Autor: studart

O conceito de Cultura: entre a teia de significados de Geertz e o entrelugar de Bhabha

Aos historiadores da cultura, é uma boa opção construir a narrativa dentro do conceito da “teia de significados” de Clifford Geetz. Ou a partir do conceito do entrelugar do indiano Hommi Bhabha por Hugo Studart Desde que nos primórdios do Iluminismo John Locke apresentou seu projeto humanista e civilizatório fundamentado na ideia de superioridade filosófica e cultural de uns povos sobre os outros, pelo menos no Ocidente, o conceito de cultura vem guardando uma intrínseca relação com os hábitos da aristocracia, relegando todas as demais manifestações no interior das sociedades civilizadas a disciplinas outras, denominadas folclore, ou antropologia social, ou história das tradições populares. Locke chegou...

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Histórias de homens que sonhavam produzir vinho de qualidade no Brasil

de Bento Gonçalves Nova Pádua tem 500 habitantes, mas consegue protagonizar dois fenômenos agrícolas. Encravada numa das mais belas paisagens do Vale das Antas, na Serra Gaúcha, o município é o sétimo maior produtor nacional de uvas. O que mais chama a atenção por lá, contudo, é uma pequena vinícola familiar, a Boscato, protagonista do mais ousado projeto de produção de uvas finas do País. Proprietário de dois nacos de terras que somam 14 hectares, metade de uma gleba da reforma agrária, o patriarca Clóvis Boscato, 56 anos, tinha o sonho de produzir uvas extraordinárias (e vinhos idem) com tecnologia de ponta mundial. Então enviou a filha Roberta para estudar agronomia na capital; e depois mandou que fizesse mestrado em irrigação. Um dia ela voltou para casa com um ideal, encomendado pelo pai, de irrigar cada palmo da terra por gotejamento. “Pai, é inviável”, decretou. Antes que o patriarca desabasse de decepção, a mãe Inês decidiu: “Então vamos fazer”. Cinco anos depois, cada centímetro da terra dos Boscato é irrigado é por gotejamento –e tudo é controlado por computadores. Há uma estação meteorológica própria que orienta a vazão das gotas para cada micro-clima –no alto do morro, mais seco, vai mais água, na depressão da fralda, menos. As videiras, uma a uma, são podadas pela família e os oito empregados, apenas sete ramos para cada lado, e eles só deixam...

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Enterrem meu coração num jatobá na floresta

  Por Hugo Studart Estive ontem à noite na festa de entrega do Troféu Raça Negra, promovida pela Afrobrás e pela UniPalmares, Faculdade da Cidadania Zumbi dos Palmares, de São Paulo. Na noite anterior, assisti ao DVD “Enterrem meu coração na curva do rio”, sobre um índio sioux, em verdade um mestiço, egresso da tribo do mitológico cacique Touro Sentado, que viveu no mundo dos brancos, se tornou o primeiro “índio” médico nos Estados Unidos e terminou a vida lutando pela defesa e justiça para com seu povo.O filme me comoveu profundamente. A festa de Zumbi também. Foi um dos eventos mais bonitos, edificantes e emocionantes que meus cabelos brancos já presenciaram. Por vezes, ou melhor, muitas vezes, me questionam por que eu, um branco, ao invés de defender a meritocracia, instrumento mais democrático já inventado pelas sociedades, defendo ações afirmativas, como cotas para negros nas universidades e empresas? Jamais revelei as verdadeiras razões. Defendo por meu pai, por mim, por todos. Defendo as ações afirmativas para as minorias étnicas, negros e índios, porque quero que enterrem meu coração ao pé de um grande jatobá de uma vasta floresta. SER BUGRE, SER CRIOULO Certa feita, ainda adolescente, li a história de um militante dos Direitos Civis nos Estados Unidos. Seu nome foi-se no tempo, mas a história ficou na memória. Ele começava o enredo contando que só na idade adulta...

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Por que deixar de lado a tal “neutralidade” e escrever na primeira pessoa do singular?

Ensinaram-me que um jornalista deve buscar a tal “neutralidade” e a só usar verbos na terceira pessoa, do singular ou plural. Já me ensinaram muita coisa errada fundamentada no racionalismo aristotélico. Quando entrei para o Mestrado em História, minha orientadora instigava-me a redigir na primeira pessoa do singular. Achei estranho. “E a neutralidade científica?” –questionei. “Não existe” –asserverou.  Aos poucos, fui me acostumando a escrever sobre as ideias ou experiências pessoais e a acreditar ser impossível dissociar um conteúdo de seu autor. Afinal, como já ensinava o estóico Zenão com sua teoria do Macrocosmos e do Microcosmo, tão em voga no panteísmo pós-moderno, a energia divina trespassa todos os seres. Nós próprios somos a entidades a ser analisadas, ensinava o hermeneuta Heiddeger. Por isso, antes de escrever ou pensar, é essencial confessar. Por Hugo Studart Hoje, costumo usar o “eu” até mesmo em artigos políticos. Dias atrás enviei um artigo acadêmico para uma revista de História, no qual teci relatos das minhas pesquisas de campo sobre a Guerrilha do Araguaia. O pareceirista devolveu, pedindo que eu extraísse o que fosse referência pessoal, posto que não interessaria a ninguém. Mantive, mas com uma longa justificativa em nota de rodapé. Minha própria mulher, Adriana, já me aconselhou a extrair referências pessoais de um livro que estou escrevendo. Afinal, argumentou, simbolizando o que pensa a maior parte dos homens e mulheres de nosso tempo, a história do autor só interessa ao próprio, talvez à família, ou ainda ao psicólogo. Discordo...

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