A Filosofia da História de Marx

Anotações sobre a vida, a obra e a Filosofia da História de KARL MARX, com seus conceitos de materialismo histórico, alienação e mais-valia (Para a disciplina Teoria da História, ministrada pelo professor Fernando Catroga, do Instituto de História das Ideias da Universidade de Coimbra. Por José  de Sousa Pais, aluno do doutorado em História, da Universidade de Coimbra

Segundo Marx, a humanidade estaria em constante “evolução” em direção à sociedade sem classes

QUEM FOI MARX?

Karl Marx nasceu em Trier (Alemanha). Viveu entre1818-1883, num meio familiar burguês: o seu pai era advogado e conselheiro da justiça e proprietário agrícola, judeu convertido ao cristianismo luterano. Um dos seus tios foi o fundador do colosso industrial holandês Phillips.

Intelectual e revolucionário. Estudou direito na Universidade de Bonna (1835), dividindo o seu tempo entre o estudo e as tabernas. A sua tese de doutoramento incidiu sobre a Filosofia Clássica grega. Foi fundador da doutrina comunista moderna, economista, historiador, teórico, político e jornalista.

O seu pensamento influenciou várias ciências, nomeadamente a História, Filosofia, Sociologia, Psicologia, Ciências Políticas, Antropologia, Comunicação,   Economia, GeografiaArquitectura, etc.

Passado um ano mudou-se para a Universidade de Berlim, onde aprofundou o seu gosto pela Filosofia e aderiu aos Jovens Hegelianos.

Em 1843 mudou-se para Paris e foi nesta cidade que desenvolveu as ideias acerca da natureza da sociedade e da história.

No ano seguinte, Engels visitou Marx em Paris, por alguns dias.

A amizade e o trabalho conjunto entre ambos, que se iniciou nesse período, só seria interrompido com a morte de Marx.Fizeram  uma parceria entre ambos, numa tentativa de desenvolver uma teoria social e económica sistemática.

Independentemente das influências no pensamento marxista, não deve ser deixado de relevar a importância dos contributos de filósofos como: Feuerbach, que defendia, entre outros aspectos, que muitas das ideologias que os homens criam e em que acreditam, se explicam mediante a referência às condições materiais em que eles se encontram.

Por outro lado, foi influenciado pelo  pensamento de Saint-Simon, que atribuía grande importância às relações económicas e aos conflitos de classes, como determinante de alteração histórica.

O pensamento de Marx teve uma forte componente positivista, que o obrigou a rejeitar conceitos metafísicos, e a voltar-se para os factos sólidos e concretos da vida e da experiência. Logo, Marx tentou dar uma explicação única da evolução e das mutações históricas.

“O materialismo histórico”, uma abordagem metodológica ao estudo da sociedade, da economia e da história que foi pela primeira vez elaborada por Marx e Engels não é, evidentemente, uma doutrina satisfatória, e está sujeita à crítica, tanto do ponto de vista lógico como do ponto de vista factual.

Leandro Konder, um filósofo marxista brasileiro, nascido em 1936, afirmou que Marx, e cito:  “Marx foi produto de seu tempo: Antes de poder contestar a sociedade capitalista Marx pertencia a ela, estava espiritualmente mais enraizado no solo da sua cultura do que admitiria”, e que diante dos padrões da Inglaterra vitoriana mostrou: “traços típicos das limitações de seu tempo“.

A teoria marxista é, na sua essência, uma crítica radical às sociedades capitalistas.

Lenin, escreveu sobre a influência que Hegel teve sobre Marx: “…é completamente impossível entender “O Capital” de Marx, sem se estudar e compreender em profundidade toda a lógica hegeliana”.

Karl Marx visto por uma  linha de explicação sociológica e dialética, embora não sendo um sociólogo nem ter tido pretensões a sê-lo, deu, contudo, um grandiosa linha de interpretação sociológica.

Influências

Condorcet (17431794),  – Influenciou a estrutura intelectual de Marx, da mesa forma que tinha influenciado Comte.

A trilogia: liberdade, igualdade e fraternidade (de Condorcet) estarão patentes nas ideias de Marx.

Mas durante a existência de Condorcet a revolução industrial estava apenas numa fase embrionário/ gestativa.

Devemos ter presente que até à morte de Condorcet, os grandes inventos tinham sido apenas na área da utilização do carvão para produzir o aço, a descoberta da técnica do cadinho para o fabrico do aço, a invenção das lançadeiras volantes para  os teores, as máquinas de fiar rotativas (que vieram depois revolucionar a industria de têxtil, com diminuição da mão de obra e aumento da produção.

Devemos ter presente que o invento de Samuel Compton, em 1779, inventou a “spinning mule” (com 400 fusos), que proporcionou a diminuição de 200 trabalhadores/ por máquina, a máquina a vapor de Watt em 1765 e  a primeira construção de uma ponte em ferro fundido.

A Primeira Revolução Industrial foi Iniciada em Inglaterra em 1698 por Thomas Newcomen, com a invenção de um arcaico motor a vapor, que veria mais tarde a ser considerada por KARL MARX, como parte do conjunto das chamadas Revoluções Burguesas do século XVIII e, principal responsável pela crise do antigo regime, na passagem do capitalismo mercantil para o capitalismo industrializado.

Já no período de vida de  Marx, deu-se a explosão das invenções que marcaram em parte toda a Primeira Revolução Industrial e, com ela, todos os problemas sociais, pelo aumento das produções, desemprego, exploração das classes trabalhadoras e toda uma panóplia de problemas que interagiram com esta Revolução.

Marx, atento, centrou as suas ideias nestas realidades e quis levar mais longe essa ideia vertida na utopia do socialismo científico.

Mais do que o conteúdo dos pensamentos, foi a dinâmica e alcance do pensamento de Hegel que seduziram Karl Marx.

Dessa forma, procedeu a uma alteração do sistema clássico hegeliano da tese-antítese – síntese. Já Kant tinha retomado a noção aristotélica que definiu a dialéctica como a “lógica da aparência”, por entender que a dialéctica era uma ilusão baseada em princípios subjectivos.

Ora, o método dialéctico, tem várias definições, tais como a hegeliana, a marxista e outras. Muitos defendem que consiste numa modelo esquemático para a explicação da realidade, baseada em oposições e/ ou em choques entre situações diversas ou mesmo opostas. O modo dialéctico procura conflituar com as situações para tentar criar uma nova situação desse conflito dialéctico.

É este o esquema base do método da tese, antítese e a síntese, donde a  tese é o principio da ideia e,  a antítese, a oposição a ela! Do conflito entre a tese e a antítese, resultará a síntese, como resultado desse embate dialéctico gerando um processo em cadeia infinita.

Feuerbach – o ex-discípulo hegeliano defende que Deus não é o Espírito Absoluto que Hegel preconizara, mas sim a auto-consciência da própria humanidade, ou seja, os seres humanos parecem-se com Deus, não por Deus nos ter criado à sua imagem e semelhança, mas por nós O termos criado à nossa: “se os triângulos tivessem um Deus, este teria os 3 lados”.

Assim, o que para Hegel era ideal e espiritual, para Feuerbach é humano e materialista. Marx assimila a esta concepção ateísta, mas vai mais longe do que o próprio Feurbach, afirmando que os homens inventaram a religião porque a vida na terra era revoltante e miserável.

 É nesta linha que desenvolve a sua célebre frase A religião é o ópio do povo”.

Acreditava que uma vez conseguida a felicidade na terra, a religião acabaria por desaparecer, pois deixaria de fazer sentido acreditar numa vida melhor depois da morte.

Materialismo e Dialéctica, Marx assimilou o Materialismo , acreditando que a ciência e principalmente a filosofia resolveriam todos os problemas da Humanidade.

Na sua lápide no cemitério de Highgate (Inglaterra) está inscrita a sua última e mais célebre tese sobre Feuerbach: “Até agora os filósofos limitaram-se a interpretar o mundo de diversas maneiras, mas o que importa é mudá-lo!”.

 

O Manifesto do Partido Comunista

Na Bélgica, Marx e Engels aderiram à Liga Comunista, para a qual são encarregues de redigir um manifesto: O Manifesto do Partido Comunista de 1848 – texto só ultrapassado em número de tiragens de Imprensa pela Bíblia e algumas obras de Shakespeare e em que constitui uma verdadeira (embora não completa) síntese do pensamento marxista:

“Um espectro assombra a Europa: o espectro do Comunismo”

O Comunismo seria alcançado “através da eliminação da propriedade privada e a sua substituição pela propriedade comunitária”.

Para Marx a concretização da sociedade comunista passava por colocar os meios de produção nas mãos do proletariado, mediante a nacionalização da propriedade privada por parte do Estado. Instalar-se-ia, então, a ditadura do proletariado, a primeira fase que levaria a uma sociedade sem classes.

O Estado político deixaria simplesmente de fazer sentido com o fim das classes sociais (implantação do comunismo), e ao tornar-se desnecessário, acabaria eventualmente por se auto-extinguir. A sociedade comunista auto-administrava-se, prescindindo da necessidade de um Estado coercivo.

As antigas relações de mercado desapareceriam, o dinheiro seria abolido e todos receberiam de acordo com as suas necessidades. “De cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo as suas necessidades”.

Marx acreditava que a transição para o comunismo se operaria mais cedo nos países capitalistas mais desenvolvidos, alastrando-se, posteriormente, ao resto do globo.

Paradoxalmente, o primeiro país a adoptar o marxismo foi a Rússia, em 1917, revelando-se um país tipicamente feudal. A paz de Brest-Litovsk no ano seguinte comprometia  sériamente as suas aspirações globalizantes.

(Tratado de Brest-Litovski  foi um tratado de paz assinado entre o governo bolchevique russo e as Potências Centrais (Império Alemão, Império Austro-Húngaro, Bulgária e Império Otomano) em 3 de Março de 1918, em Brest-Litovski, na actual Bielorrússia, pelo qual era reconhecida a derrota russa na Primeira Guerra Mundial)

Materialismo Histórico

No Manifesto Comunista, de 1848, MARX,  e ENGELS, escreveram: A História de todas as sociedades até hoje existentes é a história da luta de classes”.

Um combate que tem sempre lugar no âmbito de um estrutura económica:  a era da escravatura (escravos vs. amos), a era do feudalismo (servos vs. senhores) até à sociedade burguesa.

Marx e Engels escreviam  que os capitalistas burgueses, detentores dos meios de produção, dominavam o proletariado, cuja única riqueza se resumia à sua força de trabalho, que eram forçados a vender aos capitalistas em troco de um salário que apenas lhe garantia a sua sobrevivência.

As estruturas económicas suplantam-se umas às outras. Mais cedo ou mais tarde, qualquer estrutura económica (exceptuando o comunismo), entra em contradição com as forças produtivas. A classe dominante perde o controlo. A estrutura económica desmorona-se, levando a um período de revolução social.

No momento em que uma forma de sociedade é substituída por outra, uma classe dirigente desaparece e outra torna-se dominante.

O que define a estrutura económica são as relações de produção dominantes.

Ou seja, a História é percepcionada como uma sucessão de luta de classes. O progresso histórico decorria de foram dialéctica.

Cada fase gerava as suas contradições que geravam uma síntese progressiva, como, atrás descrevi,  ou seja, um novo sistema social.

Assim, à medida que o capitalismo se desenvolvia ia gerando as suas próprias contradições: da concorrência ao monopólio; o recurso crescente à maquinaria lançava no desemprego um número cada vez maior de pessoas.

O desemprego, além de gerar revoltas sociais (e o proletariado a tomar consciência de si enquanto classe), implica sempre uma redução do consumo dos produtos de uma indústria que produz cada vez mais.

Estas contradições levam às crises. Chegaria uma crise final, que originaria o colapso do sistema capitalista. Seria a vitória do proletariado e a emergência da primeira sociedade sem classes.

Abrindo um parênteses, vejamos o que hoje se passa em todo o mundo sobre todos os processos de produção e nas economias dos países desenvolvidos ou em vias de desenvolvimento,  à beira de uma deflação ou de uma  bancarrota!

O pensamento de Karl Marx incita claramente à violência e à luta armada, pois – cito – “o proletariado não tem nada a perder senão as suas correntes. Tem um mundo a ganhar.” “Proletários de todo o mundo, uni-vos!”

Era importante que os operários de todo o mundo tomassem consciência de que lutavam por uma causa comum e contra um inimigo comum. A sua união no conflito contra a burguesia era imprescindível.

Ou seja, trata-se da tomada de consciência de classe por parte do proletariado. os trabalhadores não têm país”.

Neste ponto distancia-se claramente dos socialistas utópicos, pois defende que o comunismo não deveria ser instituído por intelectuais, visionários ou sonhadores, mas sim pelos próprios trabalhadores. A revolução, e não a filantropia ou a experimentação, era o caminho que levaria à sua edificação.

Em 1859 Marx conclui a sua primeira obra de pendor claramente económico: “Contribuição para a Crítica da Economia Política”.

Nessa obra, Marx defende que as relações sociais assentam nas relações económicas (estrutura) que, por sua vez, determinam a vida ideológica e intelectual (superstrutura) dessa mesma sociedade.

Cito:  “O modo de produção na vida material determina o carácter geral dos modos social, político e intelectual existentes. Não é a consciência que determina a sua existência, é, pelo contrário, a sua existência social que determina a sua consciência”.

O poder económico da classe dominante tem de ser protegido e consolidado, ajustando-se a estrutura jurídico-política para que tal se verifique. Na prática, o Estado liberal apenas existe para consolidar os interesses da burguesia (a classe dominante).

Ou seja, o direito e a política estão ao serviço da classe dominante e “as ideias da classe dominante são, em cada época, as ideias dominantes”.

Marx apresentou, assim, uma imagem arquitectónica da sociedade: na base, fornecendo os alicerces da sociedade, estão as forças produtivas; no nível seguinte a estrutura económica, no nível superior a superestrutura jurídico-política.

 

Alienação

Outro dos grandes temas com que Marx se preocupou foi a alienação.

A divisão do trabalho contribuíra para aumentar a produção e a produtividade, mas, concomitantemente, devastara o estado de espírito e o ânimo dos trabalhadores, reduzidos a escravos desumanizados, repetindo incessantemente uma única e enfadonha tarefa.

Levou à desqualificação progressiva do trabalhador, que se assumia cada vez mais como uma mera extensão da máquina.

 

Mais-valia

Um dos principais conceitos introduzidos por Marx foi o conceito da mais-valia que corresponde ao valor que o trabalhador acrescentava na transformação da matéria-prima em produto final através do seu trabalho, mas pelo qual não era totalmente remunerado.

Recebia do capitalista um salário que lhe permitia tão-só a sua subsistência, de modo a poder trabalhar no dia seguinte.

A teoria da mais-valia gozou de grande vitalidade ao longo do XIX e parte do XX, tendo sido apenas recentemente desacreditada pela Lei da Utilidade Marginal, que veio demonstrar que é o mercado que dita o preço dos produtos.

(A Lei da utilidade marginal expressa que numa relação económica a utilidade marginal decresce à medida que se consome mais uma unidade. A utilidade total de um bem cresce quando se consome maiores quantidades dele, mas seu incremento da utilidade marginal é cada vez menor. O consumidor tem satisfação com um bem, mas a unidade seguinte já não lhe proporciona tanto prazer como a anterior.)

Marx pretendia que os operários recebessem a totalidade da mais-valia, o que é simplesmente impensável, pois é essa diferença entre o custo de produção e o preço final que constitui o lucro do capitalista.

A Internacional e O Capital

Com o desmoronar da Liga Comunista em 1852, Marx empenhou-se na criação de uma organização similar: a Primeira Internacional foi idealizada  em 1862 em Paris e formalizada em Londres, em 1864, sendo presidida pelo próprio Marx.

Foi também denominada Associação Internacional dos Trabalhadores, tendo como objectivo a luta pelo progresso e pela emancipação humana. Acabou dissolvida, em Filadélfia, em 1876.

Houve várias tentativas para a fazer renascer, mas todas foram infrutíferas.

Em 1889, Marx criou a Segunda Internacional, de cunho marcadamente marxista.

Marx confrontou-se com o anarquista Bakunin defendendo que a sociedade comunista seria alcançada pela revolução, instituindo-se a ditadura do proletariado que levaria a cabo a transição (socialismo) para o comunismo: de cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo as suas necessidades. e Karl Marx

(Bakunin. Russo .18141876-,foi um teórico político russo, um dos principais expoentes do anarquismo em meados do século XIX. Estudou filosofia e foi para Paris onde conheceu  grandes pensadores políticos entre estes George Sand, Pierre-Joseph Proudhon e Karl Marx

Bakunine defendia que se o proletariado tivesse a sua própria ditadura jamais a abandonaria, o que se veio confirmado pelas nomenclaturas políticas da URSS e as elites governativas da República Popular da China, da Coreia do Norte, de Cuba, etc. Só com uma particularidade:  não foi o proletariado que dominou ou domina, mas as elites saídas desse proletariado, ou dito como tal.

 

O Capital

Em 1867 foi publicada a obra “O Capital”,em que Marx investiga os mecanismos económicos da Inglaterra, sociedade industrial mais avançada da época da primeira metade do século XIX.

Focava igualmente as péssimas condições de vida e de trabalho dos operários britânicos com habitações precárias, falta de higiene e saneamento, superlotação do espaço, mulheres e crianças exploradas a níveis desumanos, horários longos e condições de trabalho lastimáveis e salários muito baixos.

E foi sob estes princípios que Marx desenvolveu as suas teorias, seguida por milhões, mas imposta apenas por alguns – em que a força da razão foi substituída pela razão da força – com os resultados à vista, não só por um passado recente que já colapsou, mas também nos presentes vivos e, outros, que de forma capciosa tentam implantar.

 

 

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