Era previsível desde antes da posse que a presidente rompesse com seu criador. A campanha já está na rua, Dilma x Lula. Há outras previsões se concretizando

É possível ver o futuro do governo Dilma: feudos políticos, resultados concretos pífios e economia com oligopólios crescentes

Por Hugo Studart

É do escritor William Faulkner a observação de que “o passado nunca está morto, nem sequer é passado”. Hannah Arendt, uma das maiores pensadoras do século XX, adorava fazer uso dessa frase de Faulkner para argumentar que o mundo em que vivemos, em qualquer momento, é o mundo do passado. O mundo “consiste nos monumentos e nas relíquias do que os homens fizeram para o bem ou para o mal; os seus fatos são sempre o que se tornou”, escreveu Arendt. “Em outras palavras, é bem verdade que o passado nos assombra; é função do passado assombrar a nós que somos presentes e queremos viver no mundo como ele realmente é, isto é, como se tornou o que é agora”.

Isto posto, venho confessar que estou assombrado com algumas previsões que fiz antes da posse de Dilma, e que estão se concretizando de forma muito mais rápido do que nossa vã imaginação poderia cogitar. Relato a história completa a vocês, prezados leitores. No dia da eleição presidencial do segundo turno, assim que as urnas foram fechadas e as pesquisas de boca-de-urna apontaram a vitória da candidata de Lula, um velho e bom amigo, o jornalista Assis Moreira, correspondente em Genebra do jornal Valor Econômico, telefonou-me.

Queria trocar impressões sobre o que seria o futuro governo Dilma. Conversa entre amigos, sem compromissos. Ele ia instigando, e eu tecendo previsões sobre vários temas. Horas depois, enviei-lhe e-mail registrando os principais pontos da conversa. Respondeu-me que estava ali um excelente artigo, que eu deveria publicar em algum grande jornal. Na hora, fiz pouco caso daquelas previsões. Achei que não valia artigo. Mas resolvi deixá-las registradas. Teci uma abertura e publiquei em meu blog. Sem pretensões. Sem avisar a ninguém. Dias depois, comecei a receber mensagens sobre aquele post. Alguém leu e rebateu. Rápido, aquele texto, como vírus, transformou-se em um dos campeões da internet brasileira entre a eleição e a posse de Dilma. Até hoje, toda vez que acontece um fato novo com o governo Dilma, alguém me escreve dizendo: “bem que você previu”.

A primeira das previsões avisava que, em menos de dois anos, Dilma e Lula romperiam politicamente. Ora, pelos últimos acontecimentos, resta óbvio que eles estão em rota aberta de colisão. A cada oportunidade, Lula avisa a quem interessar possa que ainda não “desencarnou” do governo. A cada oportunidade, Dilma muda peças-chave do governo que Lula montou para ela, buscando impor o próprio estilo de administração. Dias atrás, num ato falho em entrevista coletiva no Mato Grosso, Dilma admitiu que cogita ser candidata à reeleição em 2014.

Ora, ora, não era o que estava combinado com Lula. A combinação, isso é público, é que ela esquentaria a cadeira por quatro anos até que Lula pudesse retornar triunfal na eleição de 2014. Era esse seu papel histórico. Na última semana, Lula entrou em campanha eleitoral explícita e descarada para retornar ao cargo. Enfim, descortina-se desde já, apenas seis meses após a posse, um impasse político entre o criador e a criatura, o embate eleitoral Lula versus Dilma. Várias outras previsões que ousei fazer naquela tarde de Novembro de 2010 já se concretizaram. Outras, se mostraram furadas. Proponho agora uma avaliação do que poderá vir a ser o governo Dilma. Por honestidade intelectual, usarei como metodologia primeiro reproduzir as previsões iniciais. Na sequência, fazer novas previsões. Ratificando ou retificando as primeiras. Eis, abaixo, a as previsões originais:
Novembro de 2010

DILMA SERÁ A GRANDE E VERDADEIRA MÃE DOS POBRE E PAI DOS RICOS

Getúlio Vargas gostava de se apresentar como “Pai dos Pobres”. A velha UDN, sempre corrosiva, acusava-o de ser também “Mãe dos Ricos”. Nada mais pertinente para aquele que foi, simultaneamente, o pai do populismo e a mãe do desenvolvimentismo brasileiro. Como Getúlio, Lula fez dois governos populistas, distribuindo, à moda de César, pão e circo aos plebeus. E ajudou tanto os banqueiros, os grandes empresários e os muito ricos, que Getúlio, se vivo estivesse, ficaria constrangido de rubor. Mas o crescimento econômico na Era Lula foi absolutamente medíocre. Se as previsões de que Dilma Roussef vai dar continuidade ao lulismo, como promete, tudo leva a crer que venha a ser, como Getúlio e Lula tentaram, a primeira e verdadeira “mãe dos pobres e pai dos ricos”.

Quem conhece bem Dilma Roussef garante que seria uma doida de pedra, caso de camisa de força, um misto de Nero com Stalin, grosseira como o primeiro e totalitária como o segundo. Talvez seja exagero da oposição, talvez… Como um acadêmico, devo evitar usar certos adjetivos fortes. De qualquer forma, relato aos senhores, prezados leitores, que eu a conheci pessoalmente, eu jornalista, ela autoridade do governo Lula. Primeiro como ministra das Minas e Energia, depois como chefe da Casa Civil. Tivemos algumas entrevistas, nas quais só ela respondia e eu pouco perguntava. Fiz parte da regra, não sou exceção. Nossa primeira entrevista começou 1h30 da madrugada e se estendeu até as 3h. Não me lembro de ter conseguido fazer mais do que duas ou três perguntas. Venho acompanhando há oito anos sua trajetória pública, os bastidores das suas aventuras. Tenho o orgulho de ter sido o primeiro jornalista a registrar a decisão de Lula de fazê-la candidata à sua sucessão. O acordo era Dilma governar apenas um mandato, quatro anos, mantendo a cadeira para Lula se candidatar em 2014. Somente uns três meses depois começaram as especulações sobre Dilma candidata. Enfim, conheço Dilma o suficiente para registrar aqui algumas previsões sobre seu futuro governo, caso se confirme nas urnas o que avisam as pesquisas.

ROMPIMENTO COM LULA

Previsões de 2010– Como suas alianças com os aiatolas e com Hugo Chávez foram passos absolutamente idiotas e irreversíveis, Lula perdeu a chance de realizar o sonho de presidir a ONU ou ganhar o Nobel da Paz. Mas não vai se conformar em vestir o pijama, não quer virar um Fernando Henrique. Lula vai querer ficar dando pitaco em tudo. Quanto a Dilma, totalitária em seu DNA, stalinista e prepotente, vai começar a achar que ganhou a eleição pelos seus belos olhos, por sua suposta competência como “mãe do PAC”. Vai querer fazer seu próprio governo. Os dois vão acabar rompendo. No máximo em dois anos, anotem aí.

Previsões de 2011– As previsões de 2010 estão se concretizando muito mais cedo do que o cogitado. Daqui para frente, há dois fatores em jogo. O primeiro e mais importante é a saúde de Dilma. Ela começa o governo fragilizada. Pouco aparece em público e quase não viaja. Em parte por estilo. Mas principalmente por falta de condições físicas. O câncer latente a obriga a certos comedimentos. Podem perguntar para qualquer oncologista. Se ela chegar com saúde ao final do governo, poderá tentar o segundo mandato. O segundo fator é o “simancol” de Lula. Ele não demonstrou qualquer sabedoria no início do governo Dilma. Vaidoso, atingido pela soberba, queria mostrar para Deus e o mundo que continuava mandando e desmandando. Seu comportamento é ofensivo, chega a relegar a atual presidente à reles capacho. Caso Lula venha a ganhar alguma sabedoria e abrir algum espaço honroso para Dilma, as relações entre ambos poderão permanecer boas. Caso contrário, Lula levará Dilma a buscar sua própria identidade. Por enquanto, Lula não tem dado demonstrações de sabedoria. Ao contrário. Exala soberba.
FORMAÇÃO DA PRIMEIRA EQUIPE

Previsões de 2010– Ela deve aceitar que seu governo, numa primeira fase, seja nomeado por Lula e pelos dois “rasputins”, José Dirceu e Antônio Palocci. O PT vai ficar com o núcleo duro, ou seja, as áreas de coordenação política e econômica. Dilma tem poucos quadros pessoais, como Erenice Guerra (finada, foi-se) e Valter Cardeal (agora queimado). Sobrou Maria Luiza Foster, hoje diretora da Petrobrás e alguns raros novos amigos, como o petista José Eduardo Cardoso e José Eduardo Dutra. Quanto aos demais ministérios, a serem loteados com os aliados, o PT vem tentando avançar sobre as áreas onde dá para fazer mais caixa dois. Contudo, a tendência é manter os atuais feudos. Até ai, nenhuma grande novidade. Vamos então às previsões.

Previsões de 2011
– Foi exatamente o que aconteceu. Vide exemplo do Ministério dos Transportes, feudo do PR de Valdemar da Costa Neto. Seis meses depois do início do governo, os principais partidos aliados, em especial o PT e o PMDB, continuam lutando para avançar em feudos onde se pode fazer caixa dois. A tal “crise política” tão falada e decantada não passa disso: a fome dos partidos por caixa dois, cujas nomeações Dilma continua tentando represar.

SEGUNDA EQUIPE DE GOVERNO

Previsões de 2010– Em menos de um ano, anotem aí a previsão, os ministros com alguma personalidade, algum caráter ou vergonha na cara, começarão a pipocar do governo em razão de grosserias, humilhações, futricas e maus tratos da mandatária. Nelson Jobim, que tende a ficar na Defesa (assim Dilma não precisa entregar ao PMDB mais um ministério onde dá para fazer caixa), deverá ser dos primeiros. Mas sai ainda em 2011, anotem aí. Esses ministros serão em quase totalidade substituídos por gente de terceira categoria, capachos dispostos a aguentar as explosões emocionais da mandatária em troca de algum interesse inconfessável.

Previsões de 2011– Já está acontecendo isso. Jobim já protagonizou duas crises, dois choques de personalidades fortes. Antônio Palocci e Alfredo Nascimento saíram, mas caíram sozinhos por conta de corrupção descoberta, não em razões de maus tratos da mandatária. Mas ambos foram substituídos por ministros sem luz própria. Gleise Hoffman, apesar de ser política de segunda linha, é senadora eleita por um grande estado, não chega a ser “gente de terceira categoria”. Mas o que dizer do novo ministro dos Transportes, o anônimo e enrolado Paulo Sérgio Passos?

NOVOS AMIGOS

Previsões de 2010– Vai ter um momento que a Dilma vai estar cercada essencialmente de invertebrados e de batedores de carteira. Gente da pior qualidade, capachos despreparados mas com interesses privados claros, como a finada Erenice Guerra. É muito curioso que seu principal consigliere, atual melhor-amigo-de-infancia, seja o suplente de senador Gim Argello, do PTB do DF. Vale à pena acompanhar o governo Dilma pelos passos (e enriquecimento) de Gim.

Previsões de 2011– Vide Paulo Sérgio Passos. O boato da hora é a instauração da amiga Maria Luiza Foster (outra enrolada por conta dos negócios do marido) na presidência da Petrobrás. Mantenho a previsão ipsis literis. A cada queda de ministro, Dilma vai optar por alguém que a imprensa vai definir como “técnico”.
PARALISIA ADMINISTRATIVA

Previsões de 2010– O governo não vai andar, vai ficar todo travado por conta do excesso de centralismo democrático da presidenta. Ela acredita que informação seja poder. Não vai dividir informação com ninguém. Alias, enquanto foi ministra da Casa Civil, o governo só andou porque Lula colocou duas assessoras pessoais e suas equipes para controlar os ministérios pelos bastidores, Miriam Belchior e Clara Ant. Com sua mania de centralizar, controlar e querer saber de tudo, Dilma sempre atrapalhou mais do que ajudou.

Previsões de 2011– O governo Dilma inicia semi-paralisado. A presidente já veio algumas vezes a público declarar que seu governo não está parado, que a Copa do Mundo vai acontecer, que o PAC vai deslanchar, e coisas do tipo. A tendência é que seja assim pelos próximos três anos e meio – um governo em paralisia administrativa por culpa do excesso de centralização da principal mandatária.
RELAÇÃO COM O CONGRESSO

Previsões de 2010– Tende a ser desastrosa. Dilma jamais gostou de negociar. O negócio dela é impor. Os parlamentares eleitos, por sua vez, têm em quase totalidade o DNA clientelista, franciscano, “é dando que se recebe”. Dilma tende a perder a paciência e a tentar passar o trator no Congresso, como registra todos os episódios de sua biografia. Paralisia política, impasses institucionais, talvez até crise de poderes. Ela não deve conseguir aprovar no Congresso nenhuma reforma relevante. O que não aprovar em seis meses, no máximo no primeiro ano de governo, não deve aprovar mais.

Previsões de 2011– Nos primeiros seis meses, a relação com o Congresso foi absolutamente desastrosa. Tende a piorar. Dilma não apresentou até o momento nenhum projeto de reforma estrutural que precise de fato do Congresso. E se não apresentou, não deve apresentar. A tendência é ficar até o final do mandato com pequenas crises de clientelismo pontual, todas relacionadas a feudos e a caixa dois, e nada que tenha a ver com grandes ideias, projetos ou reformas estruturais, como as necessárias reformas da Previdência, Política ou Tributária, temas que não estão na agenda da presidente.
CAIXA DE CAMPANHA

Previsões de 2010– Faço aqui uma previsão tão ousada quanto polômica. Nossa presidenta tende a tentar fazer seu próprio caixa de campanha, fora do caixa dois do PT, a fim de ganhar a independência em relação Lula. Ela sonha ter o próprio grupo. Precisa de dinheiro para financiar a política.

Previsões de 2011– Tudo vai depender de Dilma ser (ou não ser) candidata à reeleição, contra Lula. O fato é que ela já começa a mover algumas peças, substituindo pessoas em postos chaves por gente dela. Assim, Palocci que era do Lula (e em nome de Lula negociava diretamente com os grandes empresários), foi substituído por Gleise Hoffmann, cujo marido Paulo Bernardo dialoga bem com Dilma. Alfredo Nascimento, que coordenava o caixa dois para o PR, canalizando parte para o PT, foi substituído pelo “técnico” Passos, cuja nova missão é se reportar diretamente a Dilma.
BRASIL GRANDE

Previsões de 2010– Do lado bom, Dilma vai tentar acelerar um pouco o crescimento econômico. Isso é tão certo quanto o futuro rompimento com Lula. Como Adhemar, Médici e Maluf, ela gosta de obra grande, de usinas hidroelétricas gigantescas, de portos e auto-estradas rasgando a imensidão desse Brasil. Deveria ter sido ministra do governo Médici. Quer ressuscitar o Brasil Grande, mas com um viés de esquerda – ou daquilo que ela chama de esquerda. Confesso que não consigo ver muita diferença no PAC de Dilma com os projetos de Médici e Geisel.

Previsões de 2011– Dilma inicia o governo mostrando-se preocupada somente e tão-somente com grandes obras. Estádios para a copa do mundo, ampliação de aeroportos, hidroelétricas como a de Belo-Monte, Trem-Bala e mega-empreendimentos do tipo, todos eles entre 10 e 50 bilhões de dólares, ou mais. Também está de fato engajada em acelerar o crescimento, oi que é bom.

SUB-IMPERIALISMO BRASILEIRO

Previsões de 2010– No plano internacional, não vai trombar em hipótese alguma com os EUA. Acredito até que vai dar uma guinada à direita.  O jogo internacional dela é o sub-imperialismo. Vai usar dinheiro público para financiar grandes corporações brasileiras, criar oligopólios nacionais e sul-americanos. Os maiores beneficiários de seu governo serão Gerdau, Odebrecht, Andrade Gutierrez, Votorantim, Bradesco, etc. E a Vale? Ora, a Vale é do Bradesco.

Previsões de 2011– Está fazendo exatamente isso: beneficiando as grandes corporações supra-citadas com o objetivo de consolidar ainda mais os oligopólios regionais e nacionais, assim como o sub-imperialismo sul-americano.

OLIGOPÓLIOS

Previsões de 2010- As 30 maiores empresas brasileiras, que formam os oligopólios dos cinco maiores setores da economia (bancos, construção, siderurgico-metalúrgico, petroquímico e farmacêutico), vão receber no governo Dilma todo subsídio que precisarem do BNDES para consolidarem ainda mais o oligopólio interno e o sub-imperialismo na América do Sul. Também vão receber dinheiro direto dos fundos de pensão das Estatais para fazer o mesmo. O governo Dilma, enfim será essencialmente oligopolista e sub-imperialista. Anotem as previsões.

Previsões de 2011– É emblemático o caso do BNDS querer financiar com R$ 4 bilhões o desejo de Abílio Diniz de transformar o atual oligopólio da distribuição de alimentos em um quase monopólio. São igualmente emblemáticas as fusões da Sadia e Perdigão, ou a compra da WebJet pela Gol. Sempre com a total complacência dos órgãos do Estado.