jul 10, 2014

A história secreta do acerto de contas (que nunca houve) entre Plínio e Dirceu

O deputado Plínio de Arruda Sampaio morreu, aos 83 anos, magoado com José Dirceu por conta do estranho “desaparecimento” de 4 milhões de dólares de sua campanha para governador de São Paulo. Coincidência ou não, o fato é que depois desse incidente tem início a déblâcle de Plínio dentro do PT e a espantosa ascensão de Dirceu na política nacional

Uma das máximas da política é que poder e liderança se constroem, principalmente, com dinheiro. Isto posto, narro abaixo uma história a qual só alguns membros da cúpula do PT e os mais íntimos de Plínio de Arruda Sampaio têm conhecimento:

Era fins de setembro de 1990, reta final da eleição para o governo do Estado de São Paulo, quando Plínio de Arruda Sampaio e José Dirceu protagonizaram um incidente que os afastaria um do outro para sempre e todo o sempre. Até então usufruíam da condição de grandes aliados políticos, mas também amigos. Plínio era o candidato a governador pelo Partido dos Trabalhadores; e José Dirceu, então deputado estadual, era candidato a deputado federal pela primeira vez. O primeiro, liderança nacional expressiva e consolidada; o outro, liderança estadual ainda em ascensão.

O PT, com apenas 10 anos de fundação, ainda um partido essencialmente ideológico, aliás, ícone da esquerda radical, que sobrevivia basicamente com as doações de seus próprios militantes, estava embalado com seus primeiros resultados políticos. Nas eleições de 1986, havia conseguido eleger sua liderança-símbolo, o metalúrgico Luís Inácio Lula da Silva, como o deputado federal Constituinte mais votado do Brasil. Nas eleições de 1988, uma aguerrida militante social paraibana, Luíza Erundina, havia surpreendido a todos conquistando a Prefeitura de São Paulo — venceu Paulo Maluf e José Serra. No ano seguinte, 1989, nas eleições diretas para a Presidência da República, Lula também havia surpreendido ao conseguir disputar o segundo turno com Fernando Collor de Mello — ultrapassando na reta final lideranças muito mais relevantes na ocasião, como o governador Leonel Brizola, o favorito do início até a reta final, o senador Mário Covas e o deputado Ulysses Guimarães, o Dr. Constituinte.

Foi assim que, no pleito seguinte, 1990, o PT convocou  Plínio para ser candidato do partido ao governo do Estado de São Paulo. Era “O Cara”, com uma história política tão longa quanto relevante.

Começou a vida em fins dos Anos 50 como militante da Juventude Universitária Católica. Logo seria eleito presidente da Ação Popular — grupo ligado à Igreja, de cujas costelas nasceram boa parte das organizações da luta armada ao regime militar. Havia sido eleito deputado federal em 1962. Naquelas priscas eras, ainda jovem, chegou a ser ungido com a relevante missão política de ser o relator, no Congresso Nacional, do Projeto de Reforma Agrária do governo de João Goulart. Depois que os militares tomaram o poder, Plínio seria um dos primeiros cassados, ainda em março de 1964 — fato que hoje soa como uma honra. Optou pelo auto-exílio, primeiro em Santiago do Chile, depois em Washington, EUA, período em que trabalhava na FAO, agência da ONU para alimentação. De volta ao Brasil em 1976, início da abertura, tornou-se professor da Fundação Getúlio Vargas, depois promotor público, liderança da campanha da Anistia, até se tornar um dos intelectuais fundadores do PT, em 1980. Era o principal representante da Igreja Católica no PT. Nas eleições para a Constituinte, em 1986, como já dito, foi o segundo mais votado do partido, atrás somente de Lula.

Por todas essas razões, a direção do PT convocou Plínio para a missão política de ser o candidato a governador. Missão, sim, pois ele tinha uma eleição garantida para deputado, mas ganhar o governo do Estado de São Paulo era quase impossível. O favorito era o ex-governador Paulo Maluf, seguido de perto do senador Mário Covas. Havia ainda um candidato quase desconhecido, o promotor Luiz Antônio Fleury, que havia sido secretário de Segurança do governador Orestes Quércia, que contava com a máquina política do governo. Fleury era um azarão; Plínio, nem tanto… No total, oito candidatos.

Quando a campanha chegou à reta final, Maluf estava na frente, como era de se esperar, seguido do azarão Fleury. Covas e Plínio disputavam o terceiro lugar, algo que não garantia uma vaga na final, o segundo turno, mas para os dois, cada voto era importante para consolidar seus respectivos partidos. Foi nesse contexto histórico e político que, na noite de 27 de setembro de 1990, uma noite de domingo, a cúpula do PT se reuniu na sede do partido, no bairro de Vila Mariana, para planejar a última semana da campanha. A eleição seria no domingo seguinte, 3 de outubro.

O clima era de velório. Não por causa dos votos, pois as últimas pesquisas apontavam para um desempenho do candidato petista. O problema era financeiro. Restara uma dívida milionária a ser quitada e não havia dinheiro em caixa. Nem para a última semana de campanha, nem ao menos para pagar o lanche da militância que iria fazer boca de urna. Todos preocupados, sem saber como resolver o problema. Curiosamente, o candidato Plínio mantinha-se sereno. E calado. Sempre matreiro, José Dirceu estranhou encontrar Plínio naquele estado. Então encostou no companheiro para tentar arrancar alguma informação relevante. Cutucou daqui e de lá, até que Plínio confidenciou-lhe um segredo.

Ele não estava preocupado com dinheiro porque no dia seguinte, já na manhã de segunda feira, Olacyr de Morais iria resolver o problema. Contou somente isso.

Olacyr de Morais era, simultaneamente, o maior plantador de soja do mundo, chamado “Rei da Soja”, e dono da Constran, uma das maiores empreiteiras do Brasil. Adorava a política — e precisava dela para movimentar suas obras. Tinha contratos federais, estaduais e, também, com a Prefeitura de São Paulo, ainda sob a administração da petista Erundina. Naquela época de inflação galopante, o dinheiro das grandes empresas estava (quase) todo no caixa dois. A política era essencialmente movimentada pelo caixa dois. E a moeda política era o dólar.

O jovem economista Plínio de Arruda Sampaio Jr., o Plininho, chegou por volta das 10 horas da manhã de segunda feira, 27 de setembro de 1990, no escritório de Olacyr, um suntuoso edifício no bairro do Itaim, localizado na avenida Presidente Juscelino Kubistchek, esquina com Marginal Pinheiros. Seu escritório era um dos mais bonitos da burguesia pátria, repleto de obras de arte. Ao ser anunciado pela secretária, Olacyr teria ido imediatamente a seu encontro — – relataria Plininho mais tarde ao pai. Surpreso, teria dito algo como:

– Mas o Zé Dirceu acabou de passar aqui para pegar o dinheiro.

Era uma mala contendo 4 milhões de dólares, em espécie, dinheiro vivo, verdinhas, nota sobre nota. Daria para pagar todas as dívidas da campanha e ainda proporcionar uma injeção de ânimo na reta final. Com alguma sorte e muita competência, aquela quantia poderia até mesmo levar o candidato do PT ao segundo turno contra Maluf — e quem chegasse ao segundo turno, provavelmente venceria, dada a alta taxa de rejeição do ex-governador, como de fato aconteceu.

À noite, durante a reunião da executiva, na sede do partido em Vila Mariana, Plínio acuou José Dirceu diante de um pequeno grupo de dirigentes. Ele negou ter pego os 4 milhões de dólares. Ou melhor: admitiu que esteve no escritório de Olacyr por volta das 9 da manhã para pegar uma doação. Mas teria sido um valor pequeno, apenas a doação referente à sua própria campanha.

“Fui pegar o meu dinheiro” — como na ocasião se expressou.

Na discussão, Dirceu engrossou com Plínio. E antes que chegassem à vias de fato, os dirigentes petistas preferiam fazer prevaler a versão de que Olacyr seria um capitalista cínico e mentiroso, que enganara Plínio, que inventara aquela história sobre Dirceu na tentativa jogar companheiro contra companheiro e provocar racha no Partido dos Trabalhadores, que era “da direita” e coisas do tipo.

O candidato do PT chegaria em quatro lugar nas urnas. Afundado em dívidas pessoais e políticas, magoado com os companheiros, iniciaria naquele episódio uma longa e irreversível déblâcle. Primeiro dentro do partido, onde se afastaria cada vez  mais da direção. Seria eleito deputado federal pelos 20 anos subsequentes. Contudo, não protagonizaria qualquer papel relevante na política como no outrora. Rompeu com Lula, Dirceu e o PT em 1985, durante o escândalo do Mensalão, a fim de fundar o PSol. Em 2000, seria o candidato do PSol à Presidência da República — contra Dilma e José Serra. Obteve um pouco mais de 1 milhão de votos, menos do que naquela eleição para governador de São Paulo na qual lhe faltou fôlego financeiro na reta final.

José Dirceu, por sua vez, eleito deputado federal a 3 de outubro de 1990 com a providencial ajuda do dinheiro de Olacyr (“O meu dinheiro”, ressalte-se), teria uma ascensão meteórica a partir de então.

Até hoje, a principal fonte de seu poder — raros são os petistas que admitem —  é sua extraordinária capacidade de alavancar recursos financeiros para bancar a companheirada. Nesses últimos 25 anos, Dirceu alavancaria dezenas de bons negócios a partir da política e ajudaria a eleição de dezenas de companheiros, formando uma bancada pessoal fiel e aguerrida. Contudo, ele jamais admitiu que seu pulo-do-gato tenha ocorrido naquela manhã de 27 de setembro de 1990, quando chegou ao escritório de Olacyr 1 hora antes de Plínio Jr. para pegar uma mala de dinheiro — do “meu dinheiro”,  jurou Dirceu na ocasião. E nunca mais tocou no assunto.

Plínio faleceu ontem sem jamais ter conseguido ir à forra. Não levou essa história para o túmulo, posto que a revelou para algumas pessoas mais próximas.

 (Apurei esses fatos na época em que ocorreram, com Olacyr, com pessoas muito próximas e Plínio e com dirigentes petistas. Trabalhava na época na revista Veja. A história acabou não sendo publicada. Mas guardei a caderneta de anotações, como costumo guardar as cadernetas com boas histórias engavetadas. Eis, agora, para desfrute dos amigos. Acredite quem quiser no falecido Plínio. Ou, quem preferir, que acredite na versão do vivo Dirceu)

 

 

 

 

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