A morte com dignidade

Foram duas notícias no intervalo de minutos. O ator Paul Newman faleceu aos 83 anos. Gostava muito dele como ator, mas principalmente por conta de seu engajamento social e político. Um tio meu, Moacir Matos, também, aos 91. Era-me muito querido, um homem do bem, de quem vou sempre guardar boas lembranças. Estamos sempre sofrendo perdas. Por vezes de ícones, como Paul Newman; às vezes de entes próximos, como meu tio. Dias atrás tive que sacrificar meu cachorro Batu. Senti muito.

Que ninguém me agracie com lágrimas; que o pranto

  Não entristeça meus ritos funerais” — escreveu o poeta Cícero em De Senectute (Da Velhice)

 

A morte de Sócrates: “Devemos um galo a Esculápio”

Recentemente escrevi como gostaria que venha a ser minha morte. Curioso, usei de início a conjugação verbal no condicional, “gostaria que fosse”. Mas a morte é inevitável, a única certeza desta vida, ao lado dos impostos – rege o ditado. Então troquei pela conjugação correta, “venha a ser minha morte”.Encontrei um livro curioso numa livraria, “A Arte das Listas”, de Dominique Loreau (Bizâncio, Lisboa, 2008). O livro ensina a simplificar e organizar sua vida através do uso de listas racionais. Começa com as banais (mais sempre úteis) listas de compras, de coisas para eliminar ou de malas para grandes ou pequenas viagens. O livro evolui para listas que ajudam (e muito) a aprender a se conhecer melhor.

É a parte mais interessante, fazer listas que nos levam a olhar para dentro. Ela batizou de “monografia de si mesmo”. E propõe listas como “meus projetos de carreira”, “minhas qualidades”, “coisas que vou fazer”, “ou que não quero fazer”, “o que sou”, “os múltiplos papéis que desempenho na vida”, “a pessoa que eu queria ser espiritualmente”; “os bons livros que já li”, “lugares que vou conhecer”, “meus sonhos e desejos mais loucos”  – e vai adiante.

Então a autora propõe uma lista delicada, a da própria morte. Por que assusta tanto o tema da morte? É possível ser inteiramente feliz sem aceitar o fato de que morrer é algo natural, que acontecerá com todos nós?, indaga a autora. “Não se está vivo senão tendo uma consciência aguda da morte’, escreve Loreau.

Por fim, ela sugere 12 diferentes listas sobre o tema, como “o que existe depois da morte?”, “como quero passar meu último dia” e “meus planos para ter uma boa velhice”. Até agora só consegui encarar a lista de “como quero estar quando morrer”.

 

A DOR DA PERDA

O romano Sêneca legou uma idéia similar à da escritora – ainda que muito mais elaborada. Ela não se propõe ser erudita, mas apenas uma autora de auto-ajuda, que nos apresenta uma boa idéia. Segundo Sêneca, suportamos melhor as frustrações para quais nos preparamos e compreendemos. Por isso é comum que a morte de um pai idoso, num processo longo e natural, como câncer, derrame, senilidade e principalmente Alzheimer, pode ser para muitos até reconfortante.

Paul Newman há muito sofria de câncer. Em agosto, quando os médicos lhe deram apenas algumas semanas de vida, decidiu ele próprio deixar o hospital para morrer em casa, ao velho estilo, ao lado da mulher e, se possível, dos filhos. Já meu tio faleceu num hospital. Aos 91 anos, estava totalmente lúcido – o que é uma felicidade. Dirigia o próprio carro até meses atrás. Pegou uma pneumonia e foi internado. Passou três meses numa UTI. Seus órgãos foram falindo, um a um. Conversei com meu primo. Parecia conformado com a passagem do pai, quase sereno. Talvez preferisse que ele não tivesse sofrido tanto tempo numa UTI, talvez preferisse estar com o pai em casa, como a família de Paul Newman.

A morte de um idoso provoca dor, é claro. Para os que ficam é sempre uma grande perda. Contudo, não é comum gerar surpresa nem revolta. Já a morte de um filho jovem, sobretudo ser for acidente ou assassinado, costuma provocar grande indignação. Nesse caso, a dor costuma ser muito mais profunda. Há pais que se rebelam contra as autoridades da Terra. Por vezes, contra suas crenças espirituais. Se segundo Sêneca, somos atingidos pela dor por aquelas frustrações que menos esperamos e não conseguimos compreender.

 

A BOA MORTE

Quando escrevi a lista da minha morte, pensei primeiro em como não quero terminar; depois em como seria uma boa morte. Tenho exemplos muito tristes em minha família de entes queridos que faleceram de forma lenta e dolorosa. Assisti recentemente um filme emocionante, “O Escafandro e a Borboleta”, ainda em cartaz, que trata de um escritor em estado quase vegetal.

Não quero terminar vegetal. Ou senil, muito menos em vida artificial, sobrevivendo por aparelhos. Quero estar lúcido e com saúde suficiente para andar e tomar banho sozinho. De preferência, quero estar trabalhando, ou dirigindo (como meu tio), ou pelo menos com a mente ágil o suficiente para estar escrevendo. E estar na minha própria casa, vendo meus quadros, não em um frio quarto de hospital. E vou precisar possuir bens materiais suficientes para pagar um assistente ou um enfermeiro, se necessário. Gostaria de fazer a passagem cercado dos entes amados, como Paul Newman.

É óbvio que nenhum de nós tem como arbitrar a hora ou a forma da nossa morte. Essas decisões, acredito, cabem ao Destino, ao Desconhecido, a Deus – ou ao Ente Superior que cada um goste de acreditar. Tenho um ex-professor que acreditou ser possível enganar a morte. Grande astrólogo, muito conhecido em Brasília, ele teria o poder de prever sua hora. E teria previsto três momentos prováveis. Corre a lenda entre seus amigos que ele teria tomado providências astrais, três vezes, para permanecer mais tempo por aqui. Recentemente avistei-o. Deitado numa cama, não reconhece nem mesmo ele próprio. Eu preferia ter ido antes, naquela hora escolhida pelo Destino.

Contei a alguns amigos que havia feito a primeira lista da minha morte. Escutei em resposta dois casos de mortes gloriosas, deliciosas – que se Deus atender minhas preces, há de me conceder destino similar. Tanto faz um quanto outro.

O jornalista Octávio Costa relatou que seu pai tinha uma viagem programada para Nova York quando, repentinamente, decidiu passar férias no Piauí. Ninguém entendeu a troca. Ele alegou que há mais de 30 anos não via amigos e familiares deixados para trás e que deu vontade de reencontrá-los. Passou uma semanaem Teresina. Depoisfoi para uma praia. Estava sentado na areia, com um copo de uísque na mão, quando resolveu se molhar. Entrou na água com o copo na mão. Caiu ali mesmo, onde as ondas lambem a areia, com o uísque na mão. Que felicidade!

Meu primo, Osmar Frota, relatou a boa morte do próprio pai. Não era meu tio, não cheguei a conhecê-lo, mas minha mãe guarda lembranças muito divertidas do ex-cunhado. Era um boêmio. Tinha uma namorada, funcionária do Banco do Brasil, com quem se encontrava na hora do almoço em uma “garçonière”em Copacabana. Morreude infarto fulminante durante o ato amoroso. O filho foi chamado às pressas. Encontrou a bancária aos prantos, semi-nua, querendo se entregar à polícia. “Eu o matei, eu o matei”, dizia ela. Osmar a consolou. Encontrou o pai na cama, com um enorme sorriso de satisfação, como se estivesse chegado ao Paraíso — e o membro viril em estado de ereção total, apontando para o céu. Tinha uns 65 anos. Conta a lenda familiar que foi deitado no caixão com o melhor terno, mas sem cueca, para que os amigos pudessem testemunhar que morrera de forma épica.

 

DIGNIDADE NA HORA DA MORTE

Coube a Sócrates, sempre ele, o grande Sócrates, escrever com o próprio destino uma das mais belas páginas da história – e a grande lição do que venha a ser a dignidade na hora da morte. Ela já contava com cerca de 80 anos quando, em pleno século de ouro da Grécia, Aristófanes escreveu uma comédia sobre um filósofo, “Nas Nuvens”, um escracho contra o velho filósofo. Ato contínuo, um jovem discípulo de Sócrates, o filho do comerciante mais rico de Atenas, abandonou os negócios do pai para viver sem roupas e dentre de um barril.

Indignado, o pai levou Sócrates a julgamento, acusado de corromper a juventude com idéias que iam contra as leis e os costumes da cidade. Ao invés de se defender, Sócrates enfrenta a Assembléia e os jurados e acaba condenado à morte. Por conta de uma combinação de fatores, incluindo a peça de Aristófanes, o velho mestre estava com a reputação em baixa naqueles tempos. “O Julgamento de Sócrates”, de Platão, é uma das páginas céleres da Ciência Política.

Naquela Atenas era comum o povo votar leis para não serem cumpridas. Como aqui. Entre os hábitos, estava o de condenar cidadãos à morte como forma de advertência. O costume era que algum amigo subornasse a guarda para que o condenado fugisse – e depois, em outra votação, a Assembléia anistiaria o condenado. É igualmente célebre outro legado de Platão, “A Morte de Sócrates”, no qual os amigos procuram o filósofo comunicando que os guardas já haviam aceitado o suborno e que Atenas inteira aguardava por sua fuga.

E o que faz Sócrates? Ora, simplesmente se recusa a fugir. “A democracia se faz com respeito às leis”, diz ele, numa de suas frases mais conhecidas. E os amigos permanecem firmes, implorando que salvasse sua vida. O texto de Platão relatando a teimosia do mestre chega a ser hilariante. Sócrates quer porque quer morrer. Ao final, diante dos amigos aos prantos, toma um cálice de cicuta, deita-se e cruza as mãos na barriga, aguardando serenamente pelo grande momento.

Quando todos pensam que ele já havia feito a travessia para o Reino de Hades, eis que Sócrates se levanta repentinamente e diz aos presentes: “Devemos um galo a Esculápio”. Referia-se ao costume de sacrificar um galo em agradecimento ao deus da Medicina. Suprema ironia. Instantes depois ele dá o último suspiro. Seus biógrafos especulam que, se fosse Sócrates mais jovem, não teria usado a morte para se vingar dos detratores.

Cinco séculos depois o filósofo Marcus Sêneca repete o ato de Sócrates. Nero, de quem Sêneca fora preceptor, estava num surto de paranóia, mandando jogar aos leões todos os adversários e condenando ao suicídio os supostos descontentes. Acabou incluindo Sêneca em sua lista negra. Um dia um centurião chega à casa do filósofo com ordens do imperador para que se matasse. Ele tinha 69 anos e uma obra longa e acabada. Resigna-se de que chegar seu grande momento. A leal esposa pede para ir junto. Ele concorda, mas o centurião lhe amarra os pulsos – não queria uma mártir. Sêneca corta as veias dos tornozelos e atrás dos joelhos. Estava demorando muito a sangria. Então ele teve a idéia de pedir cicuta e repetir o ato de dignidade protagonizado por Sócrates.

 

EXISTE VIDA APÓS A MORTE?

É claro que encarar a morte com serenidade é bem mais fácil que acreditarmos na espiritualidade e na existência da alma, do que para quem acha que a vida é só matéria. Para os cardecistas, que têm um cotidiano ao lado de espíritos com nome e sobrenome, é ainda mais fácil do que para os católicos, que têm fé na vida eterna de uma alma diluída no Espírito Santo.

Publiquei recentemente uma crônica sobre o pensamento de Emanuel de Swedenborg a respeito da vida após a morte. Filósofo e teólogo sueco, ele passou os últimos 20 anos da sua existência acreditando que estava conversando com os espíritos, buscando relatos como seria a vida do outro lado. Segundo ele, a vida lá seria muito parecida com a vida aqui – só que muito mais intensa. Ele explica que se conseguirmos uma vida feliz aqui, seremos mais felizes ainda depois da morte. Mas se nossa vida for infeliz aqui, será pior ainda do outro lado, um verdadeiro inferno.

Recomendo a leitura desse texto sobre Swedenborg. Talvez seu pensamento nos ajude a começar a vivenciar, aqui e agora, uma rotina de alegrias que nos ajude a construir nossa boa morte – essa passagem que é, ao lado dos impostos, o único fato inexorável da vida.

Esta entrada foi publicada em Cronicas e marcada com a tag , , . Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *