Pode um gay governar seu povo?

A História mostra que não há qualquer relação entre sexualidade e a grandeza moral de um homem. Neste momento em que o Supremo formaliza o direito à união civil entre pessoas do mesmo sexo, é uma boa oportunidade para lembrar que, também, não existe relação alguma entre opção sexual –hétero, bi ou homo—  e competência profissional, ou coragem, bondade, honestidade.

Por Hugo Studart
Alexandre da Macedônia, por exemplo, era gay assumido. Em Roma, Júlio César era bissexual. Imperadores Otávio e Adriano eram homo. São Paulo de Tarso resistia a um “espinho na carne”. Não há como questionar a competência e coragem de nenhum deles. Ou a grandeza moral de Paulo e de Adriano.

John F. Kennedy, por sua vez, era um hétero promíscuo, Pedro I idem. Dom Pedro II era quase casto. JK era um boêmio. O sedutor Bill Clinton foi muito melhor como imperador do que o monogâmico George W. Bush. Napoleão manteve inúmeras, mas só amou duas. Bin Laden era poligâmico. Gandhi gostava de dormir nú, cercado de jovens “sobrinhas”, igualmente nuas em pêlo.

Heterossexuais, casados e com filhos, os ditadores Stalin, Pol Pot, Saddam Hussein, Augusto Pinochet, Emilio Médici. Por outro lado, solteiros e sem filhos: Hitler, Jean Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Madre Teresa de Calcutá, Dalai Lama…

A conclusão é que a opção sexual ou o estado civil não significa nada, não é nada mesmo! Não há lógica alguma em relacionar sexualidade com política, por exemplo.

Tarefa perdida, quase tanto quanto comparar os alcóolatras (Churchill e, diz o New York Times, nosso Lula) com os abstêmios (Hitler); os pequenos (Gandhi) com os grandes (Idi Amin); os brancos (Mussolini) com os negros (Mandela); os tarados (Kennedy) com os fidelíssimos (Ernesto Geisel).


TEORIA DA LIBERDADE

Ora, então porque os homossexuais foram tão perseguidos ou discriminados ao longo da história? Se a sexualidade não tem nada a ver com coisa alguma deste mundo, por qual razão ainda há 51 países do mundo que prendem cidadãos por sua opção sexual, e outros 08 países que os condenam à morte?

Em sua Filosofia da História, Hegel disse que a história do homem é uma eterna busca pela Liberdade. Com seus fluxos e afluxos, um passo atrás e dois à frente, com suas suas teses e antíteses – mas ao fim e ao cabo, em síntese, a Humanidade sempre caminhará rumo à Liberdade.

Hegel refletiu sobre isso no século das luzes, o 18, quando os iluministas estavam em pleno debate sobre os Direitos Humanos. Entre eles, o direito de livre escolha afetiva. Na época, o aríete do debate era o direito das mulheres se casar com o homem que viesse a amar, assegurado na Assembleia Nacional Constituinte da Revolução Francesa. Logo depois Napoleão estendeu esse direito aos homossexuais.

Se analisarmos os fluxos da Liberdade e sua relação com os homossexuais da História, chegaremos à constatação de que a decisão do Supremo brasileiro foi um passo a mais na longa e dolorosa caminhada rumo à conquista dos Direitos Fundamentais do Homem.

Julio Cesar começou a vida política sob suspeita de ter seduzido o rei da Bitínia. Carregou a mácula por toda a vida

ALEXANDRE E CÉSAR

Alexandre da Macedônia. Ele fez a fama entre os helenos de ter conhecido seus 13 mil soldados pelo toque anatômico. Seus biógrafos registram o nome de alguns de seus amantes e o fato de que não escondia sua preferência por rapazes. Ainda assim cravou seu nome na História como o maior general conquistador de todos os tempos. Todos os grandes conquistadores posteriores, de Pompeu a Napoleão (heteros), foram prestar honra ao pé de seu túmulo, num ato que simbolizava a busca pela coragem, determinação e carisma necessário aos governantes.

Caio Julio César iniciou a carreira política e militar seduzindo o velho rei da Bitínia, Nicomedes. Apesar de ter colecionado inúmeras amantes, César teve que enfrentar até o final da vida mexericos, gracejos e maledicências sobre esse episódio — que tudo indica ter sido verídico. O historiador Suetônio afirma que essa relação íntima com Nicomedes prejudicou sua reputação e o acompanhou como um opróbio inapagável, eterno: “Marido de todas as mulheres e amante de todos os homens”. Calvo Licínio chegou a compor um poema cáustico, imortalizando versos como

Roma iguala em horrores a Bitínia infame
E o impudico rei do qual César foi a fêmea.

Em discurso no Senado Romano, o patrício Dolabella chamou César de “a rival da rainha, o assento interior da liteira real”; já o senador Curião registrou nos anais que César era “a cloaca de Nicomedes” e “a prostituta bitiniana”. Ainda assim Caio Júlio entrou para a história como o maior de todos os governantes e emprestou seu sobrenome ao imaginário do poder. Onze de seus sucessores se apropriaram de seus sobrenome e, séculos mais tarde, os russos criaram o título de czar e os prussianos de kaiser. Ave, César!

No final do império Romano, as relações entre os sexos eram mais harmônicas e mais democráticas. É dessa época São Sebastião, belo centurião romano, considerado desde sempre o santo padroeiro dos gay.

Alexandre, o Grande: o fato de ter sido homossexual nada significou para conquistadores posteriores, como Pompeu, que foram a Alexandria prestar honras diante de seu túmulo

HABITUS CLASSICUS

Na Grécia antiga, um dos braços de nossa cultura ocidental, os relacionamentos afetivos e sexuais ocorriam entre um cidadão mais experiente e jovens inexperientes, os efebos. A civilização grega conferiu à homossexualidade masculina três estatutos. Em Creta, era um rito de passagem, uma etapa necessária entre a infância e a idade adulta. Já em Atenas, o ato sexual entre indivíduos do sexo oposto só ocorria para procriação, e o amor e o prazer para os do mesmo sexo. Em Esparta a homossexualidade servia para criação de vínculos afetivos e companheirismo no dentro do exército.

Naqueles tempos ocorreram situações curiosas envolvendo o assunto. O general Aristides, o “Princípe de Atenas”, tentou seduzir o filófoso Sócrates, quando já contava com quase 70 anos. Mais que declinar, correu apavorado pelas ruas de Atenas. Na mesma época, o estadista Péricles provocou espanto quando apareceu com uma efeba, Aspásia. Mesmo sendo mulher de inteligência e cultura e raras, tão linda que, reza a lenda, seria filha da própria Vênus, Péricles escadalizou. Afinal, amor e prazer deveriam ser com homens, jamais com mulheres.

O SEXO E O PODER

A questão da sexualidade comporta análises em várias dimensões. A primeira delas é o poder. Pode um gay governar seu povo? Pode ser presidente da República, governador ou prefeito? Pode apitar um jogo de futebol, ou comandar soldados, ser um general? Pode ser presidente de uma corporação empresarial? O pensam os cidadãos?

Fortaleza já teve uma prefeita que mantinha quatro amantes ao mesmo tempo, em relações praticamente públicas. Um escândalo atrás de outro escândalo. Fez uma péssima administração. Foi despachada de volta para casa nas eleições seguintes. São Paulo teve uma prefeita, Luiza Erundina, solteira e sem filhos, que foi eleita sob fortes boatos de que seria homossexual. Fez uma boa gestão, foi eleita deputada federal várias vezes consecutivas e é respeitadíssima por onde passa. Ela é seríssima no trabalho e discreta na vida pessoal.

Na última eleição para prefeito, houve incidentes nas duas maiores cidades do país. Em São Paulo, na reta final da campanha, Marta Suplicy (logo quem?) atacou Gilberto Kassab por ser solteiro e sem filhos. Ou seja, insinuando que seria gay. Ora, o que se sabe de Kassab é que mantêm uma vida pessoal discretíssima e que acabou sendo reeleito porque o paulistano acreditou em sua competência administrativa.

No Rio de Janeiro, por sua vez, foi só Fernando Gabeira ir para o segundo turno e ultrapassar o adversário Eduardo Paes nas pesquisas, que seus adversários ressuscitaram, em piadas e planfletos, um antigo boato de que Gabeira seria bissexual. Gabeira é casado e tem duas filhas adultas.

Gabeira: ei aí um dos políticos de maior coragem pessoal que o Brasil já produziu

As histórias sobre a sexualidade de Gabeira entrou para o imaginário da intelectualidade carioca em 1979, quando ele retornou do exílio e foi fotografado na praia com a tanguinha de crocrê emprestada por uma prima, a jornalista Leda Nagle. Ele já relatou em entrevistas que não tinha calção, era domingo, as lojas estavam fechadas e que estava retornando de um longo exílio na Suécia, pais onde as pessoas não dão a mínima para as convenções sociais, que até andam nuas nas ruas. Gabeira queria ir â praia, então usou a tanga da prima. Na Suécia teria ido nú.

O que se sabe de concreto a respeito de Fernando Gabeira é que se trata de um homem de imensa coragem pessoal, um dos heróis da resistência à ditadura militar, que largou a zona de conforto de um emprego seguro e arriscou a própria vida entrando para a luta armada. Que participou do histórico sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick, ato que salvou a vida de 15 presos políticos. Que amargou 10 anos de exílio, do qual não guardou rancor, mas aproveitou para abrir os horizontes de sua visão a respeito do mundo e das idéias. E que ao retornar com a Anistia, teve a coragem de questionar de público o stalinismo da esquerda pátria.

Seus próprios ex-companheiros de luta, os stalinistas, aproveitaram o episódio da tanguinha para detratá-lo. Ainda assim Gabeira prosseguiu firme em sua cruzada por novos ideais, agora ambientalistas. Que Gabeira se mantém firma na luta ambientalista por mais duas décadas, e que foi um dos primeiros a romper com o PT quando Lula chegou ao poder, antes mesmo de estourar o episódio do mensalão.

Enfim, o que importa saber sobre a sexualidade de Gabeira, autor de livros como “Que é isso, companheiro?” e “Crepúsculo do Macho”, é que se trata de um político com grande força de caráter e imensa coragem pessoal — talvez o mais íntegro entre os políticos em atuação no Brasil.

IMPERADOR TRAVESTI

As sociedades ocidentais costumam aceitar entregar o poder para homossexuais, ninfomaníacas, testicocéfalos, virgens, castos, impotentes, grupalistas e até portadores de algumas taras sexuais leves. Sem problemas. Contudo, espera-se dos governantes que sejam comedidos nos hábitos e discretos em suas vidas privadas.

Há certos cargos públicos que emanam a capa da respeitabilidade, como os comandantes militares, os magistrados e os governantes, para os quais historicamente há muita dificuldade social em aceitar homossexuais muito efeminados, notadamente os tipos folclóricos, escandalosos e cheio de trejeitos.

Há outras funções públicas, como de vereador, deputado ou os cargos ligados às artes, cujo grau de exigência é bem menor. Na Itália, a atriz pornô Cicciolina foi eleita nos anos 80 deputada federal, lembram-se? Depois disso ocorreram em todo o ocidente centenas de casos similares, de atrizes pornô ou travestis eleitos para cargos proporcionais.

Heliogabalo: ungido imperador pelos legionários do Oriente, no poder vestia roupas de mulheres.

 

Aquela mesma Roma de Júlio César teve uma sucessão de imperadores homossexuais, conquistadores como Otávio Augusto, sábios como Adriano. Eram assumidos, mas exerciam seus deveres públicos com competência. Acabaram ambos, Otávio e Adriano, inscritos dentre os grandes da humanidade.

No outro extremo, vale lembrar que no século II subiu ao trono um certo Heliogábalo, nascido na Síria, e elevado ao poder pelas legiões orientais. Ao tomar a púrpura do império, começou a demonstrar trejeitos efeminados. Sob seu governo, os atores, dançarinos, aurigas e atletas atingiam posições de destaque com base em seus excessos sexuais. Certo dia decidiu governar com vestes femininas.

Um de seus amantes, um escravo, foi libertado e acabou assumindo todo o poder imperial. Certa feita o ex-escravo entrou soberbo no Senado Romano para comunicar um édito do imperador. O arauto, muito irônico, anunciou: “Vai falar o esposo da imperatriz”.

É evidente que esse arranjo não poderia durar muito tempo. As tropas petrorianas ficaram repugnadas com sua conduta. Os patrícios e a plebe também. Um dia a turba cercou o “esposo da imperatriz” e o trucidou. Sobraram apenas seus pedaços. A seguir os pretorianos mataram o César travesti e colocaram no poder alguém mais discreto.

NOSSA HERANÇA JUDAICO-CRISTÃ

Nossa herança mais liberal, como já dito, vem dos gregos e romanos. Os curiosos hábitos sexuais gregos, por sua vez, são herança do antigo Egito. Documentos dos tempos dos faraós revelam práticas homossexuais não somente entre os homens, mas também entre deuses Horus e Seth.

Na Civilização seguinte, na Mesopotâmia, também havia bastante liberdade para a expressão da homossexualidade. Na Índia, por sua vez, desde os tempos de antanho até os dias de hoje, é comum que os homossexuais sejam castrados, por livre escolha, passando a constituir a casta dos eunucos. Eles cumprem funções mágicas e rituais, dentre as quais abençoar os casamentos e realizar danças rituais em honra aos antigos deuses.

No Oriente Médio a homossexualidade foi amplamente praticada na antiguidade – e ainda hoje entre os turcos. Alguns povos da região da Palestina, como os sodomitas, tinham como tradição rituais homo-eróticos. Foram seus inimigos, os judeus, que criaram o termo “sodomia” para se referir ao “pecado” do sexo entre homens. Aliás, a cidade de Sodoma, revelou o profeta Jeremias, teria sido destruída por Deus como castigo pelas atitudes imorais de seus habitantes. Os cristãos incorporaram essa herança cultural judaica.

Na Idade das Trevas, a Igreja Católica passou a reprimir até mesmo mulheres que deixavam deixavam aflorar a sexualidade. Eram bruxas! Quanto aos homossexuais, chamados de hereges, também foram queimados nas fogueiras da Inquisição.

Na Idade das Trevas, as mulheres que deixassem aflorar a sexualidade eram consideradas bruxas

Quando os portugueses desembarcam no Brasil, encontram muitos índios e índias praticantes do “abominável pecado de sodomia”. Em 1521, as Ordenações Manuelinas, o mais antigo Código Penal brasileiro, prevê a pena de morte na fogueira, confisco de bens e a infâmia sobre os filhos e descendentes, para atividades homossexuais. Ainda assim, perdura em Pernambuco uma tribo, os funi-ô, cujos índios, quase todos, oscilam entre bi, homo ou travestis. Como explicar?

A IDADE DA RAZÃO

O jogo só começaria a virar em meados do século 18. Em 1762, Rousseau publica Émile e Sophie, disseminando na Europa os romances epistolares e criando uma forte onde de empatia pelos direitos das mulheres. Especialmente pelo direito à livre escolha afetiva.

Em 1891, a Assembléia Nacional Constituinte da França adota a Carta dos Direitos Universais do Homem, concedendo às mulheres o direito à livre escolha afetiva e ao divórcio. Logo depois, em 1810, o do Código Napoleônico retirou os delitos “homossexuais” do Código Penal da França.

 

Ao longo de todo o século 19, o discurso religioso é substituído pelo médico e toma conta do mundo. O homossexual, de ambos os sexos, deixou de ser visto como um pecador para ser visto como um doente mental, que precisava ser tratado ou isolado em instituições psiquiátricas.

Em 1869, o médico austro-húngaro Karoly Maria Benkert cria o termo homossexual que passa a ser usado amplamente. O homossexualismo se torna categoria científica, uma “anomalia” a ser estudada pela ciência.

 

A ERA DOS EXTREMOS

Se a dialética de Hegel funciona, então vale lembrar que em 1871 é adotada na Alemanha uma nova legislação penal para punir o comportamento homossexual entre homens. É prevista pena de até dez anos de prisão e reeducação para os gays.

Triunfa a Revolução Soviética. Para os comunistas, homossexualismo era encarado como um desvio pequeno-burguês, “tremendamente anti-revolucionário”, parafraseando Lenin.

Segundo o Espírito Revolucionário, um bom soviético tinha que ser muito macho, e homossexualismo não passava de “desvio pequeno-burquês” (foto: Revolução de 1917)

Triunfam também os fascistas na Itália, Espanha, Portugal. Na Alemanha, Hitler começa a enviar para os campos de concentração judeus, ciganos, opositores políticos, deficientes físicos. E também os homossexuais. A livre opção afetiva não estava nos planos da raça pura ariana.

CHEGADA DOS BONS VENTOS

O preconceito só começaria a mudar a partir da década de 1950. Marco fundamental foi o Relatório Kinsey, do biólogo Alfred Charles Kinsey). Segundo o relatório, cerca de 10% da espécie humana seria de indivíduos exclusivamente homossexuais. Mesmo percentual de qualquer espécie de mamíferos. Ele e surpreendeu a todos. E começou a mudar o mundo.

Contudo, apenas em 1985 a Organização Mundial de Saúde retiraria a homossexualidade do elenco das patologias, proscrevendo o termo “homossexualismo” (“ismo” é o sufixo que designa as patologias).

Em 1978 acontece a primeira parada gay do mundo, em Manhattan, em decorrência da repressão policial contra um bar gay, o Stonewall. No Brasil, os primeiros movimentos de “orgulho gay” chegaram nos anos 90, quando grupos de todo o país começaram a se mobilizar. A Parada Gay de São Paulo, hoje uma das maiores do mundo, só teria início em 1997.

Como se vê, é longa essa História. Mas são muito recentes as vitórias da Liberdade.

(Em tempo, devo boa parte das informações e datas acima à apuração da minha aluna Isabella Sanchez, co-autora de uma reportagem sobre o tema para a revista digital Paulista900. Ela produziu um belíssimo gráfico com a linha do tempo sobre repressão e liberdade sexual, desde a pré-história à decisão do nosso Supremo. E inspirou-me a escrever meu próprio artigo.

Recomendo, no link http://www.paulista900.com.br/?p=2627)

 

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