Autor: Pablo Amorim

É Paulo Maluf quem afirma: “Lula é mais malufista do que eu”

O que está acontecendo com o velho Paulo Maluf quando sai por ai elogiando o presidente Lula. Será que Maluf lulou? “Não, Lula é que malufou, ele está aderindo às minhas idéias”, responde o candidato do PP a prefeito de São Paulo. “Lula caiu na real e hoje defende as idéias do Paulo Maluf quando foi candidato à Presidência há 20 anos atrás.” E prossegue certeiro, implacável: “Lula está à minha direita, ele até delfinhou, escuta mais o Delfim Netto, meu companheiro de 50 anos, do que o PT”. Maluf arremata: “O Banco Central do Henrique Meirelles faria até o saudoso Roberto Campos se envergonhar; ele defende banqueiro com tanto fervor que faz eu me sentir comunista”. Ah, sobre as contas bancárias do exterior, é tudo fantasia, naturalmente. A voz anasalada é a mesma. As frases de efeito, sempre viscerais, também. Mas Paulo Maluf velho de guerra é uma nova pessoa. Depois de 40 anos de vida pública, na qual foi prefeito de São Paulo duas vezes, governador uma e candidato derrotado outras sete, depois de amargar 40 dias numa prisão da Policia Federal, apanhado pelo mesmo delegado Protógenes Queiroz que pescou Daniel Dantas, Naji Nahas & Cia na Operação Satiagraha, ele está de volta à política. Primeiro foi eleito deputado federal pelo PP paulista, com 739 mil votos, a maior do País. Maluf chegou ao Congresso Nacional mais...

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É sempre bom lembrar que somos feitos da mesma matéria dos sonhos

Foi Próspero, protagonista de “A Tempestade”, obra de Shakespeare, que disse isso. Contudo, por pertinência ao tema, tomei a frase emprestada para a abertura da Tese de Doutorado que acabo de entregar à banca. Chama-se: “EM ALGUM LUGAR DAS SELVAS AMAZÔNICAS: As Memórias dos Guerrilheiros do Araguaia (1966-1974)”. Foram cinco anos de pesquisa, leituras e escrita. Uffa. Compartilho com os amigos o texto de Apresentação da Tese, no qual trato muito de esperança e de sonhos. Afinal, como bem o disse Próspero, “somos feitos da mesma matéria dos sonhos”. E o homem é feito de carne, que vive, morre e volta a ser pó. Mas carrega ao mesmo tempo uma essência que muitos acreditam ser infinita e imortal. Platão chamou essa essência de anima, alma. Seria ela a responsável por nos fazer recordar o passado e imaginar o futuro. O homem é, definitivamente, o maior paradoxo da Criação, um ser que existe simultaneamente em anima e em carne, que constrói e destrói, que vive ao mesmo tempo no passado, no presente e no futuro. Sonhadores, idealistas e aventureiros. Conquistadores, missionários e voluntários. Ativistas e revolucionários. Existem seres que atravessam a existência tomados de sonhos, de esperança no futuro. Pois desde que os primeiros deles saíram às portas das cavernas e começaram a olhar em direção ao horizonte, imaginando o que poderia haver do outro lado da montanha, esse punhado...

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Como foi a decapitação do guerrilheiro Arildo Valadão, um dos desaparecidos do Araguaia

(Trecho de abertura do Capítulo 2 da minha Tese de Doutorado, “Em algum lugar das selvas amazônicas: As Memórias dos Guerrilheiros do Araguaia”) A BARBÁRIE COMO ESCOLHA No momento em que teço estas linhas, em novembro de 2013, completam-se exatos 40 anos que seis jovens de origens distintas, cada qual acalentando suas próprias esperanças, encontraram-se em uma encruzilhada remota de algum lugar das selvas amazônicas. Na trama grega, as tragédias costumam ter início em uma encruzilhada. Como aquele entroncamento de três estradas no qual Édipo, por obra do Acaso, se encontra com o rei Laio e o mata depois de uma discussão banal, sem saber que era seu próprio pai[1]. No caso em questão, objeto desta pesquisa, a encruzilhada fica na Grota do Cristal, uma pequena fonte de água onde três trilhas na floresta se encontram, localizada a 200 metros do rio Sororozinho, bem no epicentro da região onde as Forças Guerrilheiras do Araguaia e o Exército brasileiro se enfrentaram por três anos consecutivos. Foi nessa tríplice encruzilhada que o Acaso[2] colocou três guerrilheiros e três camponeses frente a frente, em fatídico encontro que definiria o desfecho daquela luta. O sol a pino indicava que era meio-dia de 26 de novembro de 1973 quando o primeiro grupo chegou à grota. O líder (dos camponeses) chamava-se Sinésio Bringel, um pequeno posseiro, tropeiro e dono de bodega, casado, três filhos, tinha...

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