A memória como metáfora

A partir dos pensamentos de Walter Benjamin e de Paul Ricoeur, compreendemos que mimesis é, em síntese, a reconstrução de experiências do passado no tempo presente –um exercício de re-memorar os acontecimentos e subtraí-los às contingências do tempo em uma metáfora. Exatamente como fez Proust quando em busca do tempo perdido…

por Hugo Studart

Walter Benjamin era filósofo, sociólogo, romanista, grafólogo, teórico da história, das artes e da tradução. Alemão e judeu, era um marxista que se recusava a se organizar em partidos. Era também usuário de haxixe. Por conta dessa heterodoxia, até hoje a maior parte das academias européias de Filosofia não considera sua obra digna de estar entre os cânones do pensamento moderno. Na América Latina, contudo, Benjamin tem sido considerado cada vez mais o “Filósofo das Vanguardas” por conta de sua tendência à ruptura e ao novo, sua rejeição ao dogmatismo e ao cientificismo das academias de seu tempo, por sua ousadia de “tentar inventar novas imagens para pensarmos nossos limites e fronteiras”[1], como também pelo seu método transdisiciplinar de pensar as Ciência Humanas, tendência da pós-modernidade, mas que Benjamin já a pregava e praticava nos anos 1930.

Sua Teoria da História e, sobretudo, sua visão teórica original sobre a memória, ou a mimesis, são pontos nevrálgicos da obra de Walter Benjamin. Ele foi crítico ácido e bem fundamentado do historicismo positivista do século XIX, o modelo modelo de escrita da História que privilegiava os documentos criados pelo aparato do Estado – e portanto, conservador também sob o ponto-de-vista político. Essencialmente, ele negou a possibilidade de uma História “tal como de fato aconteceu”, segundo o credo positivista, e propôs resgatar a memória como meio de nos relacionarmos com o passado. Para Benjamin, não existe a tal neutralidade científica; e todo conhecimento é um embate de interesses. O registro da memória, segundo o pensador, é mais aberto, aceita os testemunhos e as imagens (e não só a escrita burocrática), aceita inclusive a visão dos vencidos, nem se apega ao dogma científico das supostas neutralidades.

Benjamin encontrou na obra de Marcel Proust, de quem foi tradutor e leitor obsecado, os fundamentos da compreensão do conceito de mimesis e, por conseguinte, da História. Benjamin observou que Proust, em sua busca pelo tempo perdido[2], não se propôs a simplemente revelar suas memórias, nem o acontecido tal qual teria ocorrido. Mas sua proposta foi a de buscar analogias e semelhanças entre o passado e o presente, relembrar os acontecimentos e subtraí-los às contingências do tempo em uma metáfora. Concluiu Benjamin, no ensaio “A Imagem de Proust”:

“Pois o acontecido vivido é finito, ou pelo menos encerrado na esfera do vivido, ao passo que o acontecimento lembrado é sem limites, porque é apenas uma chave para tudo o que veio antes e depois (…). A eternidade que Proust nos faz vislumbrar não é a do tempo infinito, e sim do tempo entrecruzado. Seu verdadeiro interesse é consagrado ao fluxo de tempo sob sua forma mais real, e por isso mesmo mais entrecruzada, que se manifesta com clareza na reminiscência (internamente) e no envelhecimento externamente)[3].

Proust também mostrou a Benjamin que a memória é sempre seletiva na construção do passado, e que é também a partir do esquecimento –tema este que já havia sido abordado por Nietzsche– que os fatos abrigados pela memória são reconstruídos. Benjamin então buscou ampliar a visão sobre a mímesis. Ele distingue dois momentos principais da atividade mimética: não apenas reconhecer, mas produzir semelhanças. Ou seja, a memória conserva os traços gerais do acontecido, mas a imaginação modifica e amplia. Assim, lembrar não seria apenas reviver o passado, resgatá-lo tal qual ele foi – ou acredita-se que tenha sido. Mas seria a reconstrução das experiências passadas no tempo presente. Com a palavra, Gagnebin:

“A originalidade da teoria benjaminiana está em supor uma história da capacidade mimética. Em outras palavras, as semelhanças não existem em si, imutáveis e eternas, mas são descobertas e inventariadas pelo conhecimento humano de maneira diferente, de acordo com as épocas. (…) A sua tese principal é que a capacidade mimética humana não desapareceu em proveito de uma maneira de pensar abstrada e racional, mas se refugiou e se concentrou na linguagem e na escrita”[4].

 Meio século depois da morte de Benjamin[5], Paul Ricoeur procurou decifar o enigma da representação do passado na memória. Ele parte da idéia de que a memória é sempre seletiva; e o homem vive, em sua historicidade, uma incessante dialética entre a recordação e o esquecimento. Cada indivíduo participa, simultaneamente, de vários campos da memória, conforme a perspectiva que se coloca e a sua retrospecção.

Em sua última obra, A memória, a história e o esquecimento[6], Ricouer trata do mito e da mimesis. Para Ricouer, mimesis não significa cópia, mas construção linquística que vai compor um mundo. É metaforização, agenciamento dos fatos em construção metafórica. O importante para o historiador é não buscar compreender frases isoladas, mas o sentido geral, a totalidade da obra, participar desse universo ficcional através da mediação dessa totalidade.

Nesse sentido, a partir dos pensamentos de Benjamin e de Ricoeur, entendo que a memória é, em síntese, a reconstrução de experiências do passado no tempo presente. O historiador pode buscar reconstruir essas memórias diretamente nos escritos que os protagonistas de sua pesquisa deixaram, ou trabalhando com a reconstrução das lembranças que os sobreviventes trazem do passado para o presente.

Mas é preciso sempre estar atento ao sentido geral dos acontecimentos protagonizados pelos protagonistas, sem ter a pretensão de reconstruir os fatos do modo exato como se deram, ou de reproduzir exatamente o que pensavam ou criavam.

 


[1] Márcio Seligmann-Silva. A atualidade de Walter Benjamin e de Theodor W. Adorno. Rio de Janeiro:  Civilização Brasileira, 2009, pág 22.

[2] Refiro-me à obra-prima de Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido, de sete volumes (1913-1927, que Benjamin traduziu para o alemão.

[3]Walter Benjamin. Obras Escolhidas Vol. I – Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. 7a ed., São Paulo: Brasiliense, 1994.

[4] Jeanne-Marie Gagnebin. “Do Conceito de Mímesis no pensamento de Adorno e Benjamin”. In: PerspectivasRevista de Ciências Sociais, Vol. 13. São Paulo : Universidade Estadual Paulista, UNESP, 1993. Pág. 98.

[5] Faleceu em 1940. Sua morte ainda é envolta de mistério. A versão mais difundida é que teria cometido suicídio durante a tentativa de fuga da França ocupada pela Alemanha para a Espanha, através dos Pireneus, temendo ser entregue à Gestapo.

[6] Paul Ricouer. A memória, a história e o esquecimento. Campinas: Unicamp, 2010, 2ª reimpressão.

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