61] SBH utiliza, na verdade, o termo contra-reforma para se referir aos integralistas. “O integralismo será, cada vez mais, uma doutrina acomodatícia, avessa aos gestos de oposição”.

[62] Op. cit., pág. 187.

[63] HOBSBAWN, Eric. A Era dos Extremos – O breve século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, 2ª ed. 18ª imp.

[64] ARENDT, Hannah. Origens do Totalitarismo. Trad. Roberto Raposo. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

[65] SOUKI, Nádia. Hannah Arendt e a Banaildade do Mal. Belo Horizonte:  Editora UFMG, 1998. pág. 37.

[66] MIR, Luís. A Revolução Impossível – A esquerda e a luta armada no Brasil. São Paulo : Best Seller, Círculo do Livro, 1994, 755. A pesquisa que resultou na obra foi objeto de tese de doutorado pela Universidade de São Paulo,USP.

[67] Kruschev sucedeu a Joseph Stalin em 1953. Mais tarde denunciou os crimes do antecessor, criando uma cisão traumática no Movimento Comunista Internacional.

[68] JAGUARIBE, Hélio. Estudo Critico da História.Tradução de Sérgio Bath. São Paulo:Paz e Terra, 2001 Vol II, pág. 607; “Terceiro Mundo é uma expressão criada por estudiosos franceses na década de 1950 que passou a ser utilizada amplamente para designar os países subdesenvolvidos, por oposição ao Primeiro Mundo, que inclui os Estados unidos, Japão e Europa, e um Segundo Mundo, abrangendo União Soviética e seus satélites europeus. O Terceiro Mundo reúne uma ampla variedade de países, na África, Ásia e América Latina, abrangendo 75% da população mundial, com diferentes graus de desenvolvimento (…) representando apenas 15% da renda mundial”

[69] MIR, Luis, op. cit., pág. 17

[70] Socialistas moderados, liderados por Alexander Kerensky.

[71] VOLIN, Vsevolod Eichenbaum. A Revolução Desconhecida. São Paulo: Global, 1980.

[72] MIR. ibidem.

[73] GORENDER, Jacob. Combate nas Trevas. 5ª ed., São Paulo: Ática, 1999, pg. 189.

[74] Há três marcos a destacar. Em 1985, os militares entregaram o poder aos civis. Em 1988 foi promulgada a nova Constituição, no qual todos os grupos políticos e sociais, incluindo militares e comunistas, aceitaram o modelo ocidental da democracia parlamentar com economia capitalista. Por fim, em 1989, com a queda do Muro de Berlim, entra em desuso internacional, pelo menos temporariamente, a opção de implantação de regimes socialistas através de revoluções armadas.

[75] MEIRELLES, Domingos. As Noites das Grandes Fogueiras –  Uma história da Coluna Prestes. São Pauto Record, 1985.

[76] Eichemann era o funcionário público encarregado da questão judaica no regime nazista. Ao final da guerra, fugiu para a Argentina. Em 1961, o líder israelense David Ben Gurion mandou seqüestra-lo em Buenos  Aires e levou-o a julgamento em Jerusalém.

[77] SOUKI, Nádia. Op. cit., pág. 54.

[78] SOUKI, Nádia, op. cit.

[79] CÂNDIDO, António. Introdução. In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Op. cit. pág. 13.

[80] CASTORIADIS, Cornelius. A Instituição Imaginária da Sociedade. Rio de Janeiro : Paz e Terra, 3ª ed., pág. 347.

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