Autor: Pablo Amorim

Como fundamentar uma tese sobre a memória dos guerrilheiros do Araguaia

Por Hugo Studart  Nas escolas de Jornalismo, minha primeira carreira, ensinam com fervor quase religioso que o certo é cultuar a neutralidade e a só usar verbos na terceira pessoa, do singular ou plural. Já me ensinaram muito pastiche fundamentado no pretenso racionalismo aristotélico, que encara o mundo tão-somente dentro dos sentidos materiais. Quando entrei para o mestrado em História, minha orientadora[1] instigava-me a redigir na primeira pessoa do singular. Achei estranho. “E a neutralidade científica?” –questionei. Foi a deixa para que me apresentasse aos autores da Nova História. Segundo Walter Benjamin, por exemplo, não existe a tal “neutralidade científica”. Todo conhecimento, explica, é um embate de interesses. Aos poucos, fui me acostumando a escrever sobre as ideias ou experiências pessoais e a acreditar ser impossível dissociar um conteúdo de seu autor. Arthur Schopenhauer, o filósofo das angústias, dizia que o homem parte de seus próprios horizontes, dos limites do seu campo de visão, como os limites do mundo. Assim, nossas versões sobre o mundo são limitadas tantos pelas observações limitadas que posso fazer do Universo, quanto pelas experiências pessoais inseridas em uma vasta “vontade” universal, da qual nossas ações são apenas uma mera parte. Por isso todos nós costumamos tomar nossos respectivos horizontes pessoais como o sendo limites universais. “Nós próprios somos as entidades a ser analisadas”, ensina Martin Heidegger. Em sua obra mais reconhecida, Ser e Tempo[2],...

Read More

A Ordem e o Progresso de Comte dentro da Teoria da História

Anotações sobre a vida, a obra e a Filosofia da História de Augusto Comte, inspirador maior do imaginário desenvolvimentista de quase todos os governoda da América Latina até nossos tempos pós-modernos (Para a disciplina Teoria da História, ministrada pelo professor Fernando Catroga, do Instituto de História das Ideias da Universidade de Coimbra. Por José  de Sousa Pais, aluno do doutorado em História, da Universidade de Coimbra   QUEM FOI AUGUSTO CONTENasceu em Montpellier em  1798 e morreu em  Paris em 1857), tendo sido um filósofo de  referência. Teve formação na área da matemática, mas muito influenciado pelo Conde Henri de Saint-Simon (1760–1825), expoente do socialismo utópico, de quem foi secretário e colaborador entre os seus 19 e os 36 anos. Copiando o estilo (pouco digno) de  Saint-Simon, apropriava-se  dos escritos dos seus discípulos e dava-lhe cunho próprio,  dando um  ênfase  à economia na interpretação dos problemas sociais. Comte entrou em rota de colisão com Saint-Simon,  e  passou a desenvolver reflexões próprias, tendo concluído algumas ideias basilares em várias obras:       1) “Tudo é relativo, eis o único princípio absoluto” (1819); 2) “Todas as concepções humanas passam por três estádios sucessivos –             teológico, metafísico e positivo -, com uma velocidade proporcional à velocidade dos fenómenos correspondentes – “lei dos três estados (1822)”; 3)    Opúsculos de Filosofia Social (1816-1828) (republicados em conjunto, em 1854, como apêndice ao volume IV do Sistema de política...

Read More

Concluam os próprios senhores se Palocci é um homem probo

  Antonio Palocci ensaia tomar o lugar de Dilma Roussef como candidata do PT à sucessão de Lula. Ou, o que é mais provável, ser o candidato do partido ao governo de São Paulo. O jornal Valor Econômico desta segunda-feira 12 de janeiro publica na primeira página matéria sobre os planos políticos de Palocci. Trata-se de um balão de ensaio, naturalmente. Ocorre que tem telefone no meio do caminho – com provas de que ele teria usado o Ministério da Fazenda para montar (ou facilitar) um esquema de tráfico de influência no governo, a chamada “República de Ribeirão Preto”, ou mesmo mantido contato insistente com a cafetina Jeane Mary Corner, lembram-se dela? Trata-se do número 8111-7197, de Brasília, usado por Palocci quando era ministro da Fazenda. O sigilo desse número foi quebrado há dois anos. Todos os detalhes estão no processo em poder do presidente do Supremo, Gilmar Ferreira Mendes, no qual Palocci é acusado de mandar quebrar o sigilo bancário do caseiro Francenildo dos Santos Costa. O caseiro, vale à pena recordar, trabalhava na mansão no Lago Sul, em Brasília, onde os amigos de Palocci usavam como escritório de lobby e garçonière para orgias. Francenildo viu Palocci várias vezes na mansão. Para tentar desmoralizá-lo, um assessor de Palocci conseguiu quebrar o sigilo bancário do caseiro. Palocci acredita que, depois de absolvido pelo Supremo, ficará livre para tentar ser...

Read More

Quando Deus chama um poeta

BRUNO TOLENTINO Era um intelectual de estirpe clássica, escreveu sua apologia em Oxford e desceu ao inferno para resgatar os demônios. Queria morrer como um filósofo. De volta ao Brasil, virou uma peste. Encontrou um país devastado pelas panelinhas ideológicas, deu início a uma faxina cultural e decidiu escolher um outro fim, o de um kamikaze. Entrei em seu apartamento no exato momento em que o poeta soube que em breve iria morrer de Aids. Quis a providência que a primeira pessoa a escutar o poeta em suas reflexões sobre a vida após o aviso da morte fosse um repórter (Publicado originalmente pela revista República) Por Hugo Studart Em 1964 Cecilia Meireles foi visitada em seu leito de morte por um jovem poeta de boa estipe, um certo Bruno Tolentino. O rapaz sentou-se à cabeceira da musa e, comovido, compôs um longo poema –depois desapareceu do Brasil e nunca mais se ouviu falar de sua pena. Ficaram os versos, no qual ele explica como gostaria que fosse sua própria morte: — Esta vida se compõe de curas/ provisórias e sucessivas,/ mas tu, por muito mais que vivas,/ te curaste só das amarguras:/ nem peço cura mais tranquila/ para mim. Tentarei repetí-la. Passaram-se mais de três décadas. Diria hoje um poeta da velha estirpe, como já é o caso de um Tolentino, que nada, nada mais é como dantes, posto que o bafo da...

Read More