jan 18, 2014

Como foi a decapitação do guerrilheiro Arildo Valadão, um dos desaparecidos do Araguaia

(Trecho de abertura do Capítulo 2 da minha Tese de Doutorado, “Em algum lugar das selvas amazônicas: As Memórias dos Guerrilheiros do Araguaia”)

O guerrilheiro Ari ainda estava vivo quando o facão (cego) serrou o seu pescoço

A BARBÁRIE COMO ESCOLHA

No momento em que teço estas linhas, em novembro de 2013, completam-se exatos 40 anos que seis jovens de origens distintas, cada qual acalentando suas próprias esperanças, encontraram-se em uma encruzilhada remota de algum lugar das selvas amazônicas. Na trama grega, as tragédias costumam ter início em uma encruzilhada. Como aquele entroncamento de três estradas no qual Édipo, por obra do Acaso, se encontra com o rei Laio e o mata depois de uma discussão banal, sem saber que era seu próprio pai[1]. No caso em questão, objeto desta pesquisa, a encruzilhada fica na Grota do Cristal, uma pequena fonte de água onde três trilhas na floresta se encontram, localizada a 200 metros do rio Sororozinho, bem no epicentro da região onde as Forças Guerrilheiras do Araguaia e o Exército brasileiro se enfrentaram por três anos consecutivos.

Foi nessa tríplice encruzilhada que o Acaso[2] colocou três guerrilheiros e três camponeses frente a frente, em fatídico encontro que definiria o desfecho daquela luta. O sol a pino indicava que era meio-dia de 26 de novembro de 1973 quando o primeiro grupo chegou à grota. O líder (dos camponeses) chamava-se Sinésio Bringel, um pequeno posseiro, tropeiro e dono de bodega, casado, três filhos, tinha 38 anos na ocasião[3]. A seu lado, Iomar Galego, 33 anos, casado, cinco filhos, caçador e posseiro de uma roça de subsistência[4]. Por fim, Raimundinho Cacaúba, também casado, três filhos, 35 anos, posseiro e caçador[5].

* * *

Os britânicos criaram dois termos semelhantes, story e history, para distinguir ficção e realidade. Um seria uma estória que se conta. Outro, uma história que se constrói. Para Paul Ricœur, entretanto, mais do que um preciosismo linguístico, tal distinção seria um erro epistemológico. Afinal, os britânicos ousaram esquecer aquilo que os antigos sempre souberam: que História e ficção emergem da mesma matriz, a memória – embora guardem distinções quanto ao método e, principalmente, quanto ao objetivo[6]. Ricœur também lembra que os historiadores, tais quais os narradores orais medievais, tecem uma trama de acordo com a sua visão pessoal do que venha a ser a realidade e os fatos[7]. Ao fazer a defesa da narrativa para a tecitura da história, Ricœur aconselha que o historiador busque rebaixar a pretensão explicativa e eleve a capacidade narrativa[8].

Assim, esclareço preliminarmente que a trama sobre os fatos ocorridos naquela encruzilhada da floresta foi construída de acordo com as visões pessoais dos três camponeses sobreviventes – Sinésio, Iomar e Raimundo – sobre o que teria sido a “realidade” por eles vivenciada e exposta em narrativas orais a esta pesquisa. Entre 2009 e 2012, realizei quatro entrevistas orais com Sinésio Bringel, quatro com Iomar Galego e uma com Raimundo Cacaúba. Cheguei a viajar com os três, separadamente, na busca da reconstituição de episódios da guerrilha, dentre eles, este que aqui narro[9].

Eles estão aqui tratados como protagonistas, de acordo com as interpretações de Benjamin e dos Annales sobre a necessidade de valorizar os anônimos, os pequenos, os perdedores e até mesmo os anti-heróis. Até aquele momento, aqueles três eram apenas isso: pequenos posseiros, tropeiros, caçadores, pais de família, que viviam em uma região com total ausência dos serviços do Estado. Enfim, esquecidos.

* * *

Quatro dias antes de chegarem à encruzilhada na Grota do Cristal, estavam todos presos numa base do Exército, eles e suas famílias. O Exército havia retornado ao Araguaia pela terceira vez, mas até então os resultados eram pífios. Haviam matado uma guerrilheira 40 dias antes[10]. Desde então, o único embate em toda a região fora uma emboscada dos guerrilheiros, na qual um soldado saíra ferido. Por essa razão, os militares decidiram fazer uma experiência. A nova tática: recrutar camponeses para a luta armada.

Sinésio, que estava preso, foi o primeiro a receber a proposta. Seria solto se ajudasse o Exército a caçar os “terroristas”. E, se bem sucedido, ainda ganharia um prêmio em dinheiro. Sinésio aceitou. Raimundo Cacaúba prontificou-se a ir junto. Foram então buscar Iomar Galego, considerado um dos três melhores rastreadores de toda a região, capaz de perceber os indícios de caça (ou de humano) com até seis dias na estação das chuvas e de três dias em tempos de seca.

Os três foram levados diante de um militar, alguém importante, um chefe – recordam-se eles – pois tinha cerca de 40 anos, mandava nos demais soldados e era chamado de “doutor”. Naquele momento da luta, os militares só andavam com roupas civis, ou seja, “descaracterizados”, e portavam identidades falsas, “codinomes”. Os oficiais usavam o qualificativo de “doutor” para demarcar a hierarquia. Sargentos, cabos e soldados usavam codinomes simples. O oficial que os convocou para dar as instruções era chamado de “Doutor César”[11].

“Me tragam um bico de papagaio”, determinou o oficial, enquanto afiava a mão direita aberta no próprio pescoço, de orelha a orelha.

Com aquele sinal, os três camponeses compreenderam que o “doutor” exigia cabeças. Receberam ração para missão de oito dias. No segundo dia, encontraram rastros humanos. No quarto, chegaram à Grota do Cristal. Cogitaram tomar banho na bacia de água que formava a fonte. Desistiram, muito perigoso. Foi então que escutaram um som, leve e sutil.

“Até pensei que fosse o barulho de um beija-flor” – relata Iomar.

Na dúvida, armaram tocaia, cada um deles atrás de uma árvore. Naquele tempo havia milhões de árvores majestosas, salpicadas na mata espessa que se espraiava pelas duas margens do rio Araguaia em direção ao infinito – hoje é uma devastação só em forma de pastos. Em poucos minutos, três guerrilheiros começaram a adentrar na Grota do Cristal por uma das três trilhas que desaguam naquela encruzilhada.

O guerrilheiro Ari (foto) vinha na vanguarda, abrindo caminho. Sua identidade, antes de chegar ao Araguaia, era Arildo Airton Valadão, um capixaba de Cachoeiro do Itapemirim. Era estudante de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro e líder estudantil. No Araguaia, passou a ser vice-comandante do Destacamento C das Forças Guerrilheiras. Tinha então 25 anos.

No meio, vinha Jonas, codinome adotado pelo camponês Josias Gonçalves quando, 11 meses antes, aos 17 anos, encantara-se com as pregações revolucionárias e aderira à guerrilha[12].

Fechando a retaguarda, Raul (foto), membro do Grupamento de Saúde do Destacamento B da guerrilha. Nascido Antônio Theodoro de Castro, cearense de Itapipoca, era estudante de Bioquímica e de Farmácia da Universidade Federal do Rio de Janeiro até chegar ao Araguaia. Em novembro de 1973, tinha 28 anos[13].

Caminhavam pelas matas para uma grande reunião das Forças Guerrilheiras do Araguaia. Seria a primeira desde que o Exército retornara pela terceira vez à região dois meses antes, nos primeiros dias de outubro de 1973. O objetivo era discutir a estratégia de combate. Ou decidir pela fuga enquanto ainda era possível. Um grupo de guerrilheiros já se encontrava acampado ali perto, a cerca de 150 metros da grota, quando o Acaso colocou os três guerrilheiros frente-a-frente com os três camponeses.

O vice-comandante Ari notou a tocaia. Parou e apontou sua arma para Sinésio. Não deu tempo de atirar. Iomar acertou-lhe um tiro no peito com sua espingarda de caça. Rápido, Jonas caiu na mata, encontrou uma moita, e por lá se manteve escondido, a tudo assistindo. Raul correu morro acima em direção ao ponto marcado para a reunião dos companheiros. Sinésio atirou em Raul. A bala acertou o prato de metal escondido no bornal que carregava às costas. Escapou. Escutou-se então o som do grupo de mais de 30 guerrilheiros correndo na direção oposta aos tiros.

Ari estava estirado no chão quando os três camponeses se aproximaram. Foi Sinésio quem mandou que cortassem sua cabeça. Raimundinho não teve coragem. Iomar prontificou-se ao serviço.

Ari ainda estava vivo quando o facão (cego) serrou o seu pescoço. As pernas estrebucharam[14].

* * *

Kierkegaard lembra que nossas vidas são determinadas por ações e estas, por sua vez, são determinadas por escolhas exclusivamente humanas. Assim, a cada instante da vida, a cada ato, o homem vê-se diante de uma encruzilhada sobre qual caminho seguir. Segundo Kierkegaard, somos livres para fazer nossas opções morais e são essas escolhas que determinam nossa História. Assim, torna-se “imprescindível encontrar o sentido da própria existência, porque a vida é feita de instantes e cada instante é decisivo” [15].

Quando o Dr. César mandou que lhe trouxessem um “bico de papagaio” – e afiou a mão no próprio pescoço, de orelha a orelha – os três camponeses poderiam ter interpretado o gesto do militar como se fosse uma metáfora. Mas escolheram não fazer interpretações. E naquele momento histórico, quando o Exército ocupava todos os pontos estratégicos do Araguaia, os guerrilheiros mantinham-se escondidos; e os camponeses, por sua vez, estavam totalmente acuados (havia mais de 500 chefes de famílias da região presos nas bases militares, boa parte com suas mulheres e filhos), pareceu mais seguro para aqueles homens simplórios, analfabetos[16], escolher pela decapitação do “terrorista” abatido.

Assim, os três saíram da Base Militar de São Raimundo conscientes do que deveriam fazer: cortar uma cabeça qualquer e entregá-la aos militares. Contudo, até aquele instante, nenhuma cabeça havia sido retirada do corpo. Essa escolha moral acabaria por se mostrar o momento mais decisivo para o desfecho da guerrilha.

“Nossas famílias estavam presas e o Dr. César nos mandou trazer o bico do papagaio. Então nós tinha (sic) que levar uma cabeça pra ele” – justifica Sinésio no tempo do agora, enquanto rememora os acontecimentos do outrora. E Iomar, sem demonstrar culpas ou arrependimentos, acrescenta: “Eles eram terroristas. Insetos!”.

* * *

Com o corpo de Ari inerte no chão, houve uma breve discussão entre os camponeses sobre qual deles levaria o “bico do papagaio” até a base militar. O chefe Sinésio decidiu com a sabedoria do rei Salomão. Como Iomar já havia acertado o tiro, caberia a Raimundinho levar o troféu. Iomar, de acordo com seu relato, pegou a cabeça, amarrou um cipó nas orelhas e a socou no bornal de lona do próprio Ari. O corpo permaneceu insepulto na área encharcada da grota.

Raimundinho carregou-a por 30 quilômetros pelas trilhas na mata. Chegaram à base de São Raimundo às 14 horas do dia seguinte. A cabeça já fedia muito. Ganharam 500 cruzeiros pelo serviço. Sinésio guarda nas lembranças cada detalhe daquele episódio. Inclusive as cifras. Ele comprou uma novilha, matou, carneou e vendeu os pedaços aos próprios militares. Triplicou assim o valor da recompensa, 1.500 cruzeiros no total. Dava para cada um dos três guias fazer a feira do mês. “Sobrou uma mixaria” para nós, conta Sinésio.

Ainda de acordo com as lembranças do camponês, o mesmo Dr. César que havia encomendado um “bico de papagaio” chamou seus subordinados para uma reunião.

“Vamos soltar todo mundo, porque sem o apoio dos moradores da região nós não vamos ganhar essa guerra nunca”, teria dito, segundo as lembranças de Sinésio.

“Eles soltaram todo mundo. Os mais velhos foram embora para casa e os mais novos todos serviram de guias. Então o povo dizia: É Deus no Céu e Sinésio na Terra” – relata o camponês, que jamais se arrependeu de sua escolha. Ao contrário. Orgulha-se dela.



[1] Refiro-me ao clássico Édipo Rei, obra do poeta e dramaturgo Sófocles (496 A.C – 406 A.C.), também autor de Antígona, outra referência da tragédia grega. Sófocles. Édipo Rei. Trad. Geir Campos. São Paulo: Abril Cultural, 1982.

[2] Uso o termo Acaso no sentido aristotélico, como consequência de uma probabilidade possível dentro de um contexto maior, base do que mais tarde a Filosofia estudaria como Teoria das Probabilidades.

[3] Sinésio Martins Ribeiro, falecido em 2013, aos 78 anos. Na época da guerrilha, era conhecido como Sinésio Bringel, corruptela de Berinjela. Depois que casou, adotou o sobrenome da mulher, Ribeiro.

[4] Iomar Ribeiro da Silva era “dono” de uma gleba de terra chamada São Raimundo, a 50 quilômetros da cidade de São Geraldo, PA, bem no epicentro da Guerrilha do Araguaia. Ao chegarem à região, os militares se apossaram de uma área de Iomar para instalar a Base Militar de São Raimundo. Hoje essa gleba se chama Fazenda São Sebastião. Uma das irmãs de Iomar, a Maria Galega, era na ocasião casada com Sinésio.

[5] Raimundo Clarindo do Nascimento, falecido em maio de 2012, aos 74 anos, assassinado a golpes de machado na cabeça, dois meses depois de prestar depoimento a esta pesquisa.

[6] Ricœur. Tempo e Narrativa, op. cit. pág. 213 e 214.

[7] Ricœur argumenta: “O que é uma história que se conta (story)? E o que é ‘seguir’ uma história? (…) Vê-se que esse esboço da noção de história (story) não está longe daquilo que chamamos acima de tessitura da intriga”. Idem, pág. 214.

[8] Idem, pág 242.

[9] No próximo ítem deste capítulo, 2.2 – “Acessando Lembranças”, detalhamento dessas entrevistas.

[10] Lúcia Maria de Souza (codinome Sônia).

[12] Está vivo até a presente data. Trabalha como pequeno agricultor na mesma região onde foi recrutado para a guerrilha, nas proximidades da Fazenda Fortaleza. Foi uma das fontes da reconstrução desse episódio, ao lado dos camponeses Sinésio Bringel, Iomar Galego e Raimundo Cacaúba.

[13] A história pessoal de Theodoro antes de aderir à guerrilha está contada adiante, no capítulo 4, “Processo Identitário”.

[14] Três das quatro fontes (Sinésio, Iomar e Raimundo) relatam esse detalhe macabro: que Ari ainda estava vivo quando o facão cego serrou-lhe o pescoço.

[15] Sören Kierkegaard. O Conceito de Angústia. Lisboa: Editorial Presença, 1972, pág. 36.

[16] Sinésio, como comerciante, sabia fazer contas de cabeça e conseguia tecer pequenas anotações. Iomar e Raimundo eram analfabetos.

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