Gito Chammas me telefonou para contar que o pãozinho barato está quase garantido até junho de 2009. Gito é como os amigos tratam o industrial Jorge Chammas, presidente do Grupo São Jorge e dono do maior moinho de trigo do país. Foi ele quem liderou a Guerra do Trigo, que desde fins de 2007 mobiliza os moinhos contra a obrigatoriedade de importar trigo caríssimo da Argentina. Foram meses de embates.

Foi Chammas quem primeiro denunciou os argentinos. Na seqüência bateu no Itamaraty, pediu ajuda no Congresso, negociou com ministros. A associação do setor, Abitrigo, chefiada por Laurence Pih, petista histórico, não queria incomodar demais o governo do amigo Lula. Mas Pih teve que correr atrás de Chammas para não se desmoralizar. Eram tantas as frentes abertas pelo industrial para resolver o problema, que ganhou dos adversários o apelido de “Agito em Chamas”. Alcunha carinhosa, admita-se, nada deletéria.

Havia o sério risco de ficarmos sem trigo a partir de julho. E com explosão de preços. Em maio, contra a vontade dos argentinos e do Itamaraty, os moinhos brasileiros conseguiram arrancar do nosso governo a decisão de suspender temporariamente os impostos sobre importação, venda e transporte de trigo. Agora Chammas conseguiu outra vitória no Congresso. A Câmara acaba de aprovar a MP do Trigo. Na última hora, o relator Arnaldo Faria de Sá, seu amigo pessoal e aliado na política paulista, incluiu uma emenda prorrogando até 30 de junho de2009 aisenção do IPI e da Cofins sobre o produto.

“Escreve sobre o Arnaldo, ele garantiu o pãozinho barato”, pediu-me Chammas. O deputado tem seu mérito. Fez a coisa certa, parabéns. Mas vou escrever sobre o problema maior com a Argentina. Pois a MP do Trigo, que ainda precisa ser aprovada pelo Senado, segura o preço do pão e do macarrão por mais seis meses. E depois? O melhor a fazer é resolver de vez o problema estrutural. Por aqui. E também com a Argentina.

A questão do trigo emergiu em fins do ano passado, quando começou a subir o preço do pão francês – e consequentemente a pressionar toda a cadeia alimentar, o que desaguou numa alta dos juros. O pãozinho de repente virou o grande vilão da inflação. Subia de preço quase diariamente. As panificadoras colocaram a culpa na farinha de trigo, e os moinhos de trigo, por sua vez, acusavam os argentinos. O trigo fechou 2007 no patamar de R$710 atonelada e a farinha com uma alta de 140%.

O problema está resolvido com a MP do Trigo? Não. As isenções temporárias do IPM e da Cofins foram paliativas. Juntas, somam 9,25% de carga sobre preço final do trigo.  A indústria vem dando a contrapartida – a redução entre 9% e 10% do preço da farinha para panificadores e fábricas de macarrão. De junho para cá, o preço do pão não caiu. Apenas deixou de subir. E quando a MP caducar?

A questão principal é que falta oferta de trigo no Brasil. Principalmente por conta de uma crise na Argentina. O trigo está inflacionando lá. Saiu de US$ 180 para US$320 atonelada. E o frete para São Paulo subiu de US$ 17 para US$50 atonelada. O Brasil consome 10 milhões de toneladas de trigo por ano, produz 4 milhões e importa 6 milhões de toneladas. Ou seja, quase dois terços do trigo consumido no Brasil é importado, sendo que 80% vem da Argentina.

Os moinhos nacionais estão sendo vítimas da política de dumping dos argentinos. O governo de Néstor Kirchner criou alíquotas de exportação diferenciadas para prejudicar os brasileiros. Eles pagam 28% para exportar o trigo, 10% para a farinha e apenas 5% na pré-mistura do pão e macarrão. Isso é subsídio camuflado. O efeito é que a farinha chega ao Brasil 30% abaixo do custo dos moinhos nacionais.

Enfim, o trigo argentino dominou nosso mercado por conta dos subsídios de lá, aliados com a diferença de câmbio. Estava tudo bem para o consumidor brasileiro (mas não para o produtor, nem para o industrial) até que faltou trigo na Argentina.

E que tal começar a importar de outros países? O problema é que o governo brasileiro vinha coibindo as importações com taxas absurdas. Todo o trigo importado tem um imposto adicional de 25% sobre o valor do frete dos navios, a titulo de taxa de renovação da frota da marinha mercante. O trigo argentino não vem de navio, entra por terra. Em maio, Guido Mantega suspendeu esse imposto. Mas em caráter temporário, só até dezembro. Depois disso, voltamos a depender do trigo argentino.

Quando a crise estava no ápice um grupo de industriais foi reclamar a Miguel Jorge, ministro do Desenvolvimento. Queriam que o governo baixasse das taxas de importação para que pudessem comprar trigo de não-argentinos. Mas um de seus assessores credenciados confidenciou que não poderiam fazer nada por causa do Itamaraty.

A prioridade máxima do Itamaraty é o Mercosul, seguido de América do Sul, onde o Mercosul é o ponto central. Por conta do tabuleiro internacional de negociações, na OMC, por exemplo, o Itamaraty não quer provocar qualquer abalo com a Argentina. E os argentinos querem manter a reserva de mercado no Brasil.

Recentemente, em fins de julho, o petista Laurence Pih deixou a presidência da Abitrigo. O novo presidente da associação é o diplomata Sérgio Amaral, ex-ministro do Desenvolvimento e ex-embaixadorem Paris. Tucano, Amaral é comprovadamente muito mais ativo do que Pih. Hábil negociador, tem um grande histórico de resultados concretos em defesa da indústria nacional. Talvez ele consiga negociar uma saída de longo prazo para o segmento. Mas qualquer que seja a saída, passa por, em algum momento, por uma atitude do Brasil. Precisamos enviar bananas para os argentinos.