A Morte e a morte da subcomandante Dina

A história de uma guerrilheira como representação do imaginário coletivo radical compartilhado por revolucionários e militares na Guerrilha do Araguaia (Monografia para a disciplina “Identidades e Representações”, do Mestrado em História, Universidade de Brasilia).

 

 

A mentalidade de um indivíduo, mesmo que se trate de um grande homem, é justamente o que ele tem de comum com outros homens de seu tempo” – J. Le Goff

“O homem cria o sublime, mas, também, pode criar o monstruoso”. Hanna Arendt

 

Dinalva Conceição Oliveira Teixeira deixou algumas lendas heróicas em sua passagem de quatro anos pela região do Rio Araguaia. Conta-se que de certa feita, quando em combate, mesmo com uma bala alojada no pescoço, teria virado borboleta antes de desaparecer na mata diante dos olhos em estupor dos inimigos[1]. Por conta da sua determinação, os guerrilheiros a obedeciam. Pela violência de seus atos, os camponeses a respeitavam. Pela coragem testada nas armas, os soldados a temiam. Dina –foi este o codinome que ela escolheu ao deixar para trás, em São Paulo, a identidade original a fim de aderir a um grupo de 69 militantes do Partido Comunista do Brasil, o PC do B, que pretendia implementar uma guerra popular revolucionária na região do Bico do Papagaio, entroncamento de Goiás, Pará e Mato Grosso, que ficou conhecida como Guerrilha do Araguaia. A subcomandante Dina, símbolo maior da guerrilheira radical. Matou quem achou que merecia e morreu da forma que bem pediu.

Uma única vez o guerrilheiro Rosalindo Cruz Souza, codinome Mundico, esteve diante da determinação da subcomandante. Era um caso banal de adultério, triângulo entre Rosalindo e o casal de guerrilheiros Arlindo Valadão e Áurea Elisa Pereira. Levado às barras do Tribunal Revolucionário, Rosalindo foi acusado de alta traição. Quatro companheiros participaram de seu julgamento, entre eles Dina. Sentenciado ao “justiçamento”[2], teve execução sumária. Foi amarrado numa árvore pelo companheiros, com os olhos vendados. Dina levantou-se e foi direto ao companheiro, sem vacilos. Estourou-lhe a cabeça com um tiro de pistola. Foi enterrado ali mesmo. Seu corpo jamais foi encontrado. Esses fatos ocorreram a 16 de agosto de 1973[3].

A subcomandante Dina foi presa pelas forças do Exército cinco meses depois, em janeiro de 1974, de acordo com os arquivos militares a que este pesquisador teve acesso. Segundo os mesmos arquivos, ela morreu em julho daquele ano. Ainda é uma incógnita o que aconteceu nos seis meses em que esteve nas mãos do Estado. Seu corpo jamais foi encontrado. Relato de um militar a este pesquisador[4] dá conta de que ela foi levada de helicóptero, a partir da cidade de Xambioá (GO) para algum ponto da mata espessa. Chefiava o pelotão um militar do Exército, codinome Ivan. “Vocês vão me matar?”, indagou Dinalva assim que pisou em solo. “Não, só quero que você reconheça um ponto ali adiante”, respondeu o militar. Ela caminhou por cerca de 15 minutos mata adentro, com as mãos amarradas nas costas. Mantiveram uma conversa relativamente cordial, testemunhada por cinco militares. A guerrilheira queixou-se de que estaria se sentindo traída pela cúpula do PC do B. Ela queria combater, partir para o confronto armado com os militares, mas os chefes do partido deram ordem de fuga. O grupo parou em uma clareira. “Vou morrer agora?”, perguntou a guerrilheira. “Vai”, respondeu o militar. “Então eu quero morrer de frente”, pediu. “Então vira pra cá”. O militar se aproximou e lhe estourou a cabeça com um tiro de pistola. Foi enterrada ali mesmo. Seu corpo jamais foi encontrado. Dina encontra-se na relação dos desaparecidos políticos do Ministério da Justiça.

Agente Ivan: Dina era a grande heroína de seu imaginário radical

Fontes de Informações

Faz-se mister esclarecer, preliminarmente, a carência de publicações com relatos sobre a Guerrilha do Araguaia, especialmente sobre a terceira fase, entre outubro de 1973 e julho de 1974, quando teriam morrido 47 guerrilheiros –para somente dois sobreviventes conhecidos. A fonte de informações mais utilizada pelos pesquisadores é o relatório do guerrilheiro Ângelo Arroio, redigido em São Paulo, após sua fuga da região, e publicado em 1976. Mais recentemente, surgiu uma segunda fonte primária, ex-guerrilheiro Micheas Gomes de Almeida, codinome Zezinho. Foi ele quem retirou Arroio da mata e depois desertou. Por um quarto de século foi dado como morto, incluído na lista dos Desaparecidos Políticos do Ministério da Justiça. Micheas só reapareceu em 1997, quando se reconciliou com o PC do B e começou a relatar a jornalistas e pesquisadores o que testemunhou na guerrilha. Há um terceiro sobrevivente da terceira fase, que fugiu com Arroio e Micheas, mas cujo nome permanece incógnito.

O documento mais importante sobre o Araguaia talvez seja o Diário do Velho Mário, redigido na mata pelo comandante-em-chefe da guerrilha, Maurício Grabois, codinome Velho Mário, e apreendido pelo Exército na madrugada de 25 de dezembro de 1973, quando o mesmo foi morto, em um episódio que ficou conhecido como “Chafurda de Natal”. Esse documento permanece inédito até a presente data; encontra-se guardado nos arquivos do Exército em Brasília. Este pesquisador obteve uma cópia do mesmo, cujas informações serão utilizadas para compor este trabalho.

Esclareça-se, ainda, que entre março de 1997 e junho de 2001, este pesquisador realizou entrevistas orais com 26 militares que participaram da Guerrilha do Araguaia, incluindo os oficiais de mais alta patente que estiveram presentes no teatro de operações durante as segunda e terceira fases. Por fim, com base nesses depoimentos e em uma série de documentos ainda em poder das Forças Armadas ou de militares na reserva, dois desses oficiais redigiram um longo relato, com 384 páginas digitadas, sobre os acontecimentos do Araguaia, de acordo com a visão e o discurso militar. O relato recebeu a denominação de “Dossiê Militar da Guerrilha do Araguaia” e, em comum acordo com este pesquisador, tem como objetivo ser objeto de estudo acadêmico, para posterior publicação. Muitas das informações deste trabalho, em especial os episódios que envolvem a guerrilheira Dinalva Conceição Teixeira, têm no Dossiê fonte primária.

Representações de Valores

Intriga entender a maneira como indivíduos e grupos humanos são interpelados pelos fatos de seu tempo. Quais idiossincrasias econômicas ou sociológicas induziram revolucionários e contra-revolucionários a manter intimidade com a Morte, conforme os episódios acima relatados? O que mais incomoda é a aparente ausência de culpa dos protagonistas em seus atos de violência explícita. Aonde foram parar certos princípios humanísticos tidos hoje como universais, a começar pelos Direitos Humanos? Como certos valores questionáveis, como a banalização da violência, se transformou em prática de um segmento social? Como entender a relação de amor e ódio entre inimigos? Executar a sangue-frio; ter como último desejo encarar a Morte de frente, olho no olho –muito incomoda essa ética revolucionária. Incomoda mais ainda a prática das Forças contra-revolucionárias do Estado constituído, que tinha por dever cumprir o dogma socrático de zelar pela da Lei e a Ordem, independente de quem seja o adversário. Onde fica a base da ruptura entre o racional e o irracional? Por que o Bem e o Mal por vezes se confundem? –perguntaria Hanna Arendt — por que, afinal, o Mal é tão banal?

 

Talvez não se encontrem respostas satisfatórias na Economia ou Sociologia, mas sim na mentalidade incrustada em determinados sujeitos coletivos, aquilo que Roger Chartier conceitua como representações do mundo social. Objeto histórico fundamental, segundo Chartier, é constituído por algo que é exatamente o contrário do objeto da história intelectual clássica: “à idéia, construção consciente de um espírito individual, opõe-se, passo a passo, a mentalidade sempre coletiva que rege as representações e juízos dos sujeitos sociais, sem que estes o saibam”[5]. Ao historiador das economias e das sociedades, argumenta Chartier, que reconstitui o que existiu, opor-se-ia, efetivamente, o das mentalidades ou das idéias, cujo objeto não é real, mas as maneiras como os homens o pensam e o transpõem. Segundo Chartier as lutas de representações têm tanta importância como as lutas econômicas para compreender os mecanismos pelos quais um grupo se impõe:

 “Perante as idéias, ou melhor, perante os conceitos que utilizam os homens de uma época, fornecendo-lhes o conteúdo próprio dessa época, a tarefa do historiador das idéias é, portanto, a de substituir a busca de uma determinação pela função, função essa que só pode ser apreendida se for considerado globalmente o sistema ideológico da época considerada[6]

 

“A relação entre a consciência e o pensamento é colocada de uma forma nova, próxima a dos sociólogos da tradição durkheimiana, pondo em relevo os esquemas ou os conteúdos de pensamento que, embora enunciados sobre o modo individual, são de fato os condicionamentos não conscientes e interiorizados que fazem com que um grupo ou uma sociedade partilhe, sem que seja necessário explicitá-los, um sistema de representações e um sistema de valores”[7].

 

Nesse sentido, os episódios protagonizados pela guerrilheira Dina são representações de um sistema maior de crenças e valores compartilhados pelos figurantes de uma determinada época, seja na condição de revolucionário, seja na de contra-revolucionário. Poderíamos, para construir este trabalho, fazer uso das histórias em torno de outros personagens do mesmo ambiente. Pelo menos 20 guerrilheiros deixaram estórias no imaginário social, aquilo que  Bhabha conceitua como o “espaço do povo”, a “localidade da cultura”. Da simbiose entre três culturas e valores distintos, desse espaço tensionado entre camponeses, guerrilheiros e militares, produziu-se um “entre-lugar” singular, ainda usando um conceito de Bhabha. Guerrilheiros sobreviventes cantam a memória do doce André Grabois, o Zé Carlos, ou da determinada Regilena da Silva Carvalho, a Lena. Militares tecem loas e boas sobre o guerrilheiro Idalísio Soares Aranha Filho, o Aparício, que a 13 de julho de 1972 levou 53 tiros de metralhadora, inclusive no rosto –e ainda assim conseguiu escapar pela mata, tendo sido apanhado pela forças militares somente dois quilômetros adiante, agonizando no chão, onde foi executado com um tiro de pistola na cabeça[8][9]. No imaginário do camponês, nenhum outro supera em lendas o guerrilheiro Oswaldo Orlando da Costa, o Oswaldão, gigante de ébano, coronel de patente conquistada na Academia Militar de Pequim, campeão de boxe pelo Botafogo do Rio de Janeiro, o mais conhecido e carismático dentre os guerrilheiros –cuja memória é hoje disputada pelos homens com quem caçou, mulheres que amou e filhos que deixou, tal qual Rolando, Tristão ou Lancelot. E em torno de Dinalva Conceição Oliveira, contudo, que transparece a Morte, sempre rondando, com sua ética singular. Com a palavra Bhabha:

“Essa localidade (da cultura) está mais em torno da temporalidade do que sobre a historicidade: uma forma de vida que é mais complexa que ‘comunidade’, mais simbólica que ‘sociedade’, mais conotativa que ‘país’, menos patriótica que ‘patrie’, mais retórica que a razão de Estado, mais mitológica que a ideologia, menos homogênea que hegemonia, menos centrada que o cidadão, mais coletiva que ‘o sujeito’, mais psíquica do que a civilidade, mais híbrida na articulação de diferenças e identificações culturais do que pode ser representado em qualquer estruturação hierárquica ou binária do antagonismo social”.

 

Outsiders Radicais

Em seus estudos sobre os sistemas de normas de dominação e as relações de poder entre grupos sociais endógenos e exógenos de uma determinada comunidade do interior, Norbert Elias[10] lembra  que só se constrói o “nós” quando se tem o “outro” como referência. Para o autor, um grupo precisa ter o outro como inimigo ou contraposição para que seja possível a coesão interna, assim como para a localização cultural e da identidade do sujeito coletivo, aquilo que ele define por “imagens de nós”. Elias denomina os endógenos de “estabelecidos” e os exógenos de “outsiders”. Seu trabalho ajuda a analisar como um grupo de guerrilheiros, a maior parte jovens universitários paulistas, embevecidos por uma “fantasia coletiva”, ainda segundo os termos de Elias, emprenhados da sagrada chama da convicção de que conseguiriam desencadear uma guerra popular revolucionária que mudaria a história do Brasil, chegaram à região do Araguaia e passaram a se relacionar com uma população estabelecida, 20 mil camponeses, posseiros e aventureiros solitários, isolados do establishment pelas privações da selva e pela amnésia do tempo. Foi um choque. Cultural, econômico e, principalmente, de valores. Vejamos, abaixo, por quê. Quando chegaram os militares contra-revolucionários, outro choque. Outsiders versus outsiders –e os estabelecidos, a tudo assistindo, impotentes, no meio do tiroteio.

 

Dina chegou ao Araguaia em 1970, junto com o seu primeiro companheiro, Antônio Carlos Monteiro Teixeira, o Antônio. Meses depois se separaram. Um segundo companheiro passou por sua vida, Gilberto Olímpio Maria, o Pedro Gil. Durante a guerrilha foram constituídos ao todo nove casais –e Dina assistiu de perto à morte de seus dois companheiros. A guerrilha teve início em 1966, quando o primeiro grupo de guerrilheiros chegou à região, uma área um pouco maior do que o Distrito Federal. No total, exatos 69 guerrilheiros. Em oito anos de ação, cooptaram mais 17 camponeses para a causa. Os guerrilheiros foram organizados em três destacamentos. Por questão de segurança, pouco sabiam uns sobre os outros. Dina foi designada para o Destacamento C, comandado pelo mais experiente dentre os guerrilheiros, Oswaldão. O grupo atuava nas imediações de Xambioá. Em 1973, ela foi promovida pela Comissão Militar como subcomandante do seu destacamento. Esse cargo desempenhava a função de “Comissário Político do Povo”.

Descoberta no início de 1972, a guerrilha foi dizimada em dois anos. As forças do governo utilizaram contingentes do Exército e da Aeronáutica no combate direto. Marinha, Polícia Federal e polícias militares de três Estados[11] também foram mobilizadas no apoio. No total, teriam sido empregados 3.200 militares. Há consenso entre os dois lados envolvidos, PC do B e Forças Armadas, em dividir a guerrilha em três fases distintas. Na primeira, iniciada em abril 1972, as forças oficiais promoveram uma grande manobra de reconhecimento, integrada basicamente por conscritos (recrutas temporários, de 18 anos), na qual quase tudo deu errado. Foram embora em um mês e os guerrilheiros comemoraram a vitória. Nessa fase, 13 guerrilheiros morreram[12] e sete foram presos[13]. Também morreram dois recrutas e três moradores da região, nenhum deles em combate –teriam sido executados pelos guerrilheiros, acusados de colaborar com o governo[14].

 

Na segunda fase, as Forças Armadas promoveram operações de reconhecimento da região, de infiltração de agentes e de assistência à população. Infiltraram cabos e sargentos de carreira, caboclos, cafusos e mamelucos, gente egressa das camadas populares da sociedade, muitos deles, conhecedores dos traquejos dos “estabelecidos” da região –ainda utilizando a terminologia de Elias. A Rádio Tirana, da Albânia, transmitia noticiário em português narrando a vitória das “forças populares”. Em Paris, militantes do partido, outsiders radicais, davam entrevista informando que os guerrilheiros teriam conquistado um território do tamanho da Bélgica. Até esse ponto, os fatos teriam ocorrido dentro de uma normalidade relativa –se é que uma guerra fratricida pode ser considerada normal—registrando-se somente eventuais excessos de ambos os lados, como prisões arbitrárias por parte dos militares, ou a execução de camponeses suspeitos de colaboração com o governo, por parte dos guerrilheiros.

 

A terceira fase, iniciada em outubro de 1973, definiu o destino do episódio. Um pequeno grupo de tropas especiais do Exército e da Aeronáutica entraram na selva, em trajes civis, com a única missão de extirpar os guerrilheiros, com máxima violência e precisão cirúrgica. Foi nesse período, de quase um ano, que teriam ocorrido violações sistemáticas dos Direitos Humanos e à Convenção de Genebra, com tortura, decapitações e execução sumária de prisioneiros. Foram mortos 47 guerrilheiros –e só dois conseguiram voltar com vida para contar parte da história[15]. O primeiro tombou a 13 de outubro de 1973[16] e o último a 22 de setembro de 1974[17]. No Natal de 1973 caiu Pedro Gil, companheiro de Dina, e o comandante Maurício Grabois. Ela escapou com vida do cerco dos pára-quedistas para ser presa duas semanas depois. Teria sido a única a permanecer por meses nas mãos dos militares antes de ser executada. Descreve Élio Gaspari:

“A tropa desceu na floresta com a diretriz de não fazer prisioneiros e prisioneiros não fez. (Pouparam-se inúmeras crianças e adolescentes que acompanhavam a guerrilha). Em três meses a ‘guerra popular’ estava acabada e em menos de um ano, morto o último guerrilheiro (…). Para os comandantes militares da época a guerrilha não existiu. Nada do que lá sucedeu é oficialmente reconhecido. Essa prepotência deu ao PC do B o monopólio do patrimônio histórico da guerrilha[18]”.

 

Fetiche Extremista         

Quando escrevia A Era dos Extremos[19], no início da década de 1990, o historiador egípcio Eric Hobsbawn pediu ao filósofo teuto-britânico Isaiah Berlin que lhe apresentasse um olhar panorâmico sobre o Século XX. Berlin, que viveu a maior parte do século, disse: Lembro-o apenas como o século mais terrível da história”. A idéia central de Hobsbawn expressa nessa obra é a de que o Século XX teria sido um dos mais curtos da história. Teria começado em 1914, com a Primeira Guerra –que assinalou o colapso da civilização ocidental construída pela Revolução Industrial, uma civilização capitalista, liberal e burguesa— e terminado na virada das décadas de 1980-1990, marcado pelo colapso do bloco soviético.

“O mundo que se esfacelou ba década de 1980 foi o mundo formado pelo impacto da Revolução Russa de 1917. Fomos todos marcados por ela, na medida em que nos habituamos a pensar na moderna economia industrial em termos de opostos binários, ‘capitalismo’ e ‘socialismo, como alternativas mutuamente excludentes. (…) Agora já deve estar ficando evidente que essa oposição era uma construção arbitrária e em certa medida artificial, que só pode ser entendida como parte de um determinado contexto histórico”[20].

Esse breve Século XX teria sido a “Era da Catástrofe” produzida pelo próprio homem, nas palavras de Hobsbawn, edificado sobre incertezas, extremos e crises. Matavam-se mais seres humanos do que em qualquer outra época. Durante o período histórico da Guerra Fria, os conflitos ideológicos entre marxistas e as Forças Armadas na América Latina teriam provocado 150 mil mortos, principalmente em Cuba, Argentina, Peru e Chile, pela ordem[21].  Hobsbawn ignora quase completamente a existência de conflitos armados no Brasil. Em 596 páginas sobre o tema, dedica exatas quatro linhas sobre o Brasil:

“As pequenas tentativas de guerrilha de fins da década que proporcionaram uma desculpa para a implacável repressão do regime, jamais representaram um verdadeiro desafio a ele; mas pode-se dizer que após o início da década de 1970 o regime come;ou a relaxar e devolveu o país a um governo civil em 1985[22]” .

 

Os chamados Anos de Chumbo no Brasil produziram um pouco mais de 400 mortos ou desaparecidos, somadas tanto as vítimas da repressão militar quando as vítimas das guerrilhas de esquerda. Podem parecer números insignificantes se comparados aos da Europa, da Ásia –ou mesmo aos da Argentina e Chile. Nesse contexto, a Guerrilha do Araguaia, com seus 80 mortos, representa o último conflito ideológico no Brasil e onde ocorreu a maior mobilização militar desde a Segunda Guerra Mundial. A questão que se coloca é como analisar esse conflito em termos historiográficos. Como compreender, principalmente, aquilo que Chartier define como representações de um sistema de crenças e valores compartilhados pelos figurantes de uma época, seja na condição de revolucionário, seja na de militar contra-revolucionário.

 

Fazer referências ao tema “revolução” nos remete, necessariamente, à Revolução Francesa e ao imaginário Ocidental produzido a partir da queda da Bastilha do posterior regime de terror instaurado pelos jacobinos. Baczko[23] refere-se aos acontecimentos do dia 14 de julho de 1989 como dotados de enorme carga imaginária, que terminaram por se refletir na construção do mito revolucionário, presente como um fetiche, ao longo dos séculos XIX e XX. Mas o que teria ocorrido de tão extraordinário nessa data, 14 de Julho? Afinal, sabemos que as revoltas populares que desencadearam na queda do Ancien Régime tiveram início meses antes, que a invasão da Bastilha, a 14 de julho, foi mais um de uma série de acontecimentos importantes, e que os eventos revolucionários prosseguiram pelos anos subseqüentes, incessantemente, até a ascensão de Bonaparte. Baczko lembra que o acontecimento bruto de 14 de Julho transformou-se, imediatamente, no signo de uma coisa diferente do acontecimento em si mesmo. A tomada da Bastilha, escreve Baczko, torna-se obrigatoriamente o “objeto de um olhar e de um discurso que procuram atribuir um sentido totalizante à sucessão de acontecimentos e a seus múltiplos atores”.

“Foi assim que a velha fortaleza, já rodeada de rancores e mitos, se tornou o símbolo por excelência do arbitrário e de tudo quanto o Ancien Régime tinha de arcaico, ultrapassado e injusto. (…) Foi o dia em que tudo se tornou possível, como o símbolo privilegiado de uma ruptura temporal, momento único em que início e realização coincidem num só tempo. (…) O 14 de Julho tornara-se assim a matriz de uma jornada revolucionária, do mesmo modo que a Bastilha se tornou o símbolo de todas as outras Bastilhas que a liberdade tem constantemente que tomar de assalto”[24] .

 

Lembra ainda o autor que uma verdadeira guerra de símbolos ocorreu no verão e no outono de 1789, em torno das insígnas tricolor de Versalhes e dos barretes frígios da Liberdade. Essa guerra de símbolos atingiu seu ápice durante o regime do terror dos jacobinos. Chegou-se a introduzir calendário revolucionário, situando o ponto zero a partir do qual começa a Nova Era, 22 de setembro de 1792, data da Proclamação da República –curiosamente, foi a data de 14 de Julho que terminou por prevalecer no imaginário universal. Enfim, aqueles tumultuados anos significaram o nascimento de uma série de novos rituais que representassem a utopia revolucionária e a promessa de uma comunidade fraterna de homens iguais. Mais do que isso, essa o domínio do imaginário utópico passou a ter uma relação intrínseca com violência, a prática de se lavar o passado com o sangue dos adversários, o resgate da honra social no fio da guilhotina. Eis Mirabeau:

“Não basta mostrar ao homem a verdade: a questão capital é leva-lo a apaixonar-se por ela; não basta servi-lo nas suas exigências primárias, se não nos apoderamos da sua imaginação”[25].

 

Encontramos em Castoriadis[26] curioso exemplo do simbolismo revolucionário, a crença na necessidade de se instituir novos rituais que representem a utopia, quando da instauração dos “Sovietes dos Comissários do Povo”  pelos comunistas russos. Lembra o autor que Trotsky relata em sua autobiografia que, quando os bolchevistas tomaram o poder e formaram o governo, foi preciso encontrar um nome para o mesmo. A designação “ministros” e “Conselho dos Ministros” não agradava Lênin, pois lembrava os congêneres burgueses e seu modo de desempenhar as funções. Foi Trotsky quem propôs o termo “comissários do povo”. Lênin ficou encantado com a idéia, achou a expressão “terrivelmente revolucionária”. E foi essa terminologia que prevaleceu. Castoriadis:

“Criava-se uma nova linguagem e, acreditava-se, novas instituições. Mas até que ponto tudo isso era novo? O nome era novo; e existia, em tendência pelo menos, um novo conteúdo social a exprimir: os Sovietes lá estavam, e era de acordo com a sua maioria que os bolchevistas haviam tomado o poder. Mas no nível intermediário que iria revelar-se decisivo, o da instituição em sua natureza simbólica em segundo grau, a encarnação do poder num colégio fechado, inamovível, cume de um aparelho administrativo distinto dos administrados –nesse nível, ficava-se de fato nos ministros, tomava-se a forma já criada pelos reis da Europa Ocidental desde o fim da Idade Média.[27]

 

Os antropólogos e sociólogos, os historiadores e os psicólogos começaram a reconhecer, senão a descobrir, “as funções múltiplas e complexas que competem ao imaginário na vida coletiva e, em especial, no exercício do poder”, escreve Baczko. As ciências humanas punham em destaque o fato de qualquer poder, designadamente o poder político, se rodear de representações coletivas. Ressalte-se, ainda, a importância que a palavra revolução adquiriu no imaginário ocidental, a conotação de panacéia para todos os males sociais, o abracadabra da justiça e da prosperidade dos homens.

 

 Nietzsche e a Idéia da Auto-Ilusão

O Tribunal Revolucionário talvez tenha sido a principal representação do furor extremista dos guerrilheiros do Araguaia, instrumento de auto-afirmação radical. Tratava-se do poder de julgar adversários, camponeses e até mesmo os próprios companheiros, de acordo com os paradigmas que da nova sociedade igualitária. Julgá-los segundo as regras da revolução em curso, muitas vezes sem direito à defesa, e executá-los sumariamente, como teriam feito o cidadão Robespierre e os camaradas Lênin e Stalin. Sentir-se-iam, nossos bravos guerrilheiros, encarnação do novo-homem de Lênin, os super-homens do socialismo, os sobre-humanos de Nietzsche[28]? De acordo com Nietzsche, a forma mais destrutiva de ilusionismo é a que transforma uma imagem num conceito e depois congela a imaginação dentro dos limites estabelecidos pelo conceito. O poder dinâmico de produzir imagens é um dom, assegura o filósofo, semelhante ao dos deuses helênicos Apolo e Dionísio, que é, por conseguinte, uma síntese viva de forma e movimento, estrutura e processo. Felizmente, prosseguiu Nietzsche, o homem possui a faculdade de esquecer o que sabe. Coube a Hidden Write[29] a árida tarefa de analisar as teorias sobre o imaginário encontradas ao longo da obra do filósofo alemão. É White quem explica:

“Mais do que esquecer o que sabe, o homem tem uma aptidão para negar o que sabe; conta com uma capacidade de sonhar, de se deleitar nas imagens, e de revestir o terror, a dor e o sofrimento causados pela consciência de sua finitude com sugestões oníricas de imortalidade. (…) Ela pode embruxar-se, evadir-se para o interior de uma metáfora, oferecer uma ordem e uma forma críveis à sua vida, agir como se a metáfora fosse a verdade, e converter a consciência de sua iminente destruição numa ocasião de afirmação heróica”[30].

 

Nietzsche explicaria o ato da guerrilheira Dina, qual Joana D’Arc, reeditando o paradoxo Robespierre, de pedir para morrer de frente, já que iria mesmo morrer? Vejamos um outro episódio protagonizado pela mesma personagem, segundo o relata dos militares, no Dossiê Araguaia. Em meados de 1973, quando os guerrilheiros se acreditavam vitoriosos, um grupo liderado por Dina abordou dois camponeses. Na verdade, eram dois agentes do Exército, recrutados entre os posseiros da região. Eis o relatório dos militares:

“Disseram que iriam matá-los, pois sabiam que eram ‘apoio da tropa’. Os posseiros retrucaram que não conheciam ninguém da tropa e que eram pessoas humildes e trabalhadoras. Dina, no entanto, insistiu que iria matá-los caso não se declarassem ligados à tropa. Os posseiros mantiveram suas negativas. Dina, incontinente, encostou o cano de sua arma na cabeça de um dos posseiros e repetiu a pergunta, dizendo que era a última vez, novamente obtendo resposta negativa. Dina, então, acionou o gatilho, mas, como ela sabia, a arma estava desmuniciada. O agente, posteriormente, revelou que após Dina  haver acionado o gatilho, sentiu-se morto. Após o ocorrido, a guerrilheira Dina, a mais temida pela população local, fez ver aos posseiros que os considerava gente boa. Após isso, por diversas vezes, a guerrilha utilizou a posse para abastecer-se. O outro posseiro, que assistiu à quase morte de seu companheiro, teve que ser retirado da área por ter ficado psicologicamente abalado, e o quase morto permaneceu no local, sozinho, até o final da operação”.

 

Ainda o relato dos militares:

“Em outro local, um dos agentes adquiriu tal grau de confiabilidade da liderança guerrilheira local que esta, desconfiada de que alguém no local passava informações para a tropa, matou seu próprio compadre, companheiro de todas as horas, na presença do agente. (…) deve ser destacado também o agente que decidiu tornar-se ‘terecoseiro’ (benzedor). Ele, com freqüência, era procurado por grupos de guerrilheiros, em busca de suas bênçãos e rezas”.

 

Em “Nascimento da Tragédia”, ainda de acordo com a interpretação de White, Nietzsche caracterizou essa aptidão inconfundivelmente humana para a auto-ilusão numa brilhante inversão de figuras que faz lembrar a metáfora do sol no início da Filosofia da História de Hegel:

“Depois de uma vigorosa tentativa de fitarmos o sol, e tão logo desviamos a vista, temos, quase como um remédio, pontos escuros diante dos nossos olhos. Inversamente, as imagens luminosas dos heróis sofoclianos –aquelas máscaras apolíneas—são as produções necessárias de uma visão profunda do horror da natureza; pontos brilhantes, por assim dizer, destinados a curar um olho ferido pela treva insondável”[31]

 

Imaginário Jacobino

Como se constrói a dinâmica social? Como se estabelece os vínculos sociais baseados em critérios absolutamente abstratos, sem qualquer funcionalidade, como, acreditamos, tenham ocorrido entre os três grupos sociais que protagonizaram a Guerrilha do Araguaia? Michael Maffesoli[32] defende o princípio de que o historiador deva dar ênfase não nas pessoas, mas nas idéias, pois são elas que encontram permanência do tempo. Ele tira a análise do eixo marxista de se pensar a sociedade como o fazer dentro da materialidade. Maffesoli encontra inspiração no pensamento de Durkhein, autor original do conceito de que a sociedade seria algo que transcende o individuo, que é formada por idéias, por um mínimo de consenso que gera coesão social e unidade ficcional, mesmo com a imperfeições da pulsão dos desejos egressos da diversidade.

 

O eixo fundamental do pensamento de Maffesoli é a idéia do tempo presente, o que ele denomina “presenteísmo”: livra-se do presente quando se vive em contraposição com o passado ou com o futuro. Ou seja, quando se vive o sonho, a utopia, a terra prometida. É o instinto de conservação de um determinado sujeito social, explica Maffesoli, que provoca a sinergia coletiva. Cria-se uma potência voltada para a agressividade. Na pós-modernidade, essa potência encontra sua forma não necessariamente violenta, mas uma maneira suave, talvez lúdica, muitas vezes pelo uso da ironia corrosiva, de desencadear mudanças políticas. É essa potência popular que vai dar o ritmo da mudança. Na Guerrilha do Araguaia, contudo, não há qualquer sinal de que tenha havido espaço para a diversidade, para qualquer forma de “pulsão dos desejos” que não fosse, somente e tão-somente, encontrar a sinergia coletiva através da revolução violenta e radical.

 

Maurício Grabois, o Velho Mário, relata em seu diário o “regime de terror” implantado na região pelos próprios guerrilheiros, depois que as tropas regulares do Exército se retiraram do Araguaia, em meados de 1972. Ressalte-se que as Forças Armadas afastaram da área somente os recrutas fardados, mas introduziram agentes com roupas civis a fim de levantar informações sobre os guerrilheiros e preparar a ação final de extirpação do movimento, dessa vez com tropas especiais de elite. Nesse ínterim, acreditando que haviam vencido o governo e que a revolução já estaria em curso, os guerrilheiros instauraram um Tribunal Revolucionário permanente para capturar e julgar os supostos inimigos e traidores. Nos registros de Grabois, misturam-se informações sobre o cotidiano da guerrilha e sobre o imaginário jacobino. Abaixo, as transcrições de duas execuções praticadas e de dois casos no qual o “justiçamento” não foi efetivado:

“01/03/73 – Ao anoitecer chegaram Jô e Zezinho. Com eles um jabuti, grande número de bananas da terra e mais de uma lata de milho. No DA[33] tudo corre bem, sem maiores novidades. O grupo que saiu para liquidar o bate-pau, não o executou. Depois de tomar a sua casa de assalto, prendeu-o e interrogou-o. Ele  deu uma série de explicações e, de joelhos, pediu perdão. Disse que foi iludido e não mais serviria aos soldados. Comprometeu-se a pagar o porco e o rifle de Pedro Carretel. O bate-pau a ser justiçado não causara danos de importância às FF GG[34]. Não é dos mais raivosos. Por isso, a solução política, dada ao caso, talvez tenha sido a melhor. Acresce que a casa do canalha, na ocasião, estava cheia de camponeses”.

 

“26/03/73 – No entardecer do dia 23, Nelson e Zezinho chegaram ao acampamento. Traziam quase duas quartas de farinha e uma boa notícia sobre a atividade do DB[35]. Essa unidade das FF GG tinha realizado uma operação militar contra a casa em que estavam morando alguns pistoleiros do capitão Olinto, que realiza extensa grilagem na região. O chefe dos jagunços era um bandido famoso, Pedro Mineiro, homem de confiança do capitão, que representa o Capingo. A ação se verificou às 6 horas da manhã do dia 12. (…) Na casa só se encontravam dois pistoleiros: o Pedro Mineiro e um piauiense jovem. Tomados de surpresa, não ofereceram qualquer resistência. Logo pediram clemência. Presos e amarrados, foram submetidos a um cerrado interrogatório. O piauiense era elemento novo no bando do capitão Olinto, mas o Pedro Mineiro era o chefe dos pistoleiros e tinha sobre as costas a responsabilidade de vários crimes de morte perpetrados contra peões e camponeses. Submetido a julgamento pelo Tribunal Revolucionário, foi condenado à morte e imediatamente fuzilado”.

 

“12/05/73 – Dois grupos do D[36], ao todo 12, tomaram a casa de assalto. Nemer, este o nome do canalha, estava bastante atemorizado. (…) Em seguida, Dina falou aos peões, explicando os motivos de nossa luta e expondo nosso programa. Expressou-se com ódio e entusiasmo. Depois acusou-se o Paulista. Disto se ocuparam Pe e Dina. O fazendeiro se defendeu, negando parte da acusação, e lançou toda culpa no Exército, que chamou de ‘exército de cachorros. O C do DC foi magnânimo em relação ao acusado. Advertiu-o para que não incidisse em outros crimes. As contas estavam ajustadas. Foi correta a decisão de não executar o Nemer, se olharmos do ponto de vista político. Ele não é grileiro, mas é odiado pelo povo. É muito relacionado em São Geraldo e Xambioá e seu fuzilamento poderia repercutir mal entre a massa. Vamos ver como se comportará de agora em diante”.

 

”14/07/73- “Outro grupo do D liquidou o Osmar. Na ação só intervieram dois combatentes. Esse indivíduo, velho conhecido do Osv[37] e seu grande admirador, era excelente mariscador e exímio conhecedor da mata. No ano passado, por volta do mês de julho, o DB[38] esteve com ele, sendo recebido com entusiasmo e apoio material. O jovem mateiro prontificou-se a ajudar no mais que pudesse e chegou a dizer que ingressaria nas FF GG. Quando nossos combatentes, depois da campanha do Exército, de setembro-outubro de 1972, voltaram à área da Palestina, Osmar mudara de atitude. Em sua casa acamparam 180 pára-quedistas da Guanabara. Tornara-se amigo do capitão e serviu de guia para os soldados, recebendo 25 cruzeiros por dia e comida. Vestiu o uniforme de camuflagem (chitão, como o chama a massa), mas não recebeu armas. Andou pela mata durante 12 dias. No entanto, disse ao Osv. que fora obrigado a isso e que continuava amigo. (…) Era evidente que estava fazendo jogo duplo, mostrando ser uma pessoa sem caráter. Mas o C do DB deixou-o em paz depois de explicar-lhe o erro que cometera. Esperava que se corrigisse. Agora, voltando novamente à mesma área, o D soube, por informação da massa, que ele estivera em Marabá e que fora engajado no Exército por 4 anos, talvez como guia. Estava com dinheiro e fazia derrotismo contra a guerrilha. A um camponês, que fornecia aos guerrilheiros, concitou a abandonar a tarefa e ofereceu-lhe dinheiro para abrir um pequeno comércio. O homem representa, assim, um perigo. Conhecia a selva como a palma da mão. O jeito mesmo era acabar com ele”.

 

O Bem e O Mal na Revolução

Quando escreveu “Origens do Totalitarismo”[39], ao final da Segunda Guerra, Hannah Arendt ousou traçar um paralelo entre o Nazismo e o Stalinismo, considerando que ambos seriam muito semelhantes por conta das práticas totalitárias. Alemã e judia, dedicou-se muito mais a estudar a ascensão de Hitler, mas também arranhou com bastante eficiência a imagem do grupo político que tomou de assalto o estado soviético em nome da utopia igualitarista. Traçar  comparações e paralelos entre os dois regimes foi considerado atitude espúria pela esquerda na ocasião.

 

Naquela época, a União Soviética e Joseph Stalin ainda eram tratados com fervor religioso pelos seguidores do socialismo. Os marxistas argumentavam que o termo “totalitário” seria inscrito no contexto de guerra fria e que seu uso seria unia tática do capitalismo liberal para tentar desmoralizar o socialismo real e a ditadura do proletariado. Mais tarde, nos anos 1970, pensadores do quilate de Giovani Sartori e Raymond Aron chegaram a decretar o totalitarismo como um acidente histórico já superado[40] –contudo, os acontecimentos posteriores, como o nacionalismo balcânico e o fundamentalismo islâmico, comprovaram ser essa corrente excessivamente otimista.

 

Arendt começou a se interessar pelo tema em 1947, chocada que estava com os acontecimentos políticos da época, com os horrores da guerra e do holocausto. Tentava encontrar explicações filosóficas para compreender o fenômeno totalitário. Naquela ocasião encontrou em Kant o conceito de Mal Radical. Mais tarde, em 1963, quando foi contratada pela revista The New Yorker para cobrir como jornalista o julgamento de Adolf Eichmann[41], em Jerusalém, sua reflexão acerca do fenômeno da violência e do totalitarismo.

 

Ela esperava encontrar, no mínimo, um homem perverso, um monstro, um exemplar de malignidade humana, como fazia acreditar a imprensa na época. Ficou surpresa ao encontrar um homem comum, que podia ser caracterizado como tendo apenas um “vazio de pensamento”. Concluiu que o acusado não seria um monstro, mas um “homem com extremo grau de heteronomia”[42]. Ou seja, um pacato servidor público disposto a não pensar, a não elaborar, disposto somente a cumprir ordens, a qualquer preço, custe o que custar. Enfim, um indivíduo que era um produto típico do estado totalitário.

 

Foi, então, que Arendt passou a encarar o problema do Mal dentro da sua dimensão política, numa visão original que é da sua banalidade. Ainda, de acordo com a visão de Hannah Arendt, as instituições públicas dos regimes totalitários dariam aos seus agentes o sentimento de embriaguez, de servir as forças superiores e aos vastos desígnios nos quais eles não são eles mesmos, mas apenas instrumentos tão dóceis como irresponsáveis. Foi essa “política infantil” que levou arianos “eleitos” a produzir massacres administrativos em Treblinka e Sobidor.

 

Quanto aos Tribunais Revolucionários do Araguaia, o que diria Arendt a respeito da valente subcomandante Dina e de nossos demais revolucionários, os “eleitos”, cavaleiros andantes, nobres hussardos, que se auto-incumbiram dos vastos desígnos de limpar o solo pátrio dos ímpios capitalistas a fim de semear a justiça social universal através da ditadura do proletariado? Será que Dina alguma vez questionou, com a necessária profundidade, os conceitos sobre o que vem ser a ser o Bem e o Mal?

 

Da mesma forma, faríamos considerações similares respeito dos garbosos militares, membros dos órgãos de segurança e repressão, os “eleitos”, que embriagados pelo sentimento de servir a forças superiores, aceitaram a nobre missão de limpar o solo pátrio dos impuros comunistas, não importando o preço a pagar em vidas humanas. Supostos representantes de um Estado de Direito, executaram os adversários a sangue-frio e encomendaram cabeças –literalmente— fazendo uso de jagunços da região. E o que pensam os militares a respeito de representações como o Bem e o Mal?

 

Consta no “Dossiê Militar da Guerrilha do Araguaia”, fonte de consulta deste pesquisador, alguns trechos que revelam o imaginário dos militares que participaram do episódio. Revelam a existência de um pacto dentro da tropa para exterminar todos os guerrilheiros, sem fazer prisioneiros. Mostram, ainda, que o temor individual superava o dever funcional ou o ideário militar:

“Tudo isso significa que os guerrilheiros nunca tiveram em mente fazer prisioneiros. Os contra-rebeldes, isto é, os integrantes das Forças Armadas, seriam, seguramente julgados pelos tais Tribunais Revolucionários, considerados inimigos do povo  e justiçados”.

 

“Devemos recordar que uma das primeiras providências implantadas pelos que dirigiam a Guerrilha do Araguaia foi a de constituição de Tribunais Revolucionários, destinados a julgar  aqueles que eles definissem como inimigos do povo. Não apenas diversos inimigos do povo foram justiçados por esses Tribunais, mas também alguns companheiros guerrilheiros, acusados de vacilação”.

 

“Não custa repetir que a guerrilha é uma forma de guerra suja. Não obedece aos princípios definidos para a Guerra Convencional. Para ela, Convenção de Genebra não existe”.

 

“O “justiçamento”  de moradores e as mortes de militares, sem dúvida criaram um clima de forte sentimento de antagonismo na tropa e também em grande parte da população. O cabo Odílio Cruz Rosa, morto em 8 de maio de 1972, e um tenente e um sargento, feridos nesse mesmo dia, historicamente foram as primeiras vítimas da guerrilha. Esse sentimento de antagonismo foi agravado, tornado-se irreversível, devido aos ferimentos causados a quatro outros militares –dois tenentes, um sargento e um soldado– nos dias que se seguiram, e com a posterior morte do sargento Mário Ibrahim da Silva e possível morte do soldado Francisco Valdir de Paula”.

 

“Nesse contexto, e considerando que a guerra de guerrilhas é uma guerra suja, é pouco provável que a tropa, dentro da selva, compartimentada em pequenos grupos de combate, com grande descentralização e dispondo de autonomia operacional, adotando procedimentos não-convencionais, com seus homens descaracterizados e sob tensão permanente, estivesse disposta a facilitar ou a fazer prisioneiros”.

 

“Não pode ser descartada, também, a hipótese de que, a exemplo do que ocorreu em Israel, após o chamado Massacre de Munique, em 1972, os integrantes da tropa  contra-rebelde tenham feito um pacto de ‘matar os que mataram’”.

 

Conclusão: Contrato de Valores

Pelos documentos deixados pelos guerrilheiros, assim como pelos relatos militares obtidos por este pesquisador, somos levados a acreditar que uma ética singular teria prevalecido durante a Guerrilha do Araguaia. Seria um contrato de valores entre as partes, revolucionários e contra-revolucionários, no qual princípios básicos hoje hegemônicos e universais, como os Direitos Humanos, a Convenção de Genebra, o Estado de Direito, teriam sido submergidos no lamaçal de sangue produzido pelo jacobinismo recíproco.

 

Somos levados a acreditar que as representações e juízos dos sujeitos coletivos teriam sofrido deslocamento do campo dos valores. Desvios éticos, provocados por práticas de exceção, como o medo da Morte –muito mais do que o fervor utópico– experimentadas pelos sujeitos individuais. Tanto na guerrilha urbana brasileira, quanto na guerrilha rural do Araguaia, o que se viu nos Anos de Chumbo foi de uma violência espantosa.

 

Nenhum dos lados fazia prisioneiros e aqueles que fossem apanhados seriam sumariamente executados. Essa regra valia tanto para os militares quanto para os guerrilheiros; era clara e do conhecimento geral. Todo guerrilheiro urbano sabia, por exemplo, que se apanhado, seria torturado e que teria que resistir por exatas 48 horas, tempo necessário para que os companheiros pudessem fugir. Isso porque, a cada 48 horas, os militantes na clandestinidade faziam algum tipo de contado com um companheiro –chamava-se “ponto”. Depois dessas 48 horas iniciais, não seria mais necessário resistir à tortura, estavam liberados para contar tudo o que sabiam. Se preso em público, especialmente entre civis, provavelmente seria torturado, contudo,é quase certo que sobreviveria. Se preso sem testemunhas, provavelmente entraria para as estatísticas do desaparecidos.

 

Alfredo Sirkys,ao longo de toda a obra Os Carbonários[43], deixa explícita essa prática da violência recíproca. Ângelo Arroio deixou registrado em seu relatório que considerou “uma deficiência de certa importância o não justiçamento de determinados inimigos”[44]. Carlos Marighela[45] ensinava em seu “Minimanual do Guerrilheiro Urbano”:

“O que importa não é a identidade do cadáver, mas o seu impacto sobre o público. (…) O revolucionário deve ser uma fria máquina de matar. Matar com naturalidade, esta é a única razão de ser de um guerrilheiro”[46].

 

O capitão Carlos Lamarca[47], por exemplo, matou de próprio punho o guarda civil Orlando Silva Saraiva, durante assalto a banco em São Paulo, com um tiro na testa e outro na nuca. Depois, durante o treinamento guerrilheiro no Vale do Ribeira (SP), prendeu e determinou a execução de um tenente da PM[48], que teve a cabeça estourada com uma série de golpes de coronha de fuzil. Alfredo Sirkys relata detalhadamente o diálogo que manteve com Lamarca quando lhe cobrou a execução, em especial a forma desumana que foi realizada. “Era ele ou nós“, justificou Lamarca[49]. Mais tarde, relata Sirkys, o grupo sentiu necessidade de “legalizar” o fato “como um (duvidoso) ato da Justiça Revolucionária”, soltando o seguinte comunicado:

 “A sentença de morte de um Tribunal Revolucionário deve ser  cumprida  por  fuzilamento.  No  entanto,  nos encontrávamos próximos ao inimigo, dentro de um cerco que pôde ser executado em virtude da existência de muitas estradas na região. O Tenente Mendes foi condenado e morreu a coronhadas de fuzil, e assim o foi, sendo depois enterrado”.

 

            Mais uma vez, é Hannah Arendt quem nos faz questionar[50]:

“Será possível que o problema do bem e do mal,o problema de nossa faculdade para distinguir o que é certo do que é errado, esteja conectado com nossa faculdade de pensar? Será que a maldade – como quer que se defina esta – não é uma condição necessária para fazer-o-mal?” (…).

“Essas questões morais, que têm origem na experiência real e se chocam com a sabedoria de todas as épocas – não só com as várias respostas tradicionais que a ética, um ramo da filosofia, ofereceu para o problema do mal, mas também com as várias respostas muito mais amplas que a filosofia tem, prontas, para a questão menos urgente sobre ‘o que é o pensar?’ (…)

 

Eis a resposta de Arendt::

“O homem cria o sublime, mas, também, pode criar o monstruoso”.

 

 

 

 

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[1] SILVA, Eumano,  “A história do Exército que torturava, matava e cortava cabeças”, Correio Braziliense, Brasília, 08/11/2001, p.07.

[2] “Justiçamento” era o termo utilizado pela esquerda brasileira para caso de execuções dos próprios companheiros guerrilheiros acusados de traição; ou para a execução dos inimigos, os  militares e “imperialistas” em geral. Os “justiçamentos” teriam ocorridos tanto na guerrilha urbana, quanto na rural, Ao todo, as facções guerrilheiras brasileiras teriam cometido 15 “justiçamentos” sumários ao longo dos anos de chumbo, entre 1966 e 1976.

[3] O episódio é controvertido. O PC do B, em versão oficial, informa que Rosalindo teria morrido acidentalmente enquanto limpava a própria arma. Mas ele se encontra na lista dos desaparecidos políticos do Ministério da Justiça, cuja família reivindica indenização do Estado. O principal documento remanescente da guerrilha, o “Diário Velho Mário”, escrito por Maurício Grabois, principal comandante guerrilheiro, informa, sem entrar em detalhes, que Rosalindo foi executado pelos companheiros. A 28/11/2001, o jornal Correio Braziliense publica uma série de reportagens sobre a guerrilha, de autoria do jornalista Eumano Silva: “A história do Exército que torturava, matava e cortava cabeças”, p.7. O jornalista apresenta um camponês que teria testemunhado o episódio acima relatado.

[4] A identidade da fonte militar será resguardada até a publicação da pesquisa, objeto de dissertação de mestrado deste autor.

[5] CHARTIER, Roger. A História Cultural – Entre práticas e representações. Trad. Maria Manuela Galhardo. Rio de Janeiro : Bertrand Brasil; e Lisboa : Difel, 1990. Pág. 41.

[6] Ib. pág. 49.

[7] Ib.

[8] Arquivos militares a que este pesquisador teve acesso.

[9] BHABHA, Hommi. O Local da Cultura. Trad. Myriam Ávila, Eliana Lourenço L. Reis e Gláucia Renate Gonçalves. Belo Horizonte : UFMG, 2001.

[10] ELIAS, Norbert e SCOTSON L. John. Os Estabelecidos e os Outsiders – Sociologia das relações de poder a partir de uma pequena comunidade. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro : Zahar, 2000, 244 p.

[11] Pará, Mato Grosso e Goiás, hoje Tocantins.

[12] Há suspeitas de que quatro deles teriam sido executados depois de capturados.

[13] Entre eles, José Genoíno, mais tarde deputado federal pelo PT de São Paulo e um dos mais prestigiados políticos brasileiros.

[14] O comandante Maurício Grabois descreve em detalhes os “justiçamentos” em seu diário, apreendido pelas Forças Armadas.

[15] São eles: Ângelo Arroyo, morto em São Paulo, em 1976, e autor do único relato público sobre a terceira fase, o Relatório Arroyo; Micheas Gomes de Almeida, que permaneceu escondido em Goiás até 1997. Há um terceiro guerrilheiro que escapou da área com os dois primeiros, cuja identidade permanece desconhecida até a presente data.

[16] André Grabois, filho do comandante Maurício Grabois, o Velho Mário. Fontes: Relatório Arroyo e arquivos militares.

[17] Vandick Reidner Coqueiro, o João. Fonte: arquivos militares.

[18] GASPARI, Élio. Araguaia: a polêmica do surdo com o mudo. O Globo, Rio de Janeiro, 18/03/2001, p.17.

[19] HOBSBAWN, Eric. A Era dos Extremos : O breve século XX, São Paulo : Companhia das Letras, 2001, 2ª ed., 18ª imp., 598 p.

[20] Idem, pág. 14.

[21] Sobre isso, ver HOBSBAWN, op. Cit.; e PANNE, Jean-Lo, et al. O Livro Negro do Comunismo : Crimes, Terror e Repressão, São Paulo : Bertrand Brasil, 1999, 1ª ed.

[22] Op. Cit., pág. 429.

[23] BACZKO, Bronislaw. Imaginação Social. In Enciclopédia Einaudi, Vol V, Lisboa : Imprensa Nacional, Casa da Moeda, 1987.

[24] Idem, pág. 302.

[25] BACZKO, ib.

[26] CASTORIADIS, Cornelius. A Instituição Imaginária da Sociedade. Rio de Janeiro : Paz e Terra, 3ª ed., pág. 147.

[27] Ibid.

[28] Ubermensch, “sobre homem”, é o termo exato que foi utilizado pelo filósofo em sua polêmica idéia a respeito do “super homem”.

[29] WHITE, Hidden. Nietzsche – A defesa poética da história no modo metafórico. In “Meta História”, Hidden White. São Paulo : Edusp, 1995.

[30] Idem, pág. 360.

[31] Idem, pág. 355.

[32] MAFFESOLI, Michel. A Conquista do Presente. Trad. Márcia de Sá Cavalcante. Rio de Janeiro : Rocco, 1984.

[33] Abreviação de Destacamento A.

[34] Abreviação de Forças Guerrilheiras.

[35] Abreviação de Destacamento C, da subcomandante Dina.

[36] Abreviação de Destacamento. Em outro trecho do Diário refere-se como sendo o C.

[37] Provavelmente o guerrilheiro Oswaldão.

[38] Abreviação de Destacamento B.

[39] ARENDT, Hannah. Origens do Totalitarismo. Trad. Roberto Raposo. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

[40] SOUKI, Nádia. Hannah Arendt e a Banalidade do Mal. Belo Horizonte:  Editora UFMG, 1998. pág. 37.

[41] Eichemann era o funcionário público encarregado da questão judaica no regime nazista. Ao final da guerra, fugiu para a Argentina. Em 1961, o líder israelense David Ben Gurion mandou seqüestra-lo em Buenos  Aires e levou-o a julgamento em Jerusalém.

[42] SOUKI, Nádia. Op. cit., pág. 54.

[43] SIRKYS, Alfredo, Os Carbonários. 14ª ed. São Paulo: Record, 1998, pág. 384. O autor militou na VRP de Lamarca; depois foi exilado político. Em 1980, de volta ao Brasil, publicou uma das mais completas e honestas auto-críticas da esquerda, Os Carbonários. Mais tarde fundou e presidiu o Partido Verde, tornando-se vereador na cidade do Rio de Janeiro.

[44] PORTELA, Fernando. Guerra de Guerrilhas no Brasil – Informações novas. Documentos inéditos e na íntegra. São Paulo : Global, 1979, 2ª ed., 263 p.

[45] Fundador da Aliança Libertadora Nacional, ALN, e líder maior da guerrilha urbana nos anos 1960 e 1970 no Brasil

[46] MIR, Luís. A Revolução Impossível. São Paulo: Best SelIer, 1994, 1ª ed. 755 p.

[47] Oficial do Exército, o capitão Carlos Lamarca desertou em 1968, levando um carregamento de armas do quartel onde servia, para se tornar comandante da Vanguarda Popular Revolucionária, VPR. Tornou-se o mais popular guerrilheiro urbano brasileiro. Caçado pelo Exército, foi encontrado e executado no sertão da Bahia, em 1971.

[48] Alberto Mendes Jr.

[49] Op. cit., págs 333/335.

[50] SOUKI, Nádia, op. cit.

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