É público que há muito o ex-presidente malufou. O que está chocando senhoras pudicas, como Erundina, é que misturas de mau gosto, como feijão com marracão ou Lula com Maluf, deveriam se manter confinadas à serventia da casa

Contubérnio: o mesmo que relação ilícita

Por Hugo Studart

Contubérnio é um termo clássico, originário da menor unidade dos exércitos romanos, o contubernium, grupamento de oito homens que dividiam a mesma tenda, comiam juntos e lutavam idem. Era um substantivo positivo, de camaradagem. O cristianismo adotou o termo para se referir à convivência de pessoas que mantém relações sexuais sem estar casadas. Geram filhos bastardos. Na política, passou a ser usada como aliança secreta, ilícita, reprovável. Alianças espúrias, enfim.

Isto posto, reproduzo um diálogo entre o Sr. Paulo Salim Maluf e dois jornalistas:

— Mas o que está que está acontecendo? Por que Maluf lulou?

– Não, eu não lulei, o Lula é que malufou. Ele é quem está aderindo às minhas ideias.

— Como assim?

— O Lula já disse tempos atrás que quem na juventude é certo ser socialista, mas quem depois dos 60 anos continua com as mesmas ideias, tem que procurar um psiquiatra. Ele caiu na real e hoje defende as ideias do Paulo Maluf quando foi candidato à Presidência há 20 anos atrás. E defende as ideias liberais com mais ardor do que eu. Ele até “delfinhou”, escuta mais o Delfim Netto do que o PT. Enfim, tudo aquilo que eu pregava, o Lula engatou a quarta, botou 8 mil rotações e está andando a 300 quilômetros por hora. Hoje ele está à minha direita, o Lula é mais malufista que eu.

Esclareça-se aos senhores, prezados leitores, que essas palavras não foram ditas ontem ou anteontem, após Maluf abrir salões e jardins de sua mansão a dois ilustres convivas, Lula e Fernando Haddad, eternizando o momento em fotografias que têm provocado tantas celeumas. São palavras antigas, pronunciadas no dia 16 de fevereiro de 2007, assim que Maluf retornou a Brasília para tomar posse como deputado federal, quando foi entrevistado por dois jornalistas da revista IstoÉ, este escriba e o repórter Hugo Marques, hoje em Veja. Suas palavras foram publicadas na edição da semana subsequente, na sessão de entrevistas Páginas Vermelhas. Podem conferir.

O filósofo alemão Walter Benjamin lembra que a estrada que nos levará ao futuro é a mesma que nos trouxe do passado. Assim, necessário recordar que desde 2003, quando Lula chegou ao poder, o aglomerado malufista, ora chamado PPB, vem fazendo parte de um contubérnio que dá sustentação política aos três governos eleitos em nome das bandeiras do PT. Estranho é estranhar o encontro cordial entre esses dois senhores.

Quando Maluf ousou dizer que Lula estava à sua direita, lá pelos tempos de 2007, não fazia puro chiste. Falava sério, referia-se a um governo com práticas neo-liberais extremadas, que vinha represando os investimentos públicos (mas não os gastos e o desperdício) com o objetivo de fazer um superavit primário de mais de 4% do PIB, às vezes 5%, índice indecente para os desenvolvimentistas, mas que fazia a felicidade dos banqueiros. Era também um governo despedaçado moralmente pelo mensalão, prática da qual deputados do PPB malufista também estavam envolvidos.

Mas Lula havia sido reeleito presidente da República e procurava juntar os cacos para tentar protagonizar um novo começo. E Maluf, depois de amargar o cárcere da Polícia Federal, assim que chegou a Brasília para também tentar um recomeço como deputado federal, foi ao Palácio do Planalto com sua bancada beijar a mão de Lula. Foi um encontro discreto, com fotografias protocolares. Maluf, sorrisos largos, com sua contumaz cara-de-pau. Lula buscava exibir-se constrangido. Foi nesse contexto que Maluf explicou por que subira a rampa do palácio:

— Ora, Lula hoje é mais malufista do que eu!

A Arte da Política guarda muitas similaridades com a culinária. Aprecia-se certas excentricidades, como combinar doce com salgado, ou operário com empresário. Aceita-se quase tudo, como comer carne crua ou mastigar insetos, isso aí, hábitos culturais, ou engolir ditaduras, como a do proletariado, considerada uma excepcionalidade do tempo.

Mas há certas misturas, como feijão com macarrão, ou idealismo com fisiologismo, que pelo mau gosto intrínseco que exalam, costumam ser confinadas à serventia da casa. Vende-se pratos-feitos de macarrão com feijão nos botecos das periferias, mas nunca se vê tal mistura ofertadas nas salas de jantar de convivas com estômago delicado, ou fotografadas para as revistas de culinária.

Assim deveria ser o antigo e conhecido contubérnio fisiológico de Lula com Maluf. Há cinco anos, Lula procurava manter Maluf na serventia da casa. Intriga compreender por qual razão, em junho de 2012, justo agora quando Maluf é um procurado da Interpol, Lula resolve oficializar sua antiga relação “ilícita” como um “casamento”, com direito às pompas, incluindo a clássica fotografia dos noivos em um belo jardim.

Talvez Lula esteja de fato apaixonado por Maluf, como passou dois governos consecutivos boquiaberto por Delfim Netto. Talvez seu organismo político esteja quimicamente dependente das práticas fisiológicas malufistas. Talvez Lula tenha, simplesmente, caído no pecado mortal da soberba, o de achar que tudo pode, sem medir as consequências. As três alternativas –a relação com Maluf, o pragmatismo fisiológico e a soberba pessoal –são há muito conhecidas pelos petistas. O que de fato está chocando senhoras como Luiza Erundina é oficializar de público esse contubérnio iniciado há quase dez anos.

Erundina é uma petista da estirpe clássica, fundamentada em ideais autênticos. Quando prefeita de São Paulo, buscou praticar com autenticidade os fundamentos socialistas. Sua administração foi manchada pelos escândalos protagonizados por seu vice, Luiz Eduardo Greenhalgh, em suspeição jamais apurada de tentar morder empreiteiras, escândalo conhecido como Caso Lubeca. Ela fingiu que nada via e nada sabia e tocou a vida em frente.

Portanto, já lá se vão mais de 20 anos que Erundina perdeu a virgindade ideológica. Curiosamente, foi expulsa do PT quando aceitou ser ministra de FHC. Seu partido então considerava “espúria” e “ilícita” firmar aliança com a social-democracia do PSDB. Desde então, ela abriga-se em uma legenda auxiliar do PT, chamada PSB, comendo arroz com feijão e carne moída na cozinha, raramente saboreando o filet mignon servido na mesa da sala de jantar.

Foi Platão quem apresentou o conceito da “nobre mentira”, aquele que concedia aos governantes o direito de simular e de dissimular, tal como um médico mente aos pacientes, ou como se mente às crianças. Em seu ensaio A Mentira na Política, a pensadora Hannah Arendt mostra que a veracidade nunca esteve entre as virtudes políticas, e que mentiras, embustes e auto-embustes foram encarados como instrumentos justificáveis nesses assuntos.

Ao oficializar como casamento o velho contubérnio com Maluf, Lula tirou dos petistas mais pudicos o direito à “nobre mentira” ou, na melhor das hipóteses, ao “auto-embuste”. É esta a única e real crise existente no episódio. Os petistas mais pudicos, como Luiza Erundina, preferiam permanecer conjugando um adágio popular tão velho e conhecido quanto o contubérnio malufo-lulista:

“Me engana que eu gosto”.