A GUERRA INVISÍVEL — “Imaginário dos Guerrilheiros na Guerrilha do Araguaia” (Dissertação de Mestrado, cap. 4)

Capítulo 4

A Guerra “Invisível”

  

“Os mais afoitos e desesperados
em vez de regressarem como eu
sobre os covardes passos,
e em vez de abrirem suas tendas para a fome dos
desertos,
seguiram no horizonte uma miragem
e logo da luta
passaram ao luto”

(Affonso Romano de Sant’Anna, Que país é este?)

 

 

4.1 –Os Estabelecidos e os Outsiders

 

Ao estudar os sistemas de normas de dominação e as relações de poder entre grupos sociais endógenos e exógenos de uma determinada comunidade do interior, Norbert Elias[1] apresentou a idéia de que só se constrói o “nós” quando se tem o “outro” como referência. Para o autor, um grupo precisa ter o outro como contraposição para que seja possível a coesão interna, assim como para a localização cultural e da identidade do sujeito coletivo, aquilo que ele define por “imagens de nós”. Em outras palavras – e transportando o conceito para o objeto desta pesquisa – significa que o imaginário dos militares no Araguaia estava intrinsecamente ligado ao imaginário dos guerrilheiros, como irmãos siameses, como a contra-revolução precisa da revolução para existir.

 

Elias denomina os endógenos de “estabelecidos” e os exógenos de “outsiders”. Seu trabalho ajuda a analisar como um grupo de guerrilheiros, a maior parte jovens universitários, embevecidos pelas “fantasias coletivas”, ainda segundo os termos de Elias, emprenhados da sagrada chama da convicção de que conseguiriam desencadear uma guerra popular revolucionária que mudaria a história do Brasil, chegaram à região do Araguaia e passaram a se relacionar com uma população estabelecida, 20 mil camponeses, posseiros e aventureiros solitários, isolados do establishment pelas privações da selva e pela amnésia do tempo. Foi um choque cultural, econômico e, principalmente, de valores. Portadores de um imaginário de luta contagiante – tão forte que a maior parte deles, mesmo quando ficou patente que a guerra estava perdida, preferiu morrer lutando a se entregar aos inimigos – os guerrilheiros eram chamados pelos estabelecidos de “paulistas”, numa referência que indica a condição de outsiders para os moradores da região.

O conceito de Elias ajuda igualmente a compreender como os militares, os contra-revolucionários – e igualmente “outsiders” – conseguiram derrotar os guerrilheiros no campo dos estabelecidos, o coração das selvas amazônicas. Era uma luta, enfim, de outsiders versus outsiders – e os estabelecidos, a tudo assistindo, no meio do tiroteio. Naquela guerra, onde a lei do mais forte é a lei da floresta, os dois lados precisavam compreender o imaginário dos estabelecidos para encontrar formas de cooptá-los e, só então, derrotar o inimigo. Ganharia a guerra aquele grupo outsider que tivesse os homens da floresta a seu lado. Ou, pelo menos, o que tivesse as alianças mais sólidas entre os muitos grupos de estabelecidos, eles mesmos, vindos das mais diversas partes do país, portadores de um imaginário plural.

 

Descoberta a guerrilha no início de 1972, travados os primeiros combates, e depois travada uma grande campanha com as tropas regulares, era patente para os guerrilheiros que um dia o Exército voltaria ao Araguaia. Só não se sabia quando seria o novo ataque. Nem como seriam as táticas de guerra empregadas. Quando o ano de 1973 chegou, os dois lados começaram a travar uma guerra subterrânea, quase invisível, pelo controle do imaginário dos estabelecidos. Cada um com seu próprio método, conforme será narrado nas próximas páginas.

 

4.2 – No Baú do Bandeira

 

Ao longo de três anos no Araguaia, as Forças Armadas mobilizaram cerca de 4 mil homens, somados os diferentes soldados que participaram das três campanhas. Mas nenhum deles simboliza com tanta força o imaginário militar da época quanto o general Antônio Bandeira. Ele jamais foi o chefe de direito das ações militares na Guerrilha do Araguaia, o número 1 no comando, mas em minhas pesquisas sobre o episódio – nos depoimentos de militares, nas conversas informais – Bandeira permanece no imaginário deles, especialmente entre os remanescentes da Comunidade de Informações, como o líder de fato das Forças Armadas no combate aos guerrilheiros.

 

Além de estandarte, ícone do imaginário dos militares, Bandeira representou também a principal ponte de transição entre dois tempos, duas táticas, dois grupos militares – as tropas regulares e a Comunidade de Informações. Transitar pela história de Bandeira no Araguaia ajuda a compreender como e porque as práticas de guerra convencional acabaram sendo recriadas pelos militares até desaguarem numa forma inédita de combate, a guerra suja – ou guerra não-regular, como eles preferem denominar, a internacionalmente conhecida guerra de partisans. Bandeira era esses dois mundos numa só farda.

 

Era um general-de-brigada, carregava apenas duas estrelas em cada ombro[2] e comandava uma tropa de homens fardados quando os combates no Araguaia começaram. Ou seja, ele era um homem de tropas regulares. Mas era também um dos próceres da chamada “linha-dura”, que pregava a segurança interna e o combate firme e sistemático aos “subversivos” como prioridade máxima das Forças Armadas e, por conseqüência, do governo estabelecido. Bandeira, enfim, também fazia parte da Comunidade de Informações.

 

A historiografia sobre o Araguaia, assim como as reportagens publicadas na imprensa sobre o tema, costuma apresentar o general Antônio Bandeira como principal mentor e comandante maior da reação militar à Guerrilha do Araguaia. Em parte, foi. Mas não em seu todo, nem por todo o tempo. Sua participação foi essencial no início, visto que por conta de sua persistência que se descobriu a existência das bases guerrilheiras. No meio, ele se tornou o comandante das operações, só que depois se afastou da área. No fim, quando os militares venceram de fato a guerrilha, Bandeira já não estava mais lá. Mas ficava sabendo dos acontecimentos através de relatos de antigos comandados que lhe deviam lealdade pessoal, não funcional.

 

Na Primeira Campanha, entre abril e maio de 1972, o chefe geral foi o general Darcy Jardim de Matos, comandante da 8ª Região Militar, em Belém. Darcynomeou para comandar as operações o chefe de seu Estado Maior, o coronel Pitta. Participaram da operação, em paralelo, agentes do CIE e do CISA, mas estavam subordinados ao general Milton Tavares de Souza, chefe do CIE, e ao brigadeiro Newton Vassallo, chefe do CISA. Na ocasião, Bandeira era o comandante da 3a Brigada de Infantaria, com sede em Brasília e com batalhões espalhados por Goiás e pelo Triângulo Mineiro. Bandeira enviou alguns de seus homens para integrar a equipe do CIE. Naquele momento, contudo, as informações estavam de tal forma nas mãos de Bandeira, que se pode dizer que foi o general Milton que enviou alguns de seus oficiais para ajudar a equipe de Bandeira – e não o contrário. Em paralelo, Bandeira também enviou quatro pelotões de tropas regulares[3] para integrar as tropas que estavam sob o comando do general Darcy.

 

Após o fracasso da Primeira Campanha, Bandeira foi aos poucos assumindo o Araguaia. Comandou a fase intermediária, chamada Operação Presença, uma Ação Cívico-Social (ACISO) desencadeada entre junho e agosto de 1972 para tentar conquistar os corações e as mentes dos moradores da região. Nesse período, o controle militar sobre as imediações da Transamazônia, perto de Marabá e Bacaba, ficou com as tropas regulares do general Darcy. Ali, os soldados continuaram todos fardados, muito mais na retranca, dando segurança, do que no ataque – e a Comunidade de Informações mal era recebida pelos oficiais na área. Mais ao sul, a região de Xambioá ficou sob o controle militar de Bandeira. Para lá ele enviaria dois pelotares – cerca de 120 homens, entre 50 e60 acada mês – para caçar guerrilheiros. Estavam no ataque, em trajes civis, não regulares.

 

Em paralelo, o general começaria a dar voz ativa em seu feudo aos membros da Comunidade de Informações. Em julho de 1992, por exemplo, mandou instalar no acampamento militar de Xambioá uma barraca para as equipes de inteligência – preparando o terreno para a hegemonia da Comunidade de Informações. A barraca ficava exatamente no centro do acampamento, em posição de destaque. Todos os dias, homens do Bandeira e do Miltinho se reuniam dentro da barraca para avaliar a situação. Essa barraca recebeu da tropa o apelido de KGB.

 

Na Segunda Campanha, entre setembro e outubro de 1972, por decisão do Alto Comando do Exército, a direção geral da manobra ficou com o general Viana Moog, comandante Militar do Planalto. Coube a Bandeira uma posição oficial estratégica, o de comandante das Operações. Bandeira instalou-se de corpo e alma no teatro de operações, montou seu acampamento ao lado da mata, do lado esquerdo do Araguaia, perto de Xambioá, mas fora da cidade. Viana Moog permaneceuem Brasília. Aofinal dessa fase, Bandeira perderia o duelo com o Alto Comando – como já dito, ele queria prosseguir com os combates, mas os superiores ordenaram o retorno na data prevista para o término da operação.

 

Depois disso, no período de trégua de quase um ano que se seguiu, entre novembro de 1972 e outubro de 1973, o general Milton Tavares, na condição de chefe do CIE, passou a ser o principal comandante militar das ações de contra-guerrilheira.  Nesse período, as Tropas Regulares – inclusive os pelotares de Bandeira – foram afastadas da região para que se tivesse início a chamada Operação Sucuri. O coordenador da Sucuri era um tenente-coronel, Dr. Hoffmann[4], homem da máxima confiança de Bandeira, e um dos militares que mais auxiliaram nesta pesquisa com depoimentos orais e documentos. Em Brasília, Bandeira continuaria a receber oficiais do Exército e da Aeronáutica para ter acesso às informações e prestar conselhos. Mas o comandante de tudo, ressalte-se mais uma vez, era o general Milton, o Miltinho, como era tratado pelos seus pares, um dos homens mais duros da linha-dura militar. Miltinho e Bandeira, diga-se, mantinham excelentes laços pessoais, grandes afinidades ideológicas e estreitas relações no trabalho.

 

Em outubro de 1973, quando as Forças Armadas deram início à Terceira Campanha, que exterminou definitivamente a guerrilha, o general Milton ainda comandava o CIE. Foi ele quem preparou tudo. Mas logo depois entregaria o bastão para o general Confúcio de Paula Torres Avelino, um profissional sem o mesmo carisma do antecessor, mas que levou até o fim a caçada aos guerrilheiros. Bandeira estava na Polícia Federal. Mas tinha um homem de sua confiança que fazia a ligação entre as tropas de combate e os serviços de informações. Um major – mais tarde promovido a general – que o mantinha informado dos mínimos detalhes, inclusive dos atos de exceção. Sobre Bandeira, há no Dossiê Araguaia um longo perfil com rasgados elogios:

 

“Era um nordestino leal, vibrante, simples e de sangue quente. Gostava de fazer amigos, porém para ser considerado um amigo a condição básica era ser merecedor de sua confiança. Embora ríspido em certos momentos, possuía um grande coração. Esses traços de sua personalidade fizeram com que fosse não apenas um chefe ou comandante, mas um líder natural. Aqueles que tiveram o privilégio de conviver com ele não relutaram em alinhar-se a seu lado, ou sob seu comando, em quaisquer situações”[5]

 

Em carta escrita que me foi enviada pelo Dr. George, coordenador das pesquisas que resultaram no Dossiê, há o seguinte esclarecimento sobre Bandeira, que ele pede com insistência que seja inserido neste trabalho – aliás, foi um dos poucos pedidos que me fez, o que só reforça a relevância que a memória de Bandeira tem para os militares que participaram do Araguaia:

 

“O general Bandeira sempre foi um homem altamente disciplinado e nunca tentou ultrapassar qualquer comando. Acontece que, como um homem simples e honesto, ele angariava para si a simpatia da maioria dos oficiais e graduados que militaram no combate à subversão. Eu fui seu amigo e na sua simplicidade ele me ouvia muito. Mas é essencial esclarecer que era a Comunidade de Informações que se encostava nele, e não ele na Comunidade. Essa liderança fez com que alguns generais que eram do tapetão começassem a criticá-lo. Nós costumávamos dizer que, se houvesse um conflito maior no País, não teríamos dúvida que estaríamos do lado do Bandeira. Mas no Araguaia, ele nunca ultrapassou os limites da sua autoridade. É importante que se saiba o que representava um general naquela época. Eles estavam sempre num pedestal, onde o Bandeira nunca esteve. Por isso era tão relevante para um oficial, ou mesmo um sargento, gozar da amizade do Bandeira. Daí vinha sua liderança”[6]

 

Uma liderança que, de acordo com os depoimentos citados, baseava-se na confiança e simpatia que outros oficiais nutriam por ele, no princípio da “autoridade”, como reflete Hannah Arendt, o qual:

 

“pode ser aplicado em pessoas ou pode ser aplicado a cargos, como no senado romano ou nos cargos hierárquicos da igreja. Sua garantia é o reconhecimento incondicional daqueles que devem obedecer; não é necessário nem coação nem persuasão. Conservar a autoridade requer respeito para com a pessoa ou o cargo”[7]

 

 

Durante a Guerrilha do Araguaia, Bandeira e sua Brigada oficialmente não pertenciam aos efetivos da Comunidade de Informações, mas sim às tropas regulares. Ele só passaria a integrar oficialmente a Comunidade quando deixou o Araguaia para dirigir a Polícia Federal. Durante o Araguaia, quem fazia parte da Comunidade era a 2a Sessão do Comando Militar do Planalto. Bandeira tinha apenas o Pelotão de Investigações Criminais, o PIC, de Brasília, que nem se subordinava diretamente a ele, mas estava instalado bem próximo ao comando da 3ª Brigada e à sua influência pessoal. Bandeira vivia dentro do PIC, se informando com os membros da Comunidade sobre o que ocorria. Foi para o PIC, por exemplo, que mandou instalar, por decisão pessoal, o guerrilheiro Pedro Albuquerque, quando o transferiu, também por sua própria conta a risco, da prisão da Polícia Federal em Fortaleza.

 

Bandeira deu muita atenção às ações de guerrilha armada que, a partir de 1967, começaram a ocorrer nas cidades. Ele costumava emprestar seus agentes para ajudar os órgãos de inteligência que atuavam na área – CIE, CISA e CENIMAR – no levantamento das organizações de esquerda que cresceram no Centro-Oeste, em especial a ALN[8] e da VAR-Palmares[9]. Mas, curiosamente, sua grande preocupação era com a guerrilha rural. Seus antigos subordinados lembram que, pernambucano, tinha horror das Ligas Camponesas que surgiram antes de 1964 no interior do seu Estado.

 

Depois da eclosão da guerrilha urbana, ele dizia aos colegas e aos subordinados que a verdadeira guerra revolucionária ainda estava por vir e que, quando viesse, seria travada no campo. Bandeira também vivia alertando seus superiores e, informalmente, alguns membros do Alto Comando, sobre possíveis “atividades subversivas” na região do Bico do Papagaio. Mas não chegava a falar sobre a existência de guerrilha, mesmo porque ainda nada sabia sobre isso. Muitos generais costumavam ironizá-lo, tratá-lo por “paranóico”. Mesmo depois de comprovada a Guerrilha do PC do B, a maior parte do Alto Comando só se referia aos conflitos de forma pejorativa, como “A Guerrilha do Bandeira”:

 

“A maioria dos generais não levava a sério o trabalho da repressão. Tinham até restrições ao pessoal de informações e não estavam nem aí para o que ocorria com a subversão armada”[10]

Ressalto que essa observação, expressa com todas as letras pelos militares dentro do Dossiê Araguaia, confirma a idéia anteriormente expressa de que o imaginário dos militares não era monolítico nos tempos da guerrilha – ao contrário, era um imaginário plural. Era igualmente plural antes da guerrilha – e decerto continuou sendo depois dela. E Bandeira soube como poucos generais de seu tempo explorar essa pluralidade, alardeando o fantasma do comunismo, assustando a tropa com um imaginário de terror, cooptando um número expressivo de oficiais das tropas regulares para a Comunidade de informações. Em 1970, no comando da 3ª Brigada de Infantaria em Brasília – apenas mais uma dentre as inúmeras tropas da Capital -, Bandeira começaria a treinar suas tropas regulares em operações de combate à futura guerrilha rural. Em 1971, ainda no comando da 3ª Brigada, decidiu por conta própria intensificar o treinamento de tropas de operações especiais de contra-guerrilha, os já citados pelotares.

 

Primeiro organizou a Operação Mesopotâmia, que durou todo o ano, na qual Bandeira mandou rastrear as atividades da VAR-Palmares em Imperatriz, Maranhão, região do Bico do Papagaio[11]. Vestiu, ele próprio, roupas civis – algo incomum entre os generais da época -, disfarçou-se de topógrafo e percorreu de jipe os sítios da região, chegando a prender, pessoalmente, um grupo da VAR-Palmares que encontrou escondido em uma chácara[12].

 

Em abril daquele ano, Bandeira também promoveu uma manobra rural com suas tropas em Uberlândia, limite sul da sua área de influência. Em setembro, promoveria outra manobra similar na Chapada dos Veadeiros, a250 quilômetrosde Brasília. Criava um pelotar anti-guerrilha em cada batalhão – Araguari, Ipameri -, enfim, em cada quartel sob seu comando, e não parava de treinar seus homens para a iminência de um dia entrarem em combate armado contra os “subversivos”. No início de 1972, Bandeira estava realizando sua terceira manobra de contra-guerrilha, dessa vezem Cachoeira Alta, quando foi informado que eram verdadeiras as notícias sobre a presença do PC do B no Araguaia.

 

Naquela ocasião, era para Bandeira e para seus homens de confiança que começariam a chegar – fora da cadeia hierárquica – boa parte das informações mais relevantes sobre as “atividades subversivas” em todo o País. Foi para ele, e a pedido dele, que a Polícia Federal no Ceará enviou em primeira mão uma cópia do depoimento de Pedro Albuquerque revelando a organização de um movimento guerrilheiro no Araguaia. Foi Bandeira quem mandou buscar Pedro em Fortaleza a fim de mantê-lo preso em um de seus quartéis, quando o natural seria que permanecesse na Polícia Federal de Fortaleza, ou pelo menos na de Brasília[13]. Ele gostava de interrogar pessoalmente os “subversivos”, fardado com placa de identificação no peito, ainda que não fizesse questão de se identificar. Foi assim que procedeu com Pedro Albuquerque quando o interrogou pessoalmente. O Dossiê assim explica o interesse de Bandeira:

 

“Tinha o hábito de manter-se informado, não através da leitura de interrogatórios formais, mas de conversas informais com os presos, em sua sala de comando.  interessante dessa prática  O O    O interessante dessa prática, por várias vezes observadas por seus subordinados, é que quase sempre se afeiçoava a essas pessoas presas e passava a protegê-las dentro do possível”[14]

 

De temperamento impulsivo – no Dossiê, os militares preferem usar adjetivos como “voluntarioso” e “sanguíneo” – Bandeira gostava de tratar bem os prisioneiros que colaboravam com informações. O general tratou com tanta deferência o guerrilheiro Dower Morais Cavalcante, o Domingos[15], quando ele foi levado de volta ao Araguaia[16], que o guerrilheiro José Genoíno, também levado de volta ao Araguaia, acusou o companheiro de delator, perante os militares – e ainda se recusou a dividir com ele a mesma barraca. Mas Bandeira ficava extremamente irritado quando o prisioneiro resistia a colaborar nos interrogatórios. Chegava a ser violento. Certa vez teria quebrado um bastão de madeira na cabeça do guerrilheiro Eduardo Monteiro Teixeira[17].

 

Em outra feita, em setembro de 1972, mandou fazer um “arrastão”[18] entre fazendeiros e jagunços do Araguaia quando descobriu a existência de trabalho escravo na região. Uma dezena de fazendeiros foi presa. Bandeira coordenou pessoalmente a operação[19]. Entre os presos na área de Marabá, estava o fazendeiro Evandro Mutran, o maior produtor de castanha-do-pará do País[20]. Na área de Xambioá, Bandeira enviou bilhetinhos a dois grandes  fazendeiros, conhecidos por Noleto[21] e Antonino da Marcenaria[22]. Os bilhetes pediam que fossem ao acampamento militar para orientar o general com informações sobre os subversivos. Os dois chegaram juntos à barraca de Bandeira. Ao avistá-los, o general gritou: “Seus canalhas”. E virando-se para agentes da Polícia Federal, ordenou, ainda aos gritos, que prendessem ambos. Por ordem do general, os dois fazendeiros foram levados para a delegacia de Xambioá – de onde seriam mais tarde levados para uma prisão em Goiânia. Mas Bandeira proibiu que entrassem no camburão da polícia. Mandou que fizessem o trajeto até a delegacia à pé, algemados, com as mãos nas costas, soldados com metralhadora atrás, para que toda a população local testemunhasse que foram presos. “Desfila com eles pela rua principal”, teria ordenado Bandeira[23]. À noite, segundo os militares, teria havido uma queima de fogos de artifício para comemorar as prisões[24].

 

Os militares relatam ainda que Bandeira tinha uma grande intuição com seus prisioneiros. O interrogatório da guerrilheira Rioco Kaiano é ilustrativo. Ela resistia a revelar o que sabia. Os militares tentaram humilhá-la. Em determinado momento, lhe colocaram um capuz e lhe tiraram a roupa. Foi deixada só de roupas íntimas, algo que na avaliação dos três militares presentes seria suficiente para quebrar a resistência de uma nissei. O general Bandeira foi informado que Rioco estava muito resistente, que não falaria só com pressões psicológicas, que talvez precisasse de pressões físicas. “Ela só pode estar querendo proteger algum macho”, intuiu o general. Dias antes, os militares haviam levado para Brasília o guerrilheiro José Genoíno, o Geraldo. Àquela altura, já haviam extraído dele muitas informações. Rioco e Genoíno foram então colocados na mesma sala, ambos de capuz, sem que um soubesse da presença do outro. Um militar começou a recapitular o depoimento de Genoíno. Quando ele abriu a boca, Rioco iniciou um choro convulsivo. O general Bandeira estava certo. Era por Genoíno que ela resistia às humilhações. Os dois estão casados até a presente data.

 

O general Bandeira levou para casa muitos documentos dos trabalhos que realizou, inclusive sobre a Guerrilha do Araguaia. Era seu arquivo particular. Guardou-o num baú velho, que ficou conhecido como o “Baú do Bandeira”. Em 1997, com o velho general já sofrendo de adiantado estado de esclerose, e já sem condições de tomar decisões, sua filha Márcia acabou entregando o conteúdo aos jornalistas, numa atitude muito elogiada pela imprensa e criticada pelos militares. Bandeira morreu em 1998.

 

No Araguaia, o general Antônio Bandeira foi o principal elo entre as tropas regulares e a Comunidade de Informações. Com a sua ida para a Polícia Federal, a “Guerrilha do Bandeira” foi entregue à hegemonia das tropas não-regulares para o início da guerra suja. Para a historiografia, por sua vez, as revelações do “Baú do Bandeira” representaram o início de uma nova fase, na qual documentos sobre o Araguaia começaram a deixar subterrâneos ocultos e tomaram a direção da luz. Depois do “Baú”, outros documentos também apareceram, divulgados em reportagens na imprensa. Mas ainda é longo o caminho para um reencontro do Araguaia com a História.

4.3 – Operação Sucuri

 

Em seu relatório, o comandante Ângelo Arroyo batizou de “Período de Trégua” os 12 meses em que os militares silenciaram no Araguaia, entre 08 de outubro de 1972 – quando as tropas fardadas que participaram da Segunda Campanha deixaram a região -, e o dia 03 de outubro de 1973, quando tropas especiais desceram na selva para dar início à Terceira Campanha. O que se sabe hoje, tanto por reportagens publicadas em revistas e jornais, quanto por referências em pesquisas publicadas em livros[25], é que nesse período os militares não deram trégua aos guerrilheiros. Ao contrário, desencadearam uma guerra invisível contra os guerrilheiros, uma das maiores operações de espionarem e inteligência da história do País, batizada de Operação Sucuri, que mapeou o terreno para o combate seguinte. Contudo, jamais foram revelados os detalhes dessa operação ultra-secreta, a afinal, como bem lembrou Baczko,

 

“o jogo entre o visível e o invisível, entre aquilo que é dito em espetáculo e aquilo que é escondido, constitui uma peça essencial da estratégia de poder”[26]

 

O Dossiê Araguaia tenta preencher essa lacuna, tanto com base em documentos secretos remanescentes desse período, quanto por depoimentos complementares de militares que participaram do episódio. Descobri, pelo Dossiê, que em fins de 1973, quando a tropa desceu na selva para a derradeira caçada aos inimigos, os militares já sabiam o nome e o endereço de cada guerrilheiro, suas redes de apoio, os caminhos que cada um deles costumava traçar na mata, assim como o nome e endereço de cada morador da região – os estabelecidos, utilizando a terminologia de Elias – que já simpatizava com os guerrilheiros ou que poderia apoiar os militares. Enfim, descobri, em análise ao Dossiê, que a Terceira Campanha não teria sido uma mera fase de combates na selva, mas uma operação cirúrgica precisa e planejada com antecedência, que resultou na extirpação dos guerrilheiros. Registra o Dossiê:

 

“Enquanto o comandante da guerrilha e a Comissão Militar analisavam erroneamente que a área fora deixada em completo abandono pelo contra-rebelde, o Centro de Inteligência do Exército, CIE, planejava e colocava em execução uma operação de inteligência que serviu de base a todo o trabalho realizado na terceira fase de combate à guerrilha”[27]

 

De acordo com o Dossiê, o Exército (a Marinha e a Aeronáutica ficaram de fora) infiltrou exatamente 35 agentes da repressão no cotidiano dos guerrilheiros. Eram em sua maioria cabos e sargentos de pele escura, mulatos, caboclos e mamelucos, enfim, gente egressa das camadas sociais populares, com hábitos e linguajar simples, que pudesse ser confundida com mais facilidade com moradores da região[28]. Segundo o Dossiê, havia três grandes objetivos estratégicos na operação. O primeiro era a “ambientação com os diferentes itinerários que conduziam à área em que viviam e se deslocavam os guerrilheiros”. Isso revela que os militares iam refazendo suas ações à medida que avaliavam suas práticas. O Dossiê revela que os militares esperavam que, ao final da operação Sucuri, os guias das futuras tropas seriam justamente os integrantes dessa operação – e de fato foram, como veremos adiante. O segundo objetivo era “identificar a rede de apoio da guerrilha entre os moradores locais, quer de informações, quer de logística”, relata ainda o Dossiê[29]. Ou seja, identificar os estabelecidos que haviam aderido à guerrilha ou que, de alguma forma, ajudasse ou fosse simpatizante dos guerrilheiros. O terceiro objetivo seria identificar os camponeses que pudessem ser cooptados pelo governo, “a maioria neutra”, definem os militares, ou mesmo aquela “minoria que apoiava francamente as ações da Forças Armadas”, explica o Dossiê[30]. Quando os militares entraram com ações extensivas – e algumas vezes com violência explícita, conforme o relatado no capítulo anterior – não conseguiram o apoio da população e capturaram (ou abateram) poucos guerrilheiros. Mudaram de estratégia para chegar ao fim planejado. Mudança de meios justificando fins. Eram estratégias mais refinadas: soldados sem uniformes, com linguagem simples, tipo físico similar ao dos estabelecidos, sem aparato extensivo.

 

Um outro documento do Exército detalha ainda mais a Sucuri[31]. O documento relata, por exemplo, como teria sido a gênese da Operação Sucuri:

 

“E o tempo passava, e o problema subversivo prosseguia no SE do Pará. Após a manobra, na área ficara apenas a PM/GO, acantonada na cidade de Xambioá, para manutenção da autoridade e para dar relativa proteção aos mateiros que serviram de guias às tropas empregadas.

Rompe o ano de 73 e a situação prosseguia a mesma, isto é, os subversivos donos da área. No início de 73, comparecemos à inauguração de um trecho ferroviário construído pelo 2º Btl Fv[32], de Araguari. Na viagem inaugural, casualmente sentou-se ao nosso lado o chefe da Seção de Operações do CIE, cel Torres. Em conversa, procurou saber o que pensávamos do problema de Xambioá, como E2/E3 da Bda Inf e com vivência na área. Era o que há muito esperávamos que ocorresse”

 

“Fizemos um relato crítico do que acontecera até o presente momento e apresentamos, como solução, a montagem de uma operação de informação, porém prolongada, com a infiltração, na área, de elementos bem treinados e qualificados, que fariam um levantamento judicioso dos locais onde os subversivos se baseavam, bem como de sua redes de apoio, que atuavam como os olhos e os ouvidos dos terroristas. Ressaltamos que os elementos infiltrados teriam que residir na região com alguma ocupação. Alguns dias se passaram e fomos informados por nosso comandante, gen. Bandeira, que o chefe do CIE havia gostado das idéias que havíamos exposto ao cel Torres e as apresentara ao Sr. Ministro que as aprovara. Em conseqüência, deveríamos imediatamente começar a montar a Operação, que chamar-se-ia Sucuri. Teríamos liberdade para agir –pessoal, material, dinheiro–, enfim, tudo que necessitássemos estaria à nossa disposição. Ainda não refeitos da surpresa, perguntamos quantos elementos poderíamos empregar? Que numerário teríamos à disposição? A resposta foi lacônica: “o que você necessitar para levar a bom termo a operação, e caso necessitar de apoio de qualquer Órgão Governamental, indique qual ou quais deverão dar apoio”[33]

 

Essa frase – “o que você precisar” – revela que mesmo o poder econômico estando com os militares, o poder extensivo e ostensivo, com helicópteros, aviões e um número de soldados no front 50 vezes maior[34], o poder político se encontrava nas mãos dos guerrilheiros. Numericamente, havia um número ínfimo de guerrilheiros. Mas depois de sete anos na região – eles começaram a chegar ao Araguaia em 1966 – os guerrilheiros, inicialmente chamados de “paulistas” e tratados como outsiders, já estavam sendo chamados de “povo da mata”, como eles gostavam, e muitos deles já eram considerados estabelecidos. Enfim, eles já detinham o conhecimento da região. Ademais, eram movidos por um forte imaginário de mudança, de criar um país justo e igualitário, a partir de um partido político forte e de uma sociedade socialista. Movidos por estes sonhos, eles de embrenhavam nas matas e passavam por fortes privações.

 

A Operação Sucuri, da maneira que foi organizada, demonstra que os militares há haviam se conscientizado que para derrotar os guerrilheiros precisariam de muito mais do que “conscritos bisonhos” – segundo a expressão de Gorender –, ou mesmo de disciplinados pára-quedistas armados. Seria preciso recriar antigas estratégias, tanto de inteligência militar quanto de combate. A Operação Sucuri significou exatamente isso – a busca pela reinvenção das táticas militares. Reinventaram, inclusive, novas táticas de inteligência, utilizando na região agentes com linguagem simples e sem qualquer aparato ostensivo.

 

A operação foi iniciada em fevereiro de 1973, em Brasília. “Para o seu êxito foi fundamental e absolutamente necessário que a tropa fardada tivesse sido inteiramente afastada da área”, registra o Dossiê Araguaia[35]. Com um pequeno núcleo de agentes descaracterizados, tentando criar uma identidade cultural com os estabelecidos, facilitaria a penetração do poder. O mais difícil foi o recrutamento de agentes com as mesmas características culturais dos moradores da região:

 

“Uma das primeiras providências adotadas pela coordenação foi verificar quais os pelotões que se haviam destacado nas operações até então realizadas, em abril e setembro de 1972. Uma vez isso verificado, foi solicitado que os comandantes desses pelotões indicassem aqueles julgados melhores nas atividades de contra-guerrilha realizadas, com a condição básica de que fossem voluntários e, além disso, preenchessem os seguintes requisitos: elevado grau de discrição; acentuado bom senso; coragem comprovada; espírito de iniciativa; tipo físico característico da região; disciplina consciente; e linguajar semelhante ao utilizado pelos moradores da região”

 

“Os possíveis candidatos a essa missão deveriam ser abordados individualmente por seus chefes. O princípio da compartimentação deveria ser respeitado e aqueles que não manifestassem interesse em participar deveriam ser descartados sem delongas. Sempre, todavia, mantendo o máximo grau de sigilo. Uma vez concluída seleção inicial, pequenos grupos de candidatos à missão foram reunidos em Brasília e submetidos a uma nova triagem. Ao final de tudo, 35 voluntários foram definitivamente selecionados”[36]

 

A esses 35 agentes, foram acrescentados quatro oficiais coordenadores. O plano era que trabalhassem em duplas. “É muito grande o risco da utilização isolada de apenas um agente”, explicam os autores do Dossiê. “Isso não significa que não fossem utilizados, também, agentes isolados, para tarefas pré-determinadas que não justificassem a utilização de duplas, como a de bodegueiros e compradores de cereais”[37].

 

Confinados no CIE, em Brasília, todos os agentes começaram o treinamento passando longas horas em aulas teóricas sobre a geografia da região, passaram pelos moradores locais, com aulas sobre o cotidiano dos camponeses mais conhecidos, até chegar aos guerrilheiros – quem eram, como viviam, como atuavam, de que precisavam e quem fornecia o quê. Foram apresentados álbuns com fotografias de militantes do PC do B e dos cerca de 2 mil estudantes presos em Ibiúna, em 1968, quando tentavam realizar um Congresso da UNE. Os agentes foram obrigados a memorizar as fotografias, nomes, codinomes, apelidos e características pessoais daqueles que, acreditavam os militares, possivelmente se encontravam no Araguaia.

 

Nesse treinamento, o referido Dossiê comenta que chegaram a discutir detalhes, como o fato de que os guerrilheiros – diferente dos moradores da região – tendiam a ter uma pele esmaecida por causa do longo tempo que estavam sendo obrigados a passar na floresta fechada, longe dos raios solares[38]. Também tendiam a apresentar um timbre de voz baixo, quase imperceptível.

 

Na etapa seguinte, os agentes foram divididos em dois grupos. Cada um atuaria numa determinada área da região, sob o comando de um coordenador. Então todo o treinamento recomeçou, dessa vez para que os agentes memorizassem os detalhes geográficos, dos moradores e dos guerrilheiros de sua respectiva área. Foram então formadas duplas de agentes. Os oficiais os estimularam a escolher, eles próprios, seus respectivos parceiros, com base no critério de absoluta confiança mútua, construída em situações anteriores de perigo em outras operações. Por fim, construíram histórias de cobertura para cada um e para cada dupla. O Dossiê relata:

 

“As estórias de cobertura, como é natural, foram montadas individualmente. Cada integrante da operação imaginou sua própria estória fictícia, que obrigatoriamente incluía a origem, ou seja, o local de onde vinha, nomes dos pais, irmãos, avós, profissão, local onde passou a infância, locais de trabalho anteriores, etc…”

 

“Os trabalhos e profissões escolhidas por cada um deveriam ser compatíveis com as atividades comuns às desenvolvidas na região. Assim, a maioria era de posseiros; alguns como bodegueiros de corrutelas; e outros como compradores de cereais, pois era comum na região, compradores, em lombos de burros, percorrerem a região, adquirindo arroz, feijão, etc, dos posseiros”

 

“Chegou-se, então, à necessidade de treinar os agentes em suas profissões. Para isso, foi utilizada uma chácara, nos arredores de Brasília, de propriedade de um dos componentes do Sistema de Inteligência[39] e, nela, os posseiros iniciaram suas atividades como trabalhadores rurais, de forma a ficar com as mãos calejadas e com a pele bem queimada pelo sol”

 

“Para o treinamento dos futuros bodegueiros foram adquiridas ou alugadas biroscas rudimentares nas cidades-satélites de Brasília, com o compromisso de o antigo proprietário dar treinamento e orientação na arte de como se tornar um bom e eficiente bodegueiro. Paralelamente, eram montadas estórias de cobertura para os chefes das equipes de busca que, também, passariam a viver na área de operações. Para isso, foram utilizados diversos órgãos federais que desenvolviam atuação na área. Assim, através do Ministério da Agricultura, alguns chefes das equipes de busca foram nomeados, com publicação no Diário Oficial da União, funcionários do INCRA”

 

“Feitas as análises e as necessárias retificações em cada uma dessas estórias, passou a ser feita uma massificação das mesmas. Diariamente, dezenas de vezes, os voluntários eram sabatinados a respeito de suas estórias e atividades que passariam a desenvolver”[40]

 

Estratégia de alto custo, avalio, e que revelou o reconhecimento pelo Exército da capacidade de luta e coragem dos guerrilheiros. Se a Operação Sucuri tivesse sido um fracasso, é provável que seus autores estivessem hoje negando a paternidade e tentando apagá-la da memória histórica. Mas acabou se tornando a maior e mais bem sucedida operação de inteligência militar da história do Exército, como se comprovou mais tarde. O Dossiê Araguaia é pródigo em relatar a Sucuri até em seus pormenores. Prossegue o Dossiê:

 

“Cada agente, ao chegar à sua área de atuação deveria estar perfeitamente adaptado, como um peixe dentro d’água, aos trajes, à maneira de falar, às gírias e às peculiaridades da população local. Nesse sentido, tornou-se necessário comprar roupas e calçados adequados, envelhecê-los, remendá-los, bem como as malas que transportariam os parcos pertences de cada um. Considerando a estimativa de que as equipes permaneceriam na área por um período superior a 4 meses, havia também a necessidade dos agentes levarem dinheiro, em notas velhas e de pouco valor, suficiente para se manterem, modestamente, nesse período”

 

“O armamento a ser utilizado era revólver e espingarda com bastante uso. Tanto a arma como o dinheiro deveria ser escondido em locais distantes de suas áreas de operação. Após instalados e após sentirem que estava tudo normal, a arma e o dinheiro deveriam ser resgatados. Nenhum agente portaria identidade, pois na década de 70, na área do Araguaia, poucas pessoas possuíam documentação”[41]

 

 

O treinamento durou cerca de quatro meses. Em junho de 1972, os 35 agentes do CIE seriam enviados para o Araguaia. Montaram três bases fixas em São Geraldo, Araguatins e Araguaína. A missão dos agentes de São Geraldo e Araguatins era fazer a triagem dos informes que chegavam da mata e os repassar ao chefe, baseado em Araguaína. Este, por sua vez, analisava os dados, fazia uma triagem e entregava um relatório para o operador de rádio. Toda madrugada, esse operador se deslocava de Araguaína para um local discreto na mata, montava seu transmissor e antenas, e retransmitia os informes para a sede do CIE, em Brasília. Completao Dossiê:

 

“Esporadicamente, para atuar em alguma área suspeita, eram utilizados elementos envolvidos na operação que haviam sido, também oficialmente, contratados pela SUCAM, uma vez que era normal, na área,  o trabalho dos chamados mata-mosquitos. Esses funcionários da SUCAM eram também utilizados quando havia necessidade de contatos com os agentes em suas posses. Os agentes mata-mosquitos  receberam treinamento adequado em Formosa, Goiás”[42]

 

O comando geral da Sucuri foi entregue ao chefe de Operações do CIE, tenente-coronel Torres. Um outro tenente-coronel, codinome Hoffmann, foi indicado como coordenador-geral. Ele ficava em Brasília, em contato permanente com um adjunto instaladoem Araguaína. Haviatambém dois sub-coordenadores se área. Dr. Luchini era um deles. Somente esses três oficiais portavam carteiras de identidades frias, ressalte-se. Outros, portariam somente crachás verdadeiros (mas nomes falsos) de órgãos do governo para o qual trabalhavam. Quando aos agentes de campo, chegaram à mata portando somente histórias de cobertura na ponta da língua.

 

De acordo com o Dossiê, para não chamar a atenção dos guerrilheiros, os agentes chegaram à região gradativamente, ao longo da primeira quinzena de junho, com cada equipe se deslocando da maneira que achasse mais conveniente. As bodegas foram as primeiras a ser instaladas. Isso porque funcionariam como pontos de controle e de coleta de dados. Os agentes tinham a orientação de comprar bodegas já instaladas para “evitar que a abertura de outras inflacionasse a área e despertasse suspeita”, explica o Dossiê[43]. Cinco dias após a chegada dos bodegueiros, foi a vez das equipes de combate à malária começarem a chegar. Mais cinco dias e começaram a chegar os posseiros.

 

A rede de agentes foi tecida de forma complexa. Ainda de acordo com o Dossiê, fora da Rede de Inteligência todos os contatos entre eles estavam proibidos. No caso de encontros casuais, deveriam agir como desconhecidos. Havia duas sub-sedes independentes, em Xambioá e na Transamazônica, cada uma delas coordenada pelo respectivo sub-coordenador. As equipes de trabalho, por sua vez, tinham a formação idêntica à de uma célula leninista – como às células da guerrilha urbana e dos guerrilheiros do Araguaia – com cinco agentes em cada uma, trabalhando de forma estanque, sem qualquer contato uns com os outros.

 

O sub-coordenador de Xambioá se instalou no escritório do INCRA, em São Geraldo, narra ainda o Dossiê. Chegou junto com um auxiliar. Os dois se apresentaram com uma história de cobertura de que iriam ajudar a fazer a reforma agrária na região. Dentro dessa rede, foram instaladas duas bodegas, uma em Araguaína, outra em Santa Cruz. Para a instalação de agentes que se apresentariam como posseiros, quatro glebas de terra foram adquiridas na região. Por fim, duas equipes foram oficialmente integradas à Campanha de Erradicação da Malária do governo do Pará. Ao norte, na área da Transamazônica, o sub-coordenador da rede tinha a história de cobertura de engenheiro do Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER) – ainda de acordo com as informações fornecidas pelo Dossiê. Nessa área, foram instaladas três bodegas. Também foram plantados quatro agentes nas localidades de Consolação e Metade, como donos de roças.

 

Um agente-móvel circulava por toda essa grande área, se apresentando como “gateiro”. Segundo o dialeto da região, “gateiro” é uma espécie de intendente das grandes fazendas, circulava pelas bodegas da região atrás de mantimentos para as fazendas. Os militares tiveram o cuidado de arrumar uma mula de carga para o agente, de forma a não ser confundindo com “gato” – também chamado de “gateiro” por alguns – outra atividade profissional da região que arregimentava trabalhadores miseráveis para as fazendas, onde geralmente eram submetidos a trabalho escravo. Havia ainda três equipes da “Operação Mata-Mosquitos”, contratados oficialmente para a Campanha de Erradicação da Malária. Uma circulava pelas localidades de São Domingos e Metade; a Equipe B, entre Brejo Grande a Consolação; e a Equipe C, circulava entre a Transamazônica e os rios Araguaia e Tocantins. Por fim, havia um informante volante agindo em Ananás, São João do Araguaia e Marabá.

 

Também foi organizada uma rede de Mateiros, relata o Dossiê. Eles não tinham informações sobre a operação, sabiam apenas que estavam ajudando os agentes do governo a buscar informações sobre os “paulistas”, como eram chamados os guerrilheiros. Em setembro, cerca de cinco meses depois de iniciada, a Sucuri foi dada como concluída. O CIE já tinha mapeado todas as informações que os comandantes militares achavam necessárias para desencadear, a partir de outubro, a operação cirúrgica de extirpação da guerrilha há muito acalentada.

 

Um único incidente grave foi registrado – o desaparecimento de um agente, o soldado do Exército Francisco Valdir de Paula. Ele havia se instalado em uma posse de terra no município de Xambioá. Em agosto de 1973, ele deixou de fazer contato com sua rede. Até hoje os militares não sabem se ele morreu na mata, atacado por algum animal – uma cobra, uma onça, por exemplo – ou se morreu nas mãos dos guerrilheiros. Meses depois, um oficial mandaria desenterrar o corpo do guerrilheiro Rosalindo Souza, o Mundico, desconfiando que fosse o corpo do soldado Valdir. Os dois eram negros e Valdir desaparecera perto do local onde Mundico havia sido enterrado. Uma equipe do Exército foi ao local desenterrar o corpo. Estava quase intacto, com apenas os olhos, orelhas e nariz deteriorados. Os militares levaram só a cabeça, guardada numa lata de bolachas[44]. Romualdo Campos Filho registra que os militares instituíram no Araguaia a prática de cortar a cabeça dos guerrilheiros. Ele cita especificamente a decapitação do guerrilheiro Arildo Valadão, o Ari, através da narrativa de um morador da região, cuja identidade o autor manteve oculta:

 

“O Ari foi morto e quem cortou a cabeça dele foi um guia… eles criavam uma equipe de guias, que se chamavam zebras e eles foi quem faturaram o Ari”[45]

 

Pertinente observar que tais práticas eram novas no Exército e, em muitos sentidos, afrontaram os próprios valores dos militares. Se retroagirmos aos primórdios da civilização grega, nossa raiz cultural, iremos verificar que a figura principal da  Ilíada, Aquiles, o herói maior dentre os grandes heróis, é portador de uma mácula terrível – a de ter ultrajado o cadáver de Heitor, esquecendo o código de honra dos guerreiros e todas as normas da cavalaria[46]. A equipe que foi buscar o corpo do guerrilheiro Mundico foi ainda mais ultrajante. Arrancou-lhe a cabeça.

 

Somente três meses depois da chegada dos agentes do CIE, os guerrilheiros começaram a desconfiar que havia cobras observando seus movimentos. Era um sinal de que estava dando certo as táticas de inteligência militar, nas quais foram utilizados agentes com aparência física similar à dos camponeses e treinados nos costumes cotidianos dos estabelecidos. Em anotação de 20 de agosto de 1973, Velho Mário registrou o seguinte em seu Diário:

 

“Mundico informa que em sua incursão encontrou dois jovens esquisitos, que fixaram residência na área. São pessoas da cidade. Parecem milicos e deram informações contraditórias. É preciso estar atento. O inimigo talvez pretenda instalar toda uma infra-estrutura de informações na região. Na área do Destacamento A foi visto um tipo estranho num Volks, querendo botar roça; outro, igualmente suspeito, pretende fazer um local, e um jovem de S. Domingos anda investigando os moradores sobre suas ligações com a guerrilha”

 

“Na área do Destacamento B apareceram dois ‘mineiros’ querendo formar locais de plantio. Tudo isso nos obriga a reforçar a vigilância e tomar as medidas necessárias para resguardar as FFGG de qualquer golpe. Um amigo de Marabá não acredita que o Exército entre este ano na mata. Nos alerta contra os agentes do INCRA, FUNAI, SUDAM e CEM”[47]

 

Em anotação de 08 de setembro de 1973, Velho Mário registraria que os guerrilheiros também tinham uma boa rede de informantes – numa prova de que haviam conseguido um apoio significativo entre os camponeses da região:

 

“Segundo Osvaldão, o Exército soltou 25 agentes na mata, para nos espionar. Os que forem por nós localizados, serão tratados devidamente”[48]

 

O problema para os guerrilheiros é que não houve tempo de reforçar a segurança. Quando desconfiaram da presença de espiões, registra o Dossiê, praticamente todos os agentes já haviam se infiltrado no cotidiano da guerrilha e as informações relevantes já haviam sido levantadas. Ademais, de acordo com os relatos militares, os guerrilheiros estariam por demais autoconfiantes, relaxando na segurança, aparecendo demais diante da população local, inclusive para fazer bravatas.

 

O Dossiê revela que um agente, disfarçado em “terecoseiro” (benzedor), começou a ser procurado por grupos de guerrilheiros com uma rapidez espantosa em busca de suas rezas. Na entrevistas orais, apurei que outro agente – que mais tarde se destacaria nas operações especiais da Terceira Campanha – foi de tal forma aceito como aliado pelos guerrilheiros, que, após os combates, se infiltrou no PC do B e, quando morreu, já nos anos 1980, foi enterrado com honras, com a bandeira vermelha do partido sobre o caixão.

 

O Dossiê relata também um episódio ilustrativo sobre o cotidiano dos infiltrados, no qual dois agentes disfarçados de posseiros foram abordados pela guerrilheira Dina. No imaginário dos militares, Dina teriam dito que iria matá-los, pois sabia que eram “apoio da tropa”. O Dossiê descreve o episódio:

 

“Os posseiros retrucaram que não conheciam ninguém da tropa e que eram pessoas humildes e trabalhadoras. Dina, no entanto, insistiu que iria matá-los caso não se declarassem ligados à tropa. Os posseiros mantiveram suas negativas. Dina, incontinente, encostou o cano de sua arma na cabeça de um dos posseiros e fez a mesma pergunta, dizendo que era a última vez, novamente obtendo resposta negativa. Dina, então, acionou o gatilho, mas, como ela sabia, a arma estava sem munição. O agente, posteriormente, revelou que após Dina haver acionado o gatilho, sentiu-se morto[49]

 

Após o ocorrido, a guerrilheira Dina – a mais temida pela população local – fez ver aos posseiros que os considerava gente boa. Após isso, por diversas vezes, a guerrilha utilizou a posse para abastecer-se. O outro posseiro, que assistiu à quase morte de seu companheiro, teve que ser retirado da área por ter ficado psicologicamente abalado. Já quase morto permaneceu no local, sozinho, até o final da operação”[50]

 

Ainda existem nos arquivos militares relatórios dos agentes infiltrados, que foram preservados da cremação de documentos que ocorreria ao final da Terceira Campanha. Obtive cópias de alguns deles. Destaco um relatório de oito páginas do CIE, com carimbo de “Secreto”, datado de 11 de setembro de 1973 – um dos últimos da Sucuri, portanto – que consolida os informes de nove agentes, citando nominalmente todos eles. Considero esse documento ilustrativo do modus operandi dos militares naquela operação. Destaco, a seguir, os trechos desse documento que avaliei serem os mais significativos:

 

“4 – Informações e informes colhidos:

a)        Do informante ANTÔNIO NONATO DA SILVA.

–                Em Bom Jesus, soube da presença de terroristas naquela região;

–                Esteve na casa do velho Severino onde houve reunião em que compareceram 7 terroristas. A tônica da conversa foi a não assinatura de documentos para o INCRA, não serem guias para o EB e a ajuda para combater os corruptos. Cinco estavam armados de METRALHADORAS e um com um rifle e outro com uma 20. No mato haviam outros elementos

 

d) DO AGENTE IVAN

–                A 04 AGO, Antônio Meregildo foi caçar com os terroristas passando com os mesmos uma semana;

–                Osvaldo teria dito ao Meregildo que possuem 200 comandantes e que da Transamazônica a Conceicão e ao Xingú existem 1.200 homens. Osvaldo deu uma espingarda ao Antônio Meregildo.

–                Osvaldo disse a Meregildo que está esperando uma turma que vem para ajuda-lo;

–                Antônio Meregildo controu a JULIO que teve um dia que passaram 40 a 50 terroristas pelas bandas da PALESTINA e foram para a mata.

 

f)     DO AGENTE BENJAMIN.

–                Segundo o agente este mesmo grupo esteve na PALESTINA no início do mês. Soube que OSWALDÃO iria entre 7 e 9 de SET em ITAMERIM.

OBS: O Dr. LUCHINI foi ao local e não fez contado com OSVALDÃO.

 

g)  DO AGENTE NONATO.

–                Segundo Cícero, 8 subversivos, inclusive Zé Carlos, apareceram em São José II (entre São José I e Conceição). Cícero mora em Fortaleza. Disseram que não deixarão o INCRA fazer estrada na região de São José e Checa Com Jeito. Se tentarem, receberão bala.

–                Segundo Antônio, morador em São Domingos, os subversivos prometeram pegar o agente Nonato”[51]

 

 

Em um dos trechos desse relatório, em um dos itens da alínea “h”, os militares obtiveram a informação de que o estado de saúde dos guerrilheiros já estava precário. Eles sabiam, por informes anteriores, que os guerrilheiros não tinham sal e a gordura que ingeriam era a de castanha. O informe relata que estavam chegando ao estado de desespero, a ponto de beberem gordura de porco líquida[52]. Eis o trecho:

 

“ALBERTINO disse que o estado de saúde dos terroristas é precário, haja vista que quando estiveram em sua casa (na mesma época que estiveram na nossa posse em ABÓBORA) chegaram a beber banha pura de porco. Tal estado de saúde foi confirmado tampem por nosso agente”[53]

 

Durante as pesquisas, obtive junto aos arquivos pessoais de um militar um dos documentos mais ilustrativos que restaram sobre a Operação Sucuri. Trata-se do original, em seis páginas manuscritas, de um depoimento de um militante do grupo guerrilheiro VAR-Palmares, que os militares prenderam em Brasília e depois o infiltraram por 15 dias entre os guerrilheiros do PC do B no Araguaia prometendo a posterior libertação[54]. Ao retornar a Marabá, em agosto de 1972, o agente infiltrado escreveu sobre o que viu. Abaixo, um trecho no qual ele conta que os guerrilheiros suspeitaram de que ele seria espião:

 

 “Disseram que não levasse a mal a maneira como estavam me tratando, pois estavam numa guerra e que guerra é guerra. Pois se eles forem pegos, que serão tratados ainda pior. Serão torturados e odiados como porcos e não terão o direito de se defender. Enquanto isso, eles interrogam os visitantes e examinam a situação. Mas, se comprovando que o elemento é informante ou espião, eles matam. Mas dão direito de morrer como homem, sem ser espancado nem torturado”[55]

 

De acordo com o oficial que analisou esse documento[56], o relato do informante foi um dos mais ricos produzidos em toda a Operação Sucuri. Permitiu, por exemplo, que os militares avaliassem que os guerrilheiros fariam o justiçamento dos “espiões” ou dos informantes civis do Exército que fossem apanhados por eles. Permitiu, igualmente, mostrar um pouco do imaginário dos guerrilheiros, que até então os militares não conheciam. O militar que analisou o documento destacou cinco pequenos trechos do informe, os mais relevantes para o CIE, de acordo com sua avaliação:

 

“Segundo Amauri[57], eles não vão enfrentar o Exército, pois precisam estruturar e apoiar o próprio povo. Que um choque com as Forças do Exército não adiantaria nada, pois o Exército são centenas de soldados enquanto que eles ainda são uma minoria equivalente ao inimigo que está enfrentando e que jamais desistiria da luta por mais que seja perseguido. Segundo eu pude entender, eles não querem se arriscar que poderá causar sua derrota definitiva”

 

“Que eles vão aniquilar as fontes de espião, informante e assim eles estão aniquilando o próprio Exército”

 

“Estes elementos que estão na lista só estão esperando confirmação para poder justiça-los e neste momento me perguntaram se conhecia o Ivan. Eu disse que não(grifo meu)”

 

“O povo da cidade diz que durante o tempo que o Exército esteve lá, que o povo da mata sai nas casas perto da cidade. Que o povo não contava para o Exército com medo de ser preso espancado e ser obrigado a ir com eles procurar o povo da mata”[58]

 

Esse informe, ainda de acordo com o militar, confirmou junto à direção do CIE de que alguns agentes da Operação Sucuri já estavam prestes a ser descobertos – e que provavelmente seriam justiçados pelos guerrilheiros. Entre eles, o sub-coordenador Ivan, explicitamente citado, que conseguira se aproximar de Osvaldão. Chegara, portanto, a hora de encerrar a operação e iniciar a etapa seguinte – a extirpação completa da guerrilha. Mas os agentes não foram retirados da área. Foram apenas desmobilizados, instruídos a agir com mais cuidado, a não correr mais riscos. Todos eles já estavam previamente escalados para participar da Operação Mesopotâmia, servindo de guias dos grupos que penetrariam na mata para caçar os guerrilheiros. Faltava marcar o dia do desembarque das tropas, o chamado Dia D.

4.4 – O Outro Como Referência

 

Em seus estudos sobre a cultura, Roger Chartier apresenta o conceito de representações do mundo social, ou seja, as mentalidades incrustadas em determinados sujeitos coletivos. Segundo ele, as lutas de representações têm tanta importância quanto as lutas econômicas para compreender os mecanismos pelos quais um grupo se impõe:

 

 “A relação entre a consciência e o pensamento é colocada de uma forma nova, (…) pondo em relevo os esquemas ou os conteúdos de pensamento que, embora enunciados sobre o modo individual, são de fato os condicionamentos não conscientes e interiorizados que fazem com que um grupo ou uma sociedade partilhe, sem que seja necessário explicitá-los, um sistema de representações e um sistema de valores”[59]

 

Nesse sentido, os episódios protagonizados pelos guerrilheiros e pelos militares no conflito do Araguaia são representações de um sistema maior de crenças e valores compartilhados pelos figurantes distintos de uma determinada época, seja na condição de revolucionário, seja na de contra-revolucionário. Para analisar suas próprias ações e reações durante a Guerrilha do Araguaia, os militares até hoje necessitam, antes de mais nada, compreender o imaginário dos guerrilheiros, usar o “outro” como referência ao “nós” – segundo as palavras de Elias – identificar o inimigo para que seja possível a coesão interna e a localização de sua própria identidade.

 

Chama a atenção a forma como os autores do Dossiê iniciam seu próprio capítulo sobre a Operação Sucuri – transcrevendo o contra-imaginário do inimigo. Lembram os autores que o comandante em chefe das Forças Guerrilheiras, Maurício Grabois, o Velho Mário, escreve em seu Diário que, descoberta a guerrilha pelo governo, o principal trabalho dos guerrilheiros passou a ser “ganhar” a população local para a causa[60]. Com a retirada da tropa fardada, primeiro em fins de maio de 1972, depois novamente em outubro, segundo Velho Mário, os guerrilheiros se sentiram em condições de realizar um trabalho de massa ostensivo, o que nunca haviam feito desde 1966, para não quebrar o sigilo. O Dossiê transcreve, por exemplo, o que o comandante escreveu em seu diário, em anotação de 14 de agosto de 1973, quando a Operação Sucuri estava em seu ápice:

 

“Nossos maiores êxitos estão no trabalho de massa. Desse trabalho depende a maior parte das vitórias da guerrilha. Hoje, já é difícil fazer uma estatística do trabalho de massa, tal o seu crescimento entre os camponeses. Conseguimos dezenas de amigos firmes. Organizamos mais de 100 núcleos da ULDP. Conseguimos ligações em corrutelas. Alimentar os guerrilheiros é, para as massas, quase uma lei. Realizamos trabalho físico juntamente com as massas. A opinião pública da região está ao lado das forças guerrilheiras”[61]

 

Esse “trabalho de massas”, na avaliação feita no Dossiê, só teria facilitado o trabalho dos agentes da repressão. Prosaica a observação, posto que o apoio das massas só veio a ajudar os guerrilheiros a resistir por mais tempo no Araguaia – e prolongar o trabalho de repressão militar. Documento do CIE – a supracitada aula sobre a Operação Sucuri ministrada a oficiais de inteligência do Exército -, registra uma análise sobre as condições “psico-sociais” da região da guerrilha. Esse documento revela que os militares encontraram no Araguaia uma população oprimida por uma Polícia Militar corrupta, onde até as prostitutas, segundo o documento, eram obrigadas a pagar taxas mensais para financiar festas dos agentes do Estado. Enfim, quando as Forças Armadas se retiraram pela segunda vez da região, explica o documento, deixaram para trás um “fértil campo” para a atuação dos guerrilheiros, os “verdadeiros amigos” da população:

 

“A população vê, naquele que lhe presta auxílio, graciosamente, um verdadeiro amigo, passando a apoiá-lo por gratidão, não importando suas tendências ideológicas. Os ‘verdadeiros amigos’ aumentavam de importância quando era comparada sua correção no trato com as pessoas humildes e a Polícia Militar do Pará que espancava posseiros e que, em atendimento a pedidos dos grandes proprietários de terra, os expulsava de suas glebas. A PM, corrupta, era considerada inimiga. Obrigava, inclusive, o povo a pagar uma taxa quando era realizada alguma festa. Nem as prostitutas escapavam, também elas eram obrigadas a pagar uma taxa mensal. Tudo isso se tornava muito fértil para os desígnios dos subversivos”

 

“Ocorria na área, de modo endêmico, a malária e a leishmaniose. Alguns casos de lepra foram destacados, além de verminose e carência vitamínica em abundância. A rede hospitalar deficiente, aliada a inexistência de médicos e dentistas, deixava a maioria da população, que era sem recursos, entregue à própria sorte. As baixas sofridas pelos subversivos deixaram inúmeras pessoas preocupadas, uma vez que não teriam mais a assistência médica que lhe proporcionavam. Após as operações realizadas em setembro de 72, a população, de uma maneira geral, ainda mostrava-se incrédula quanto aos verdadeiros objetivos dos terroristas. O tratamento que lhe fora dispensado pelos ‘paulistas’ quando se sentiram totalmente desamparados pelos órgãos governamentais, levava a que muitos moradores não compreendessem como gente tão boa e simpática pudesse ser alvo de ação da tropa. Há mais ou menos cinco anos conviviam com eles e só tinham palavras gentis e de admiração para descrevê-los”

 

“Conclusão: Os aspectos acima abordados permitiram-nos concluir que a área proporcionava aos guerrilheiros um fértil campo para suas atuações. Após a retirada da tropa da área, ela ficara à mercê da FOGUERA [Forças Guerrilheiras do Araguaia]. Os mateiros que haviam, por dinheiro, guiado as frações da tropa se preocupavam com o que lhes aconteceria. A execução de um mateiro, levou alguns ao desespero, fazendo-os abandonar a floresta, homiziando-se em Xambioá”[62]

 

Em Imaginação Social, Baczko questiona se um conflito social grave qualquer, uma guerra ou uma revolução, por exemplo, se “não serão as imagens exaltantes e magnificentes dos objetivos a atingir e dos frutos da vitória procurada uma condição de possibilidade da própria ação das forças em presença?”. É o próprio Baczko quem responde:

 

“Como é que se podem separar, neste tipo de conflito, os agentes e os seus atos das imagens que aqueles têm de si próprio e dos inimigos, sejam estes inimigos de classe, religião, raça, nacionalidade, etc? Não são as ações efetivamente guiadas por estas representações; não modelam os comportamentos; não mobilizam elas as energias; não legitimam elas as violências?”[63]

 

Como se comprovou posteriormente, os guerrilheiros não tinham, além do entusiasmo, estrutura que lhes permitissem sobreviver e lutar por mais tempo ao término da Segunda Campanha. Com pouca munição e com um contingente humano muito aquém do necessário para instaurar a “revolução socialista”, como acreditavam, não havia possibilidade de sucesso. Mas não houve, nem por parte da direção do PC do B, ou da comissão militar da guerrilha, intenção de desmobilizar a guerrilha na região do Araguaia. Pelo contrário, os guerrilheiros cantaram vitória. Acreditaram que as Forças Armadas não conseguiriam combater o que o comandante Mário (Maurício Grabois) chamou em seu diário de “inimigos invisíveis”. Ademais, o sonho de promover uma revolução socialista, o imaginário revolucionário, falou mais alto.

 

Afirmam os militares no Dossiê Araguaia que, além das ações para conquistar o apoio da população, as Forças Guerrilheiras teriam também se aproveitado da aparente ausência do Exército para implantar um verdadeiro “regime de terror” na região, ameaçando os simpatizantes do governo e promovendo execuções sumárias contra colaboradores do Exército. O Dossiê tece longas análises sobre os justiçamentos – afinal, esses atos de exceção dos guerrilheiros são o principal argumento de defesa dos militares para os atos que eles cometeriam na Terceira Campanha. Eis alguns trechos:

 

“Quando foi estruturada a Comissão Militar para coordenar o movimento guerrilheiro no Araguaia, foi ativado um Tribunal Revolucionário para julgar os inimigos do povo e aqueles e fraquejassem. Teria condições, aquele povo sofrido, quase analfabeto, sofrendo pressões de toda ordem e praticamente abandonado pelo Estado, de dar procuração para que em seu nome a guerrilha justiçasse pessoas que haviam colaborado com o Exército?”

 

“Aquele povo procurava sobreviver em condições precárias e qualquer tipo de ajuda era benéfica para sua sobrevivência. Se aparecesse alguém dando ajuda mais sólida, esse alguém seria eleito. As Forças Armadas ajudaram muito em 1972 e a grande maioria dos moradores da região ajudou as Forças Armadas contra a guerrilha. Eles não eram oportunistas. Apenas lutavam para sobreviver numa região inóspita”

 

“A violência praticada pelos guerrilheiros contra membros da população quando avaliaram ter vencido o Exército se tornou o ‘calcanhar de Aquiles’ do PC do B. Eles fazem questão de sustentar o papel de vítimas para o público geral, eles fazem de tudo para omitir os justiçamentos contra camponeses, tentam acobertar o fato de que, eles também, atuaram como bárbaros. Esse é o ponto mais sensível que a esquerda derrotada não quer admitir: que seus membros, da mesma forma que alguns militares, cometeram violações contra os direitos humanos”[64]

 

O que se sabe, afinal, sobre os justiçamentos que os militares acusam os guerrilheiros de terem cometido? Sobre esse tema, há alguns poucos fatos documentados. Uma das primeiras medidas tomadas pelos guerrilheiros quando os militares se retiraram da região pela primeira vez, ainda em julho de 1972, foi instaurar um Tribunal Revolucionário permanente para capturar e julgar os supostos inimigos e traidores. Entre os documentos que restaram nos quartéis, há cópias do “Regulamento da Justiça Militar Revolucionária”. Trata-se de um pequeno documento de três páginas datilografadas em 86 linhas, organizado em 20 artigos e quatro capítulos. Sobre as penalidades, o regimento do Tribunal Revolucionário regia, no artigo16, apena de fuzilamento em quatro dos seis crimes previstos. Os militares insistem em argumentar, tanto no Dossiê quanto em todas – absolutamente todas – as narrativas orais, que foram os justiçamentos que teriam movido a cometer atos de exceção na derradeira campanha.

 

O primeiro justiçamento teria sido contra um adolescente de 16 anos, João Pereira, filho do camponês José Pereira. Foi esse adolescente quem levou o primeiro grupo de militares a um dos esconderijos dos guerrilheiros, por ordem do pai, ainda em março de 1972. Em meados de julho de 1972, portanto logo após a Primeira Campanha, ele teria sido julgado por quatro guerrilheiros[65], membros do Tribunal Revolucionário, espancado e na seqüência executado a golpes de facão. O Relatório Arroyo confirma o “justiçamento” do jovem, sem detalhar a forma de sua morte[66]. Depois do episódio, segundo os militares, Pereira teria ficado com medo dos guerrilheiros e levado a família para longe do Araguaia.

 

Velho Mário não registrou esse justiçamento em seu Diário. Arrroyo registrou apenas o justiçamento, mas sem explicitar se teria sido fuzilamento, conforme prevê o Regulamento do Tribunal Revolucionários, ou a golpes de facão, como acreditam os militares. Mas considero importante registrar esse possível episódio, visto que o possível justiçamento de um adolescente inocente, a golpes de facão, com métodos bárbaros – verídico ou fantasioso, não importa – acabou se tornando um fato significativo no imaginário das tropas do Exército. Quando as tropas fardadas retornaram para a Segunda Campanha, eram doutrinadas para acreditar que estavam diante de um inimigo perigoso – e não de meros estudantes com idéias subversivas – que matava soldados pelas costas, como foi o caso do cabo Rosa, um inimigo capaz de executar barbaramente um jovem camponês que guiou militares por ordem do pai. Enfim, o possível justiçamento do garoto João Pereira ajudou a reforçar o imaginário repressor militar na guerrilha.

 

Em seu relatório, há três décadas de domínio público, o comandante Ângelo Arroyo, segundo homem na hierarquia da guerrilha[67], tocou en passant nesse tema delicado para as esquerdas brasileiras – mas o suficiente para se saber que existiram de fato os justiçamentos no Araguaia. Arroyo registrou em seu relatório que considerou “uma deficiência de certa importância o não justiçamento de determinados inimigos”[68]. Contudo, o comandante Maurício Grabois, no Diário do Velho Mário descreve o assunto com menos cuidado. Grabois mistura informações sobre o cotidiano da guerrilha com o imaginário jacobino dos guerrilheiros. Há quatro trechos sobre “justiçamentos”, e todos eles foram transcritos pelos militares para o Dossiê Araguaia.

 

Ressalto, contudo, que nenhum dos registros do comandante Mário refere-se a pobres camponeses e desprotegidos posseiros, como os militares costumam se referir aos justiçados. Mas Velho Mário deixa explícito que os guerrilheiros avançaram com o Tribunal Revolucionário contra pistoleiros de aluguel – que trabalhavam a soldo de grandes fazendeiros e grileiros – e contra mateiros, chamados na região de “bate-paus”, que guiaram os militares nas campanhas anteriores. Em suas anotações, Velho Mário primeiro relata que o Destacamento A saiu para “justiçar” um mateiro, cujo nome não foi registrado, mas sua vida acabou sendo poupada[69]. Dias depois, ocorreria novo “justiçamento” na Guerrilha – e o primeiro registrado em documento – desta vez de um morador conhecido por Pedro Mineiro. Foi acusado de ser pistoleiro de um latifundiário da região, chefe dos jagunços que teriam matado vários camponeses e pequenos sitiantes[70].

 

Velho Mário também relata que, em julho, os guerrilheiros promoveram um terceiro “justiçamento”, desta vez contra um camponês de nome Osmar, um ex-colaborador que, desconfiavam os guerrilheiros, teria passado para o lado dos militares. Nesse caso, considero relevante transcrever o que relata o Diário sobre a morte de Osmar:

 

”14/07/73- Outro grupo do DC liquidou o Osmar. Na ação só intervieram dois combatentes. Esse indivíduo, velho conhecido do Osv [Osvaldão] e seu grande admirador, era excelente mariscador e exímio conhecedor da mata. (…) O jovem mateiro prontificou-se a ajudar no mais que pudesse e chegou a dizer que ingressaria nas FF GG. Quando nossos combatentes, depois da campanha do Exército, de setembro-outubro de 1972, voltaram à área da Palestina, Osmar mudara de atitude. Em sua casa acamparam 180 pára-quedistas da Guanabara. Tornara-se amigo do capitão e serviu de guia para os soldados, recebendo 25 cruzeiros por dia e comida. Vestiu o uniforme de camuflagem (chitão, como o chama a massa), mas não recebeu armas. Andou pela mata durante 12 dias. No entanto, disse ao Osv. que fora obrigado a isso e que continuava amigo. (…) Era evidente que estava fazendo jogo duplo, mostrando ser uma pessoa sem caráter. (…) O homem representa, assim, um perigo. Conhecia a selva como a palma da mão. O jeito mesmo era acabar com ele”[71]

 

Nas entrevistas orais com três militares[72], descobri que o camponês Osmar havia se transformado em compadre de Osvaldão, quando o guerrilheiro batizou um dos filhos do camponês. Os militares me narraram que por volta de junho de 1973, foi aberto um pequeno comércio nas imediações da casa de Osmar. O comerciante mostrava-se simpático à causa guerrilheira. Fornecia mantimentos com um bom desconto aos guerrilheiros, quase a preço de custo. Certo dia arrumou de graça um pneu usado para que Osvaldão fizesse sandálias com solado de borracha. Também encontrava sempre um jeito de conseguir munição para Osvaldão, apesar do cerco dos militares. O comerciante identificou-se pelo nome de Ivan. Era agente do CIE, um dos sub-coordenadores de área da Operação Sucuri.

 

Quando os guerrilheiros começaram a desconfiar que haveria um traidor entre os camponeses, Osvaldão teria logo decretado: “Não pode ser o Ivan, ele é nosso”. Acabaram concluindo que o traidor seria o compadre Osmar. Segundo os militares, Osmar jamais os teria ajudado espontaneamente, e todas as vezes que ajudou o Exército, o teria feito intimidado. Quanto a Ivan, era o sargento Joaquim Artur Lopes de Souza, que assistiu ao “justiçamento” do camponês e depois relatou o episódio aos superiores. Osvaldão foi apanhado meses depois por um grupo de militares que seguia pegadas de uma sandália de pneu com frisos iguais aos do pneu que Ivan lhe deu de presente naqueles dias de julho de 1972. O Dossiê relata esse episódio, mas sem revelar quem era o agente:

 

“(..) um dos agentes adquiriu tal grau de confiabilidade da liderança guerrilheira local, que esta, desconfiada de que alguém, no local, passava informações para a tropa, matou seu próprio compadre, companheiro de todas as horas, na presença do agente”[73]

 

Em seus estudos sobre a cultura, Hommi Bhabha explica que toda vez que há choques de culturas, o encontro num mesmo espaço de valores distintos, ocorre uma “negociação” entre os diferentes atores sociais. Bhabha conceitua esse encontro como o “espaço do povo”, a “localidade da cultura”. No caso do Araguaia, da negociação entre três culturas e valores distintos, desse espaço tensionado entre camponeses, guerrilheiros e militares, produziu-se um “entrelugar”, segundo a definição de Bhabha:

 

“Essa localidade (da cultura) está mais em torno da temporalidade do que sobre a historicidade: uma forma de vida que é mais complexa que ‘comunidade’, mais simbólica que ‘sociedade’, mais conotativa que ‘país’, menos patriótica que ‘patrie’, mais retórica que a razão de Estado, mais mitológica que a ideologia, menos homogênea que hegemonia, menos centrada que o cidadão, mais coletiva que ‘o sujeito’, mais psíquica do que a civilidade, mais híbrida na articulação de diferenças e identificações culturais do que pode ser representado em qualquer estruturação hierárquica ou binária do antagonismo social”[74]

 

O episódio que envolveu o camponês Osmar, o guerrilheiro Osvaldão e o agente Ivan, mostrou que os militares, com suas táticas de inteligência reinventadas, haviam conseguido se infiltrar nesse “entrelugar” conceituado por Bhabha. Afinal, Ivan continuava vivo; Osmar estava morto. O Tribunal Revolucionário promoveria uma quarta execução, em agosto daquele ano, contra o guerrilheiro Rosalindo Cruz Souza, o Mundico. Sobre as ações, tanto dos revolucionários como dos militares, vale lembrar as palavras de Arendt:

 

“É a mais pura verdade que tanto em ações militares como nas revolucionárias, o individualismo é o primeiro valor a desaparecer; e, em seu lugar encontramos uma espécie de coerência de grupo que é sentida mais intensamente e dá provas de ser um vínculo mais forte, ainda que menos duradouro, que qualquer variedade de amizade civil ou particular”[75]

4.5 – A Era dos Extremos

 

Quando escrevia A Era dos Extremos[76], no início da década de 1990, o historiador egípcio Eric Hobsbawm pediu ao filósofo teuto-britânico Isaiah Berlin que lhe apresentasse um olhar panorâmico sobre o Século XX. Berlin, que viveu a maior parte do século, disse: “Lembro-o apenas como o século mais terrível da história”[77]. A idéia central de Hobsbawm expressa nessa obra é a de que o século XX teria sido um dos mais curtos da história. Teria começado em 1914, com a Primeira Guerra – que assinalou o colapso da civilização ocidental construída pela Revolução Industrial, uma civilização capitalista, liberal e burguesa – e terminado na virada das décadas de 1980-1990, marcado pelo colapso do bloco soviético:

 

“O mundo que se esfacelou na década de 1980 foi o mundo formado pelo impacto da Revolução Russa de 1917. Fomos todos marcados por ela, na medida em que nos habituamos a pensar na moderna economia industrial em termos de opostos binários, ‘capitalismo’ e ‘socialismo, como alternativas mutuamente excludentes. (…) Agora já deve estar ficando evidente que essa oposição era uma construção arbitrária e em certa medida artificial, que só pode ser entendida como parte de um determinado contexto histórico”[78]

Esse breve século XX teria sido a “Era da Catástrofe” produzida pelo próprio homem, nas palavras de Hobsbawm, edificado sobre incertezas, extremos e crises. Matou-se mais seres humanos do que em qualquer outra época. Durante o período histórico da Guerra Fria, os conflitos ideológicos entre marxistas e as Forças Armadas na América Latina teriam provocado 150 mil mortos, principalmente em Cuba, Argentina, Peru e Chile[79].

 

No mesmo período, no Brasil, o regime militar – entre 31 de março de 1964 e 15 de março de 1985, quando tomou posse um governo civil -contabiliza o total 480 mortos e desaparecidos, nos dois lados da luta. Do lado dos guerrilheiros, vítimas da repressão das forças oficiais, são 381 mortos ou desaparecidos[80], incluindo as vítimas cujas mortes ainda geram polêmica, como a da estilista Zuzu Angel, símbolo da resistência civil não-marxista à ditadura militar[81]. Entre baixas militares e vítimas civis são, no máximo, 99 pessoas, mortos em decorrência das ações guerrilheiras nas cidades e no campo[82]. Na Guerrilha do Araguaia, foram 94 mortos: 85 guerrilheiros e camponeses, do lado dos rebeldes, e cinco militares e quatro mateiros, do lado das forças oficiais[83].

 

Diante de uma leitura exclusivamente contábil, são aparentemente insignificantes os resultados dos conflitos sociais e embates bélicos brasileiros, especialmente se comparados aos números de outros extremos ideológicos ocorridos no século XX, como os regimes de Hitler e de Stalin. A Argentina, por exemplo, produziu 20 mil mortos e desaparecidos políticos em uma população de 25 milhões[84]. Para que a “guerra suja” brasileira tivesse a mesma proporção catastrófica, seriam necessárias 72 mil vítimas[85], e não 480.

 

Ocorre que a luta ideológica brasileira pós-64 foi uma das mais violentas na América Latina. Implacável. Uma “guerra suja”, termo usado até hoje pelos próprios militares, da qual a população brasileira ficou isolada pela providencial censura à imprensa. A rigor, não houve necessidade de envolver o corpo inteiro das Forças Armadas, o grosso da tropa, especialmente os recrutas temporários. Como já relatado ao longo desta pesquisa, bastou criar um pequeno corpo de elite, o aparelho de repressão formado por militares e auxiliares civis – a Comunidade de Informações -, que terminou por se tornar, ela própria, uma facção extremista dentro das Forças Armadas.

 

Enfim, o que se viu não foi uma guerra civil clássica, um embate militar entre Forças Armadas e forças populares organizadas, mas ações de guerrilha e contra-guerrilha travadas entre pequenas facções de esquerda e o aparelho de repressão militar[86]. O que ocorreu entre esses poucos milhares de atores, tanto na guerrilha urbana brasileira, quanto na guerrilha rural do Araguaia, nas batalhas travadas pelo comandante Zé Carlos, pela subcomandante Dina ou pela guerrilheira Sônia, por exemplo, chama a atenção pelo jacobinismo extremado e a violência assustadora. Os documentos remanescentes da Operação Sucuri, assim como os relatos de Velho Mário em seu Diário, corroboram com essas assertivas.

Os militares da Comunidade de Informações alegam em sua defesa que a guerra seria reciprocamente suja, que nenhum dos lados fazia prisioneiros e aqueles que fossem apanhados seriam sumariamente executados. Essa regra, segundo eles, valeria tanto para os militares quanto para os guerrilheiros; seria clara e do conhecimento geral. Os militares acreditavam que quase todo guerrilheiro urbano sabia, por exemplo, que se apanhado, seria torturado e que teria que resistir por exatas 48 horas, tempo necessário para que os companheiros pudessem fugir de seus esconderijos. Isso porque, a cada 48 horas, os militantes na clandestinidade faziam algum tipo de contato com um companheiro – chamava-se “ponto”. Depois desse período, não seria mais necessário resistir à tortura, estavam liberados para contar tudo o que sabiam.

 

Se preso no Rio de Janeiro ou São Paulo, foco principal da guerrilha urbana, as chances de ser torturado eram praticamente totais[87]. Se preso em público, especialmente entre civis, provavelmente seria torturado, contudo,é quase certo, sobreviveria. Se preso sem testemunhas, provavelmente entraria para as estatísticas do desaparecidos. Banido, jamais voltava. Se voltasse, desapareceria. Se preso no Araguaia, da Primeira Campanha, todos retornaram com vida. Da Segunda, não se chegou a fazer prisioneiros – mas tecnicamente morreram todos em combates na mata. Da Terceira Campanha, nenhum prisioneiro retornou com vida.

 

Outra questão que intriga no Araguaia é compreender por que, afinal, os guerrilheiros não bateram em retirada quando ficou claro que seria impossível vencer o Exército. Após a retirada do Exército ao final da Segunda Campanha, pode-se dizer que tenham cometido um erro de avaliação. Mas depois, a partir de meados de 1973, eles já tinham informações suficientes para desconfiar de que o Exército infiltrara “espiões” – “espias”, como os guerrilheiros chamavam os agentes – e que, obviamente, preparava uma nova ofensiva. Por que, afinal, não bateram em retirada para outra região? Só a força do imaginário de esperança de transformações do País, de luta por justiça e igualdade social, pode explicar porque, afinal, eles optaram pela imolação quase certa em nome dos sonhos revolucionários. As reflexões são de Hannah Arendt:

 

“De todos os igualadores, a morte parece ser o mais poderoso, pelo menos nas poucas situações extraordinárias em que se pode desempenhar um papel político. A morte, quer seja encarada como ato de morrer ou como a consciência íntima da própria mortalidade, é talvez a experiência mais antipolítica que existe. Significa que vamos desaparecer do mundo das aparências e vamos deixar a companhia dos companheiros humanos, que são as condições de qualquer política. No que diz respeito à experiência humana, a morte indica solidão e impotência extremas. Mas encarada coletivamente na ação, ela muda de aspecto: agora nada parece intensificar mais nossa vitalidade que sua proximidade. Uma morte leva consigo a imortalidade potencial do grupo ao qual pertencemos  e, em última análise, da espécie, se desloca para o centro da nossa experiência. É como se a própria vida, a vida imortal da espécie, nutrida, de certo modo, no contínuo morrer de seus indivíduos membros, se ‘expandisse mais e mais’, se realizasse na prática da violência”[88] (grifos meus)

 

A subcomandante Dina, por exemplo, ao ser presa e levada para um interrogatório em Marabá, transmitia aos militares a impressão de certo regozijo com sua iminente imolação. Eis o depoimento de um dos militares que a interrogou:

 

“Ela estava debilitada, magra, passara quase um ano sem comer gordura ou açúcar. Mas parecia altaneira no seu espírito, convicta do que fazia. Tanto é que ela disse que a morte dela seria uma coisa natural, porque se a deixassem viva, ela mataria a gente também. Tenho certeza de que ela morreu honesta com seus pensamentos”[89]

 

O radicalismo daqueles anos de chumbo valia tanto para a guerrilha rural quanto para a urbana. Alfredo Sirkys, ao longo de Os Carbonários[90], deixa explícito o cotidiano de violência daqueles tempos. Relata, entre outras histórias, o episódio no qual o capitão Carlos Lamarca matou um guarda civil, durante assalto a banco em São Paulo, com um tiro na testa e outro na nuca. Depois, durante um treinamento guerrilheiro no Vale do Ribeira, prendeu e determinou a execução de um tenente da PM, que teve a cabeça estourada com uma série de golpes de coronha de fuzil. O tenente não oferecia resistência e o episódio chocou a esquerda na ocasião. Alfredo Sirkys relata detalhadamente o diálogo que manteve com Lamarca quando lhe cobrou a execução, em especial a forma cruel com que foi realizada. “Era ele ou nós”, justificou Lamarca[91]. Mais tarde, Sirkys relata, o grupo sentiu necessidade de “legalizar” o fato “como um (duvidoso) ato da Justiça Revolucionária”, soltando o seguinte comunicado:

 

 

“A sentença de morte de um Tribunal Revolucionário deve ser cumprida por fuzilamento. No entanto, nos encontrávamos próximos ao inimigo, dentro de um cerco que pôde ser executado em virtude da existência de muitas estradas na região. O Tenente Mendes foi condenado e morreu a coronhadas de fuzil, e assim o foi, sendo depois enterrado”[92]

 

 

Os militares que entrevistei para esta pesquisa, todos eles, sem exceção, em depoimentos formais gravados ou em conversas informais, ao serem indagados sobre os excessos da Forças Armadas no Araguaia, especialmente sobre as execuções de prisioneiros na Terceira Campanha, tentaram justificar as mortes como uma resposta à violência inicial dos guerrilheiros. Ora lembram que foram os militares os primeiros a morrer, ora adjetivam os guerrilheiros como fanáticos e extremistas. A principal justificativa que utilizam, contudo, são os justiçamentos cometidos pelos guerrilheiros. No Dossiê Araguaia, seus autores vão pelo mesmo caminho. Justificam, a todo tempo, a violência dos militares como sendo uma reação à violência dos guerrilheiros. O ex-ministro do regime militar e ex-senador Jarbas Passarinho, um dos raros militares a falar publicamente sobre os assuntos controversos de seu tempo, assim justifica as ações do Exército no Araguaia:

 

“Dos guerrilheiros não se diz que, empolgados pelo comunismo que avançava no mundo, pretendiam tomar o poder pela força. Para quê? Para edificar a democracia? Ou, adeptos fervorosos de Stalin, admiradores de Fidel (em cuja ilha foram treinados mais de 200 brasileiros para matar outros brasileiros), erigir uma ditadura, esta, sim, totalitária, nos moldes da que esmagou as liberdades na União Soviética por 72 anos? Que o suposto grupo de esfarrapados, um ‘exército de Brancaleone’, estava bem armado, muito bem adestrado, com excelentes atiradores, que resistiram por vários anos às tropas legais e nelas fizeram mortos e feridos?”[93]

 

Esse é o discurso público: “matamos porque eles matavam”, “matamos porque eles mataram primeiro”, “matamos antes deles nos matar”. Contudo, avalio que existisse muito mais do que esse pretenso instinto de autodefesa nas atitudes dos militares no Araguaia. Havia, sobretudo, a força do imaginário pautado na defesa da nação contra o comunismo, da manutenção da ordem social, dentre outros. Os militares também foram levados a agir com violência acima do necessário por conta um imaginário de exaltação ao Brasil, impulsionados pelos valores positivistas de dever cego para com a pátria, de acreditar que se a pátria fosse algum dia ultrajada lutariam com fervor[94].

 

 

            4.6 – A Reinvenção do Fratricídio

 

Na exata terminologia militar, o que ocorreu na região do Araguaia entre 1972 e 1974 foi uma “guerra não-regular insurrecional”. Guerras não-regulares são registradas pelos historiadores desde Aníbal, o grande general de Cartago, que ousou entrar na Península Itálica com seu invencível exército de elefantes encouraçados, venceu sucessivamente os exércitos de três cônsules romanos  e só foi contido quando o Fábio aplicou uma nova tática militar, de fustigação e fuga, evitando o confronto direto e procurando esgotar as forças físicas e morais do inimigo superior[95]. Na Europa, a terminologia para esse tipo de tática é “guerra de partisans”. A expressão origina-se dos “partis” de guerra, da França medieval, com soldados recrutados para fazer incursões especiais de espionagem, sabotagem ou terrorismo em países estrangeiros. Por longo tempo, as guerras de partisans foram consideradas menores, mas ao longo do Século XX, notadamente após a vitória de Mao Tse Tung na China, consagraram-se como de inquestionável eficácia.

Os termos “guerrilha” e “guerrilheiros” surgiram no início do Século XIX, quando 200 grupos de partisans espanhóis se organizaram para resistir à invasão de Napoleão[96]. Pode-se afirmar, portanto, que “guerrilheiro” é a tradução ibérica de partisan. Na Primeira Guerra Mundial, Lawrence da Arábia ganharia prestígio mundial ao transformar tribos de beduínos nômades em disciplinados partisans, que acabaram por derrotar os exércitos turco e alemão no Oriente Médio[97]. Logo depois, no Brasil, a Coluna Prestes e seus partisans jamais derrotados pelas tropas da Velha República, também seria cantada em verso e prosa em todos os cantos do planeta.

 

Na Segunda Guerra, depois de derrotado no front regular, Stalin tentaria deter os exércitos de Hitler basicamente com bandos de partisans[98]. Os alemães então sofreram severas perdas humanas e viram interrompidas suas principais linhas de abastecimento – e o prestígio dos partisans espalhou-se pela Europa. As táticas de guerra não-regular multiplicaram-se em todos os fronts, na Grécia, Sérvia, França, Itália, Noruega. A reação dos alemães foi criar os “comandos de caça”, os Jagdkommandos, seus próprios partisans, e elaborar um detalhado manual de campanha para orientar as unidades do Exército a agir diante desses grupos não-regulares. Os comandos alemães eram formados por homens escolhidos a dedo, caçadores, intérpretes, guardas florestais. Eles se vestiam e agiam como se partisans também fossem, jamais como soldados. Dava-se também extrema importância às ações psicológicas e de propaganda para conquistar o imaginário das populações locais.

 

Ressalte-se que, deste então, o manual e as táticas alemães têm sido fonte de inspiração dos Exércitos de todo o mundo na elaboração dos planos de combate a grupos guerrilheiros. Quando o Exército francês teve que combater o vietcongs na Indochina, e na seqüência enfrentou os separatistas na Argélia, de início fez uso do manual alemão e criou seus comandos de caça aos partisans. Logo a seguir o Exercito encarregou o coronel Gabriel Bonnet de organizar o seu próprio manual antiguerrilha, reproduzido em todo o ocidente sob o título Guerras Insurrecionais e Revolucionárias.

 

Quando as Forças Armadas brasileiras se viram diante de grupos guerrilheiros na região do Araguaia, a doutrina militar, a estratégia de guerra e as táticas de combate já estavam quase todas prontas, estudadas nas Academias desde a década de 1950. Já se havia estudado as táticas dos guerrilheiros espanhóis, da Coluna Prestes, dos partisans soviéticos dos Jagdkommandos alemães. Haviam estudado, sobretudo, o manual anti-guerrilha de Bonnet. Só que, até o Araguaia, o Exército Brasileiro jamais havia enfrentado a situação catastrófica de ser obrigado a aplicar na prática aquilo que era ensinado na teoria – o fratricídio, único substantivo que considero capaz de classificar uma guerra civil. O livro de Bonnet foi a principal fonte de inspiração dos oficiais que planejaram a Operação Sucuri e, na seqüência, desencadeou o ataque final às Forças Guerrilheiras do Araguaia. Poucas adaptações tiveram que ser efetivadas.

 

Professor Azambuja, um dos militares responsáveis pela organização e redação final do Dossiê Araguaia, durante a confecção do trabalho, terminou por criar o seu próprio manual antiguerrilha. Foi incorporado ao Dossiê, já como primeiro capitulo, batizado de “Fundamentos Doutrinários”, onde se faz uma longa dissertação sobre o tipo de guerra que encontraram no Araguaia (“Guerra Irregular”, classificaram), a definição do inimigo que combateram (“Rebeldes”), as táticas empregadas por esse inimigo (“Fustigação”), as vantagens e desvantagens que eles tinham sobre as forças oficiais e, por fim, o modus operandis que as “Forças Contra-Rebeldes” deveriam empregar para combater e aniquilar os “rebeldes”.

 

Ao revelar no Dossiê os “Fundamentos Doutrinários” que nortearam os militares na Guerrilha do Araguaia, o militar terminou por produzir o primeiro manual antiguerrilha brasileiro – pelo menos é o primeiro documento sobre o tema, preparado pra se tornar público. Para elaborá-lo, ele se baseou em documentos secretos ou reservados das Forças Armadas, que na ocasião apresentaram os “fundamentos doutrinários” aos militares que deveriam combater a guerrilha. Também se baseou nos fundamentos da guerra popular prolongada, escrito por Mao Tse-Tung, na Teoria do Foco Guerrilheiro, de Régis Debray, e no Minimanual do Guerrilheiro Urbano, de Carlos Marighella. Naturalmente, a redação foi em grande parte fruto do próprio imaginário que o autor tinha (e que ainda tem) sobre quem eram os inimigos que os militares combateram – e como deveriam aniquilá-los. Chamo a atenção para um trecho:

 

“Esse é o principal  problema que o Estado de Direito enfrenta ao combater o inimigo na Guerra Irregular. No Estado de Direito existem dois tipos de pessoas: o cidadão correto e o criminoso. O terceiro tipo de pessoa, aquele que conduz uma Guerra Irregular, não existe. Aqueles que promovem uma Guerra Irregular não conhecem quaisquer obrigações, pois nada os submetem à obediência da lei civil e nada há que os submetam às leis da guerra. Em contraposição, o Estado de Direito é submetido em todos esses aspectos. (…) Em suma, a Guerra Revolucionária é uma guerra suja e nela são empregados todos os meios. Até mesmo os legais”[99]

 

Em outro trecho desses “Fundamentos Doutrinários”, os autores do Dossiê apresentam uma síntese da “doutrina” que norteou os militares na Guerrilha do Araguaia:

 

“A Guerra Revolucionária, todavia, constitui uma exceção às Leis da Guerra, pois tem normas especiais, diferentes daquelas relativas às guerras convencionais e também porque a maior parte das regras aplicáveis para um lado não é válida para o outro. É como numa luta entre uma mosca e um elefante: a mosca não pode aplicar um golpe fulminante e nem o elefante pode voar. Na Guerra Revolucionária, onde um dos lados é o rebelde e o outro o contra-rebelde, não são válidas as Leis da Guerra. Nesse tipo de guerra, os serviços de inteligência e o apoio da população são fundamentais”

 

“Objetivo primeiro do rebelde é conquistar a população. O rebelde busca levar a luta para um terreno diferente daquele em que é travada a guerra convencional, onde ele terá melhores possibilidades de equilibrar suas desvantagens físicas. Esse terreno é a população. Se o rebelde consegue obter seu apoio ativo, vencerá a guerra”

“A Guerra Revolucionária é uma guerra política. Na guerra convencional, a ação militar, a diplomacia, a propaganda e a pressão econômica, são os principais meios de atingir a meta visada. Na Guerra Revolucionária, contudo, o objetivo principal é a população e as operações destinadas a conquistá-la ou, pelo menos, mantê-la passiva. No entanto, é tão complexa a interação das ações políticas com as ações militares que elas não podem ser claramente separadas entre si. Os rebeldes, conduzidos por um partido e cujas forças armadas são os militantes do partido, desfrutam de uma óbvia vantagem sobre seu oponente. Mais ainda: nenhuma Academia militar ensina aos cadetes como “ganhar” uma população politicamente”

 

“Pouca utilidade tem para o contra-rebelde as forças pesadas e sofisticadas destinadas à guerra convencional. Para suas forças terrestres, o contra-rebelde necessita de armamento leve e uma infantaria altamente móvel, e para sua Força Aérea, necessita de apoio terrestre e aviões de observação de baixa velocidade, alta resistência e grande poder de fogo, bem como helicópteros, que desempenham papel vital nesse tipo de operações. Na guerra irregular, um mimeógrafo pode tornar-se mais útil que uma metralhadora e um soldado treinado em pediatria mais útil que arame farpado ou um perito em morteiros”[100]

 

 

O texto acima revela, em suma, que os militares estavam extremamente preocupados com a população estabelecida. Quem controlasse a população, os militares deixam isso claro e explícito, venceria a guerra. É significativa a observação de que um mimeógrafo valeria mais do que um fuzil. O texto também mostra que, por “controle”, os militares entendem tanto a cooptação quanto a repressão, caso a cooptação não fosse possível. Na campanha seguinte, a derradeira, as duas táticas seriam usadas com igual intensidade. Os militares tanto intensificaram as ações de assistencialismo junto àqueles que a Sucuri detectou que seriam simpáticos ao governo militar, quanto prendeu em “arrastão” 160 camponeses simpáticos à causa guerrilheira.

 

Dois outros aspectos chamam a atenção no texto acima. Um deles diz respeito à necessidade de reinvenção das táticas militares. Ao invés de armas pesadas e sofisticadas, os militares começariam a empregar armamento leve e infantaria altamente móvel. Outro ponto relevante é a observação do autor de que, “na Guerra Revolucionária, não são válidas as Leis da Guerra”. Na Terceira Campanha, os militares levariam essa idéia ao extremo em seus atos. Desde a descoberta da Guerrilha do Araguaia, o general Antônio Bandeira vinha defendendo, diante do Estado Maior do Exército, a idéia de colocar “guerrilheiro contra guerrilheiro”, criando seus próprios Jagdkommandos. Mas essa tática era nova para as Forças Armadas brasileira e jamais havia sido posta em prática no País.

 

Ao pôr-do-sol do dia 06 de outubro de 1973, segundo revela o Dossiê Araguaia, três aviões C-115, os Buffalo, decolaram da Base Aérea do Galeão levando uma Companhia, com 110 homens, da Brigada de Pára-Quedistas. Desembarcaram em Xambioá. Quatro dias antes, já haviam partido da Base Aérea de Brasília partiram dois aviões C-47 do Correio Aéreo Nacional, levando um grupo de 48 agentes de informações, 24 em cada aeronave. Um grupo foi para Xambioá, o outro para Marabá. De Belém, 130 homens do Batalhão de Guerra na Selva partiram de caminhão rumo a Marabá. Teriam todos que estar todos a postos no Dia D, 07 de outubro de 1973, a data que o Estado Maior do Exército marcou para o desembarque das tropas na derradeira campanha no Araguaia. Assim o Dossiê descreve o Dia D:

 

“No dia 7 de outubro de 1973 foi efetivamente iniciada a 3ª Fase de combate à guerrilha, que teve características totalmente diferentes das duas anteriores. A tropa penetrou na selva descaracterizada, passando a usar trajes civis; cada combatente adotou um codinome, tornando difícil e quase impossível uma identificação posterior através de nome, posto ou graduação. Com exceção do armamento, que era padronizado – e cada grupo possuía um grande poder de fogo – os equipamentos, tais como mochilas, etc, foram utilizados a critério de cada um, considerando que deveriam ser o mais confortável possível, de forma a enfrentar longas caminhadas através da selva”[101]

 

Foi essa campanha que decidiu o episódio. Um grupo de 750 membros das tropas especiais do Exército[102] – revezando-se em três grupos de 250 – entraram na selva, em trajes civis, algo não previsto nos manuais militares, com a única missão de extirpar os guerrilheiros, com máxima violência e precisão cirúrgica. As tropas saíram do Araguaia em fins de setembro de 1974, com a guerrilha completamente dizimada. Foi nesse período de um ano que teriam ocorrido violações sistemáticas dos Direitos Humanos e à Convenção de Genebra, com possível tortura, decapitações e execução de todos os prisioneiros, sem exceção. Foram mortos nessa Terceira Campanha 47 guerrilheiros, segundo os militares. O primeiro guerrilheiro a tombar nessa fase foi André Grabois, 13 de outubro de 1973[103]; a última, Walkíria Afonso Costa, a Val, a 30 de setembro de 1974[104]. O Exército dava a Guerrilha como completamente dizimada e desmobilizaria da região a maior parte de seu contingente. E partir de então –e por três décadas—manteria um inexplicável silêncio.


[1] Norbert Elias e John  L. Scotson. Os Estabelecidos e os Outsiders – Sociologia das relações de poder a partir de uma pequena comunidade. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 2000.

[2] General de brigada é o primeiro posto na hierarquia dos oficiais generais. Tem duas estrelas no ombro. Depois vem general de divisão (três estrelas) e general de exército (quatro estrelas). Bandeira ganhou a terceira estrela de Ernesto Geisel e a quarta de João Figueiredo.

[3] “Pelotar” eram tropas especiais, especializadas em informações mas que também entravam em operações de ação armada. Cada “pelotar” tinha entre 50 e 60 homens. Bandeira enviou exatamente 256 homens, dos pelotares de Brasília, Goiânia, Araguari e Uberlândia. Eles se revezavam nas operações, um “pelotar” a cada 15 dias na mata, em média.

[4] Narrativa oral de Dr. Hoffmann (codinome), em 30 mai. 2001.

[5] Dossiê Araguaia, Op. Cit., pág. 153.

[6] Narrativa escrita do Dr. George (codinome), a 15 dez. 2004.

[7] Hannah Arendt. Da Violência. Op. Cit., págs. 123-124.

[8] Aliança Libertadora Nacional, fundada por Carlos Marighella.

[9] Vanguarda Armada Revolucionária – Palmares, resultado da fusão de dois grupos, o Comando de Libertação Nacional (Colina) e a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Vale registrar que a VAR-Palmares foi responsável pelo assalto mais lucrativo da guerrilha, o cofre do ex-governador paulista Adhemar de Barros, contendo 2,5 milhões de dólares. In: Nilmário Miranda e Carlos Tibúrcio. Dos Filhos Deste Solo Op. Cit., pág. 428.

[10] Dossiê Araguaia, Op. Cit., pág. 63.

[11] Essa é uma das operações de informações mais bem documentadas do regime militar, mais citadas em reportagens na imprensa. Por conta dela, muitos dirigentes do PC do B avaliam que os militares já sabiam da Guerrilha do Araguaia quando prenderam Pedro Albuquerque, eximindo-o, portanto, de qualquer responsabilidade pela descoberta.

[12] Esse episódio guarda um pequeno detalhe que ilustra a personalidade impetuosa – ou inconseqüente – do general. Para prender os “terroristas”, como Bandeira se referia aos militantes da VAR-Palmares, Bandeira entrou nessa chácara com um teodolito de topógrafo em frente ao rosto, isolado de sua equipe, e com a arma escondida junto ao corpo. In: Dr. Hoffmann (codinome), em 12 fev. 2005.

[13] Naquela época, dentro da Diretriz de Segurança Interna, era possível transferir um preso para ser ouvido em outro local.

[14] Dossiê Araguaia, Op.Cit., pág. 136.

[15] A jornalista e pesquisadora Myrian Luiz Alves, editora do site “Guerrilha do Araguaia”, assim descreve Domingos: “Conhecido por seu jeito sério, mas carismático, era muito querido pelos populares. Depois de preso foi barbaramente torturado e condenado à revelia permaneceu na prisão até 1979. Dentro do cárcere passou para o vestibular de medicina e formou-se após ser libertado. Morreu (…) nos anos 90”. Disponível em: <http://www.guerrilhadoaraguaia.com.br/guer64.htm>. Acesso em: 23 fev. 2005.

[16] Em setembro de 1972. In: Narrativa oral de Dr. Hoffmann (codinome), em 12 fev. 2005.

[17] Teixeira foi preso no Araguaia logo nos primeiros dias, a 14 de abril de 1972, e levado para o PIC, em Brasília. O guerrilheiro conta que o general quebrou uma bengala em sua cabeça. In: SILVA, Eumano. “Revelações sob tortura”. Jornal Correio Braziliense, Brasília, 12 de agosto de 2003, pág. 02. Descobri nas pesquisas que Bandeira só andava com um bastão de madeira para se apoiar. Enfim, uma bengala improvisada. Um militar narra que certa vez assistiu Bandeira bater com a bengala num grileiro, chamando de “safado”, “mentiroso” e “vagabundo”. Teria conseguido, desta forma, que o grileiro devolvesse a terra a uma camponesa. Narrativa oral de Dr. Hoffmann (codinome), em 03 mar. 2005.

[18] No jargão militar, significa prender um grupo grande de pessoas.

[19] Narrativa oral do Dr. Hoffmann (codinome), a 22 fev. 2005.

[20] Mutran seria preso novamente no início da Terceira Campanha, também pela prática de trabalho escravo. Da segunda vez,chegou a ser torturado num pau-de-arara (Ver Capítulo IV, item Dia D). Trinta anos depois, a 30 de julho de 2004, ele seria condenado pelo juiz da 2ª Vara do Trabalho de Marabá, a pagar R$ 1.350.440,00 por dano moral coletivo pela prática de trabalho escravo na Fazenda Cabaceiras, no sul do Pará, região onde se deu a Guerrilha do Araguaia. In: Agência Estado. Disponível em: <http://www.estadao.com.br/agestado/noticias.htm>. Acesso em: 15 fev. 2005.

[21] Segundo os militares, era um grande fazendeiro, tinha até avião. Todavia, não consegui descobrir seu primeiro nome. Há referências sobre um grande fazendeiro de nome Noleto tanto no site oficial do PC do B (www.vermelho.org.br) quanto no site www.desaparecidospoliticos.org.br.

[22] Também não descobri seu nome completo. Porém, segundo militares, ele era o dono de uma marcenaria à beira do Araguaia. In: Narrativa oral do Dr. José Luís (codinome), em 17 out. 2004.

[23] Idem, ibidem.

[24] O PC do B, por sua vez, tem uma versão bem distinta sobre a prisão de Noleto. Transcrevo o trecho do site oficial do partido: “Outro fazendeiro, conhecido como Noleto, acusado de auxiliar os guerrilheiros e de emprestar sua aeronave a Dina e Osvaldão, não sobreviveu para reclamar: mantido durante vários dias com a metade do corpo mergulhado na água dentro de um fosso coberto por arames farpados, morreu pouco tempo depois em conseqüência das torturas”. In: Site oficial do Partido Comunista do Brasil. Disponível em: < http://www.vermelho.org.br/araguaia>. Acesso em: 23 fev. 2005.

 

[25] Chamo a atenção para os livros do coronel Aluísio Madruga. Guerrilha do Araguaia: Revanchismo, Op. Cit., págs. 141-160 e do jornalista Élio Gaspari, A Ditadura Escancarada, Op. Cit., pág 438.  Ambos relatam parcialmente a Operação Sucuri.

[26] Bronislaw Bazcko. Imaginação Social… Op.Cit., pág. 311.

[27] Dossiê Araguaia, Op. Cit., pág. 83-84.

[28] Também havia militares de pele clara entre os infiltrados, como o Dr. Luchini, o capitão Sebastião de Moura (Curió), que tem cabelos louros e foi um dos coordenadores da operação, e o agente Ivan, o sargento Joaquim Arthur, que era um dos subcoordenadores.

[29] Dossiê Araguaia, Op. Cit., pág. 84.

[30] in Dossiê Araguaia, Op. cit., pág. 84.

[31] Trata-se de uma palestra sobre a operação, ministrada em 1993 aos oficiais que serviam no CIE, cujo autor é justamente o oficial que foi coordenador-geral da Sucuri, codinome Dr. Hoffmann. “Guerrilha do Araguaia – Operação Sucuri”, Op.Cit.

[32] 2º Batalhão Ferroviário, com sede em Araguari, que pertencia à 3ª Brigada de Infantaria, em Brasília.

[33]“Guerrilha do Araguaia: Operação Sucuri”…Op. Cit., pág. 07 e 08.

[34] Estou considerando que na Segunda Campanha os militares levaram cerca de 3.200 homens para combater meia centena de guerrilheiros, como já narrado no capítulo anterior.

[35] Dossiê Araguaia, Op. Cit., pág. 85.

[36] Idem, Ibidem, pág. 85-86.

[37] Idem, Ibidem, pág. 86.

[38] Idem, Ibidem, pág. 87-88

[39] Descobri posteriormente que a chácara pertencia ao agente Ivan.

[40] Idem, Ibidem, pág. 87.

[41] Idem, Ibidem, pág. 88.

[42] Idem, Ibidem, pág. 89.

[43] Dossiê Araguaia,  Op.Cit., pág. 89.

[44] Examinada por um perito em Brasília, a cabeça tinha um dente de ouro, como Rosalindo. A arcada dentária coincidia com o laudo do dentista de Rosalindo. Não consegui saber o que os militares fizeram com o crânio de Rosalindo. Mas o corpo estaria até a presente data enterrado na frente da casa de um sitiante chamado João do Buraco (ver Capítulo 2), sem a cabeça. Já o soldado Valdir, jamais foi encontrado. Narrativa oral de Fernando, em 15 nov. 2004.

[45] APUD Campos Filho, Op.Cit., pág. 149.

[46] Homero relata no Canto XXII de A Ilíada, que durante o duelo entre os heróis, Heitor tinha proposto a Aquiles que, aquele que matasse o adversário, devolvesse o cadáver aos seus companheiros, o que Aquiles não acata de forma alguma.  Então ainda ferido, Heitor suplica a Aquiles que não deixe que os cães lhe dilacerem  e que envie o seu corpo a Tróia para que possa ter um funeral digno. No momento em que Aquiles vai matar Heitor, este suplica mais uma vez que entregue o seu corpo a Príamo, rei de Tróia, seu pai. Aquiles recusa e Heitor prediz-lhe a sua morte eminente (Aquiles será morto por uma flecha de Paris). Então Aquiles ultraja grosseiramente o cadáver de Heitor. Perfurou-lhe os tendões dos pés, entre o tornozelo e o calcanhar, trespassou-os com uma tira, amarrou-o no carro de combate  e atiçou os cavalos a correrem, arrastando o cadáver de Heitor por três vezes em torno de Tróia. In: Thomas Bulfinch, Op. Cit., págs. 262-265.

[47] Diário do Velho Mário, Op.,Cit., pág. 103.

[48] Idem, Ibidem, pág. 105.

[49] Dossiê Araguaia, Op.Cit., pág. 90.

[50] Idem, Ibidem.

[51]“Operação Sucuri – Relatório nº 12/73”, CIE, 11 set. 1973.

[52] Em uma das suas narrativas orais (em 15 de dezembro de 2004), Dr. George contou que durante a guerra pela independência de Angola, o Exército colonial português costumava reconhecer os guerrilheiros apertando o braço do suspeito. Segundo explicou um oficial português ao militar brasileiro, ao apertar o braço, se o dedão afunda e fica a marca, significa falta de sal. Portanto, só poderia ser guerrilheiro.

[53]  “Operação Sucuri – Relatório nº 12/73”, Op.Cit.,pág. 07.

[54] Não há registro no documento sobre a identidade do autor. O militar que me entregou o documento,  Dr. Barbosa (codinome) diz não se recordar quem foi o autor.

[55] O texto original tem redação primária, repleta de erros de português. Por exemplo: “Que eu não levaci amal a maneira como elis e estavao mi tratando…”. Optei por corrigir para facilitar a leitura.

[56] Dr. Barbosa (codinome), em 12 dez. 2004.

[57] Codinome do guerrilheiro Paulo Roberto Pereira Marques, um dos que mais se destacou na guerrilha, morto a 25 dez. 1973.

[58] “Operação Sucuri – Relatório manuscrito do Agente X”. Marabá, set. 1973, pág. 01-07.

[59] Roger Chartier. A História Cultural – Entre práticas e representações. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil / Lisboa: Difel, 1990.

[60] Diário do Velho Mário, Op.Cit., pág. 98.

[61] Idem, Ibidem,, pág. 99.

[62]  “Guerrilha do Araguaia: Operação Sucuri”, Op.Cit. págs. 10-12.

[63] Bronislaw Baczko, Op. Cit., pág. 314.

[64] Dossiê Araguaia, Op.Cit., pág. 131.

[65] Entre eles Dina, segundo os militares.

[66]  Arroyo diz ser filho do sitiante José Pereira; os militares registram no Dossiê como sendo o filho de Antônio Pereira.

[67] Só respondia a Maurício Grabois.

[68] Fernando Portela. Guerra de Guerrilhas no Brasil – Informações novas. Documentos inéditos e na íntegra. São Paulo: Global, 1979.

[69] Anotação de 01 de março de 1973, Velho Mário relata que o Destacamento A saiu para “liquidar” um bate-pau, mas acabou não o executando. “Depois de tomar a sua casa de assalto, prendeu-o e interrogou-o. Ele deu uma série de explicações e, de joelhos, pediu perdão. Disse que foi iludido e não mais serviria aos soldados. (…) O bate-pau a ser justiçado não causara danos de importância às FF GG. Não é dos mais raivosos. Por isso, a solução política, dada ao caso, talvez tenha sido a melhor. Acresce que a casa do canalha, na ocasião, estava cheia de camponeses”. In: Diário do Velho Mário, Op. Cit.,  pág. 65.

[70] Em anotação de 26 de março de 1973, Velho Mário relata: “O chefe dos jagunços era um bandido famoso, Pedro Mineiro, homem de confiança do capitão (Olinto) (…) Na casa só se encontravam dois pistoleiros: o Pedro Mineiro e um piauiense jovem. Tomados de surpresa, não ofereceram qualquer resistência. Logo pediram clemência. Presos e amarrados, eles foram submetidos a um cerrado interrogatório. O piauiense era elemento novo no bando do capitão Olinto, mas o Pedro Mineiro era o chefe dos pistoleiros e tinha sobre as costas a responsabilidade de vários crimes de morte perpetrados contra peões e camponeses. Submetido a julgamento pelo Tribunal Revolucionário, foi condenado à morte e imediatamente fuzilado”. In: Diário do Velho Mário, Op. Cit., págs. 72-73.

[71] Idem, Ibidem., págs. 91-92.

[72] Narrativa oral de Dr. Hoffmann (codinome), em 30 mai. 2001, de Dr. Leonardo (codinome), em 13 abr. 2000, e de Mike (codinome), em 22 fev. 2005.

[73] Dossiê Araguaia, Op.Cit., págs. 89-90.

[74] Hommi Babha, Op. Cit., pág. 207

[75] Hannah Arendt. Da violência. Op.Cit., pág. 140.

[76] Eric Hobsbawm. A Era dos Extremos: o breve século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

[77] Idem, Ibidem, pág. 11.

[78] Idem, Ibidem, pág. 14.

[79] Jean-Lo Panne et al. O Livro Negro do Comunismo: Crimes, Terror e Repressão, São Paulo: Bertrand Brasil, 1999, pág.16 e 802

[80] Nilmário Miranda e Carlos Tibúrcio. Dos Filhos Deste Solo – Mortos e desaparecidos políticos durante a ditadura militar: a responsabilidade do Estado…Op. Cit.

[81] Estilista de sucesso em Nova York na década de 1970, Zuleika “Zuzu” Angel promoveu uma comovente campanha internacional denunciando a tortura no Brasil. Seu filho, o universitário Stuart Angel Jones, de pai norte-americano e dupla cidadania, militante do MR-8, teria morrido nas dependências da Base Aérea do Galeão, RJ, em 14/06/71, sob tortura. Zuzu levou o caso ao senador Edward Kennedy, que denunciou o governo brasileiro no Congresso dos EUA. Conseguiu entrevista com o secretário de Estado Henry Kissinger. Apresentou desfile de moda com motivos bélicos, “a primeira coleção de moda política do mundo”, definiu. “Eu não tenho coragem, coragem tinha meu filho, eu tenho legitimidade”, dizia. Sua luta para encontrar o corpo do filho comoveu a imprensa internacional. Zuzu, por sua vez, faleceu a 14 de abril de 1976, em acidente automobilístico no Rio de Janeiro, depois de ser fechada por outro veículo não identificado. Especula-se que o acidente tenha sido obra dos órgãos de repressão. Ainda não foi encontrada nenhuma prova concreta de sido um assassinato. In: Disponível em: <www.desaparecidospoliticos.org.br>. Acesso em: 23 abr. 2003.

[82] Grupo TERNUMA, Terrorismo Nunca Mais. Disponível em <www.ternuma.com.br>. Acesso em: 04 mai. 2003.

[83] Segundo o Dossiê, entre os guerrilheiros e camponeses, teriam morrido 63 “em combate”, 19 encontram-se na lista de desaparecidos, dois teriam se suicidado e um teria sido “justiçado”. Entre os militares, 2 soldados foram mortos em combate com os guerrilheiros, um desapareceu (não se sabe se morto pelos guerrilheiros) e, por fim, 4 moradores da região foram justiçados pelos guerrilheiros sob a acusação de colaborar com os militares.

[84] Jean-Lo Panne et al. Op. Cit.,  pág. 802

[85] Considerando-se que a população brasileira na época era de 90 milhões de pessoas.

[86] Agnaldo Del Nero Augusto. A Grande Mentira. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 2001.

[87] Contudo, em Brasília, Belo Horizonte, Porto Alegre e no Nordeste, os militares costumavam submeter os prisioneiros a longos diálogos sobre doutrina marxista, na tentativa de convertê-losem informantes. Nessas regiões não havia grande incidência de “atos terroristas”. Por isso, explicam militares, foi menor a incidência de tortura nos quartéis.

[88] Hannah Arendt. Da violência. Op.Cit., pág. 140.

[89] Narrativa de um ex-capitão, que não autorizou o uso de seu nome ou codinome, em 23 mai. 2003.

[90]Alfredo Sirkys, Os Carbonários. São Paulo: Record, 1998, pág. 384.

[91] Alfredo Sirkys, Op. Cit., págs. 333-335.

[92] Idem, Ibidem, pág. 335.

[93] Jarbas Passarinho. Uma estranha guerra. Jornal O Liberal. Belém, 24 de junho de 2001, pág. 04.

[94] Tomo aqui emprestada uma frase do refrão da “Canção do Soldado”, naquela época (como ainda hoje) cantada diariamente nos quartéis e, portanto, cravada no inconsciente coletivo e no consciente individual de cada militar: “Se a pátria amada por um dia ultrajada/ lutaremos com fervor”.

[95] Esses eventos se deram em 217AC e valeu ao cônsul Fábio o cognome de “Escudo da República”. In: Gabriel Bonnet. Guerras Insurrecionais e Revolucionárias. Op. Cit. pág. 26.

[96] Bonnet relata que cada grupo de guerrilha espanhol tinha por objetivo matar de 30 a 40 franceses por mês. Mataram cerca de 80 mil soldados franceses em 1807, sem que houvesse batalhas campais. No ano seguinte, Napoleão desistiria da Espanha. In: Idem, Ibidem, pág. 28.

[97] O esquema de partis que Lawrence elabora, batizado de “Os Sete Pilares da Sabedoria”, é um dos modelos de organização e estratégia mais estudados nas academias militares de todo o mundo. In: Idem, Ibidem, pág. 35.

[98] Na sua Ordem do Dia de 03 de julho de 1941, o líder soviético definiria com propriedade o que vem a ser uma guerra não-regular travada com partisans (ou guerrilheiros): “Nas regiões ocupadas pelo inimigo, é preciso criar destacamentos de partisans, a pé e a cavalo; fazer saltar pontes, destruir vias de comunicações e os comboios, destruir as linhas telefônicas e telegráficas, queimar armazéns. É preciso criar para o inimigo e seus amigos uma situação intolerável, inquieta-los sem descanso, tornar vãs todas as suas empresas”. In:Idem, Ibidem, pág. 155.

[99] Dossiê Araguaia, Op. Cit, pág. 09.

[100] Idem,Ibidem, pág 03-05.

[101] Dossiê Araguaia, Op.Cit., pág. 91.

[102] A Aeronáutica participou dessa fase com o apoio aéreo e com agentes de informações. Marinha só participou da Segunda Campanha, com um destacamento de fuzileiros navais.

[103] Dossiê Araguaia, Op. Cit., 162.

[104] Teria sido presa, levada para a Base de Xambioá e depois executada na mata, com três tiros. Há controvérsias sobre a data de sua morte. O Dossiê aponta como tendo sido a 30 set. 1974. A Marinha, como a 25 out. 1974. Mas a Marinha já não tinha ninguém na área naquela época nem o Exército fornecia informações para a Força. O Dossiê aponta como a última morte relevante a de Pedro Alexandrino de Oliveira, codinome Peri, que teria caído a 03 ago. 1974. Depois dessa morte, informa o Dossiê, o governo dava a guerrilha como completamente dizimada. Ficaram na região somente poucos contingentes. Além de Walkíria, também morreu depois dessa data Vandick Reidner Coqueiro, codinome João, a 22 set. 1974. In: Dossiê Araguaia, Op. Cit., pág. 163.

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